Dom Quixote: a liberdade como bem básico do cidadão

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Dom Quixote, herói libertário. Nesta assertiva centrarei a minha exposição, que visa a destacar os aspectos culturais, sociais e antropológicos que Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) desenvolve na sua magnífica obra. Concluirei ressaltando a feição moderna da heroicidade quixotesca.

I – DOM QUIXOTE, HERÓI LIBERTÁRIO.

Cervantes encarnou o liberalismo telúrico ibérico, que aflora em outras figuras dessa cultura. Após os estudos de Alexandre Herculano (1810-1877), Américo Castro (1885-1971), Francisco Martínez Marina (1754-1833), José María Ots Capdequí (1893-1975), Fidelino de Figueiredo (1889-1967), Sampaio Bruno (1857-1915), Francisco Clementino de San Tiago Dantas (1911-1964), etc., ficou claro que a tradição liberal é, na Península Ibérica, mais antiga que a vertente patrimonialista, que veio a se inserir na história dos povos espanhol e português como realidade adventícia, posterior a essa inicial aspiração a um individualismo estoico e libertário.

A tradição contratualista visigótica deu expressão a essa velha tendência independentista, belamente expressa nos Fueros Aragoneses, [1] e foi o ponto central das dores de cabeça de conquistadores alienígenas, como Napoleão Bonaparte (1769-1821). O Imperador dos Franceses começou o seu rápido declínio quando decidiu invadir os confins da Ilha europeia, a Península Ibérica e a Rússia. Defrontou-se com a tremenda capacidade de sobrevivência e o patriotismo do povo russo e com a particular heroicidade da sociedade espanhola, capaz de lutar até o último homem em prol da defesa da sua independência e da liberdade. O quadro de Francisco de Goya (1746-1828) que retrata os fuzilamentos de 1812 dá prova dessa capacidade de luta heroica dos ibéricos contra o invasor estrangeiro.

Destaquemos, aqui, um traço originalíssimo da gesta libertária portuguesa, em face do bonapartismo que invadia países e destronava reis. Dom João VI encarnou, na decisão de abandonar a Metrópole e transferir a capital do Reino para uma das Colónias, a figura libertadora do Monarca em face do invasor alienígena. Uma heroicidade encarnada na gesta do Rei português, que não duvidou em enfrentar o bravo Oceano, transferindo a capital do Reino para uma das Colônias, o Brasil. Heroicidade prática que, evitando o confronto armado, driblou o inimigo numa original e repentina retirada, pondo em prática uma saída estratégica já prevista, desde séculos anteriores, pela elite portuguesa.

Se há um traço que marca a personalidade de Dom Quixote, é o da defesa incondicional que o herói cervantino faz da liberdade. O ponto essencial do seu programa cavalheiresco é a ética da honra [2], que se centra na defesa da liberdade individual. Liberdade de ir e vir, liberdade de não ser importunado pelos burocratas do rei, liberdade de amar e de folgar com os amigos, liberdade para os cativos, liberdade das amarras contrarreformistas expressas no direito filipino e nos preconceitos inquisitoriais.

A defesa incondicional da liberdade, tal é o leitmotiv do belo discurso que Cervantes põe em boca de Dom Quixote, no Capítulo 58 da Segunda Parte da obra. Eis as palavras do herói cervantino quando deixa o palácio dos Duques, após ser tratado por estes com todas as delicadezas e afagos da alta nobreza: “A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos, que aos homens deram os céus; não se lhe podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens. Digo isto, Sancho, porque bem viste os regalos e a abundância que tivemos neste castelo, que deixamos; pois no meio daqueles banquetes saborosos (…) parecia-me que estava metido entre as estreitezas da fome; porque os não gozava com a liberdade com que os gozaria, se fossem meus (…)”.

Comentando o discurso de Dom Quixote, escreveu Mário Vargas Llosa: “Recordemos que o Quixote pronuncia esta louvação exaltada da liberdade ao partir dos domínios dos anônimos duques, onde foi tratado a corpo de rei por esse exuberante senhor do castelo, a encarnação mesma do poder. Mas, nos afagos e mimos de que foi objeto, o Engenhoso Fidalgo percebeu um invisível espartilho que ameaçava e rebaixava a sua liberdade, porque os não gozava com a liberdade com que os gozaria, se fossem seus. O pressuposto desta afirmação é que o fundamento da liberdade é a propriedade privada (…). Não pode ser mais claro: a liberdade é individual e exige um mínimo de prosperidade para ser real. Porque quem é pobre e depende da dádiva ou da caridade, nunca é totalmente livre” [3].

A liberdade apregoada e defendida por Dom Quixote é a que hodiernamente chamamos de liberdade negativa. Trata-se de uma liberdade não adjetivada, liberdade primária de ir e vir, essa liberdade que estimulou as revoltas espanholas, portuguesas e ibero-americanas, nas denominadas “conjurações”, seja dos comunheiros espanhóis do século XVI, seja dos nossos conjurados neogranadinos ou mineiros de fins do século XVIII. Ora, a liberdade primária defendida pelos conjurados latino-americanos é a de pensar e agir, a de não serem taxados os cidadãos sem prévia negociação com a Coroa.

Essa liberdade negativa é também defendida por Sancho Panza. Em face das complicadas tarefas de governador da Insula Barataria, o fiel escudeiro prefere a vida simples de quem se contenta com o trabalho manual e o alimento na hora certa; prefere essa vidinha aos luxos da corte e à complicada ritualística da governança, que lhe exige, entre outras coisas, entrar em combate com incômoda armadura que lhe impossibilita os movimentos, levar uma surra monumental dos inimigos fictícios e se submeter à famélica dieta prescrita pelos médicos, a fim de manter as aparências do palco da política.

Eis o discurso com o qual Sancho dispõe-se a justificar a sua saída do poder, para desfrutar a simples liberdade dos filhos de Deus: “Abri caminho, senhores meus, e deixai-me voltar à minha antiga liberdade; deixai-me ir buscar a vida passada, para que me ressuscite desta morte presente. Eu não nasci para ser governador, nem para defender ilhas nem cidades dos inimigos que as quiserem acometer. Entendo mais de lavrar, de cavar, de podar e de pôr bacelos nas vinhas do que de dar leis ou defender províncias nem reinos. Bem está São Pedro em Roma; quero dizer: bem está cada um, usando do ofício para que foi nascido. Melhor me fica a mim uma fouce na mão, do que um ceptro de governador; antes quero comer à farta feijões, do que estar sujeito à miséria de um médico impertinente, que me mate à fome; e antes quero recostar-me de Verão à sombra de um carvalho, e enroupar-me de Inverno com um capotão, na minha liberdade, do que deitar-me, com a sujeição do governo, entre lençóis de Holanda (…)”.

Dom Quixote, herói libertário. Mas, também, cavaleiro andante que luta em prol da justiça. Encontramos, na escala axiológica do herói cervantino, o culto insofismável a esses dois valores: liberdade, mas também justiça (que hoje denominaríamos de democracia, no sentido de igualdade perante a lei e ausência de privilégios). Dom Quixote, como fará Alexis de Tocqueville (1805-1859) três séculos mais tarde, bate-se por um liberalismo que concilia defesa da liberdade e defesa da justiça/igualdade [4]. O liberalismo telúrico quixotesco é, como o de Tocqueville, um liberalismo social.

O Cavaleiro da Triste Figura, embora reconheça a legitimidade dos poderes constituídos, desconfia dos seus excessos. Numa Espanha presidida pelo Estado patrimonial dos Áustrias, Dom Quixote fica com um pé atrás em face da autoridade. Esta, como nos subúrbios das grandes cidades brasileiras ou no nosso sertão, somente se fazia presente, na Espanha cervantina, para tornar mais difícil a vida do desprotegido cidadão. Quando os poderosos extrapolam os seus privilégios, utilizando uma legislação que, como a filipina, privilegiava quem tivesse recursos contra os que não tinham nada, o herói cervantino não duvida em favor de quem vai empunhar as suas armas: em defesa dos fracos.

Dom Quixote desconfia da autoridade, mas quer, ao mesmo tempo, o mundo em ordem. Ora, a paz social deveria ser obra dos indivíduos chamados por uma vocação especial – os cavaleiros andantes – a pôr ordem nas coisas humanas, sem que fosse necessário atribuir essa tarefa aos burocratas d’El-Rei, que certamente vão utilizar a parcela de poder que receberam para escravizar os seus semelhantes. Cervantes, como Tocqueville, apela para uma aristocracia da ordem, que se contraponha ao exercício da autoridade régia.

II – CONCLUSÃO: DOM QUIXOTE, MODELO DE HERÓI MODERNO.

Dom Quixote é o modelo do herói moderno. Cervantes é o precursor da heroicidade na literatura moderna, assim como Descartes (1596-1650) foi o precursor da filosofia moderna com o seu Discurso do Método. A essência da modernidade pode, certamente, ser condensada na seguinte ideia: o homem descobre a perspectiva antropocêntrica e faz, de si próprio, o centro do cosmo. Ora, nesse antropocentrismo prometeico e iconoclasta, o homem ousa representar Deus à sua imagem e semelhança.

Pois bem: Cervantes apropria-se dessa perspectiva antropocêntrica e ergue um ideal ético para o homem moderno: o da pessoa-amor, que ama incondicionalmente e que, ao redor desse amor-doação constrói o seu mundo, ou melhor, faz evanescer o mundo real na névoa da metáfora continuada da loucura quixotesca.

A fonte (neoplatônica e judaica) que inspira a esta perspectiva heroica é indubitável, e é o próprio autor quem a identifica no prólogo do Quixote, onde Cervantes escreve: “Se vos meterdes em negócios de amores, com uma casca de alhos que saibais da língua toscana topareis em Leão Hebreu, que vos encherá as medidas” [5]. O filósofo judeu espanhol, falecido na Itália em 1535, foi, com a sua clássica obra Diálogos de Amor, a voz inspiradora da loucura amorosa de Dom Quixote. Um pouco mais adiante, o mesmo pensador inspiraria a outro gênio do século XVII, o filósofo luso holandês Baruch Espinosa (1632-1677).

Intuiu com propriedade o genial Miguel de Unamuno (1864-1936) essa reviravolta ontológica, quando, na sua Vida de Don Quijote y Sancho, escreveu: “Dom Quixote amou a Dulcineia com amor acabado e perfeito, com amor que não corre atrás do deleite egoísta e próprio; entregou-se a ela sem pretender que ela se entregasse a ele. Lançou-se ao mundo a conquistar glória e louros, para ir logo depositá-los aos pés da sua amada” [6].

Em boa hora a editora Martin Claret entregou ao público brasileiro, em 2016, uma edição completa da imortal obra de Cervantes. Porque é justamente a lição de desprendimento heroico e de idealismo do bravo manchego, o exemplo de que mais precisamos, nós brasileiros, após terem sido submergidas as nossas instituições nas baixas e putrefatas águas da corrupção generalizada e do clientelismo rasteiro, nesta hodierna etapa da cultura patrimonialista, que tudo coloca a serviço de interesses clânicos e mesquinhos. Hoje, como ontem, O Quixote representa – repitamos aqui as palavras de Ivan Tourgueneff (1818-1883) – “ante todo a fé; a fé em algo eterno, imutável, na verdade, naquela verdade que reside fora do eu, que se não entrega facilmente, que quer ser cortejada e à qual nos sacrificamos, mas que acaba por se render à constância do serviço e à energia do sacrifício” [7].

Notas

[1] No ato de coroação do Rei, segundo os Fueros Aragoneses, o Justiça-mor recitava a seguinte fórmula: “Nós, que valemos tanto quanto vós e que, juntos, valemos mais do que vós, vos coroamos Rei para que zeleis pela nossa vida, liberdade e posses. Ou se não, não”. (Cf. da minha autoria: Liberalismo y Conservatismo en América Latina. Bogotá: Tercer Mundo / Universidades de Medellín, Libre de Pereira y Simón Bolívar, 1978).

[2] A “ética da honra” ou “da convicção” foi caracterizada por Max Weber como aquela norma de comportamento que se reporta unicamente à consciência moral, sem levar em consideração os resultados da ação. É a ética do “sim, sim, não, não” da pregação evangélica. Cf. Weber, Max. Ciência e política, duas vocações. (Prefácio de Manoel T. Berlinck; tradução de Leônidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota). São Paulo: Cultrix, 1972.

[3] Vargas Llosa, Mario. “Una novela para el siglo XXI”, in: Cervantes, Miguel de, Don Quijote de la Mancha. (Edição do IV Centenário. Estudos introdutórios de Mario Vargas Llosa, Francisco Ayala e outros). Madrid: Alfaguara / Real Academia Española / Asociación de Academias de la Lengua Española, 2004, p. XIX.

[4] Tocqueville, Alexis de. A democracia na América. (Tradução, introdução e notas de Neil Ribeiro da Silva). Belo Horizonte: Itatiaia / São Paulo: Edusp, 1977, p. 329.

[5] Os Diálogos de Amor de Leão Hebreu, inicialmente publicados na Itália, eram bem conhecidos na época de Cervantes.

[6] Unamuno, Miguel de. Vida de Don Quijote y Sancho. Madrid: Alianza Editorial, 2004, p. 94.

[7] Tourgueneff, apud Luis Astrada Marín, “Cervantes y El Quijote”, in: Cervantes, Miguel de. El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha. (Edição do IV Centenário, com gravuras de Gustavo Doré, comentário de Diego Clemencín. estudo crítico de Luis Astrana Marín e síntese acerca dos comentadores do Quixote, a cargo de Justo García Morales). Madrid: Editorial Castilla, s/d, (1947), p. LXXVII.

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Ricardo Vélez-Rodríguez

Ricardo Vélez-Rodríguez

Membro da Academia Brasileira de Filosofia e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, professor de Filosofia, aposentado pela Universidade Federal de Juiz de Fora e ex-Ministro da Educação.

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