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Jorge Luís Borges e a defesa do individualismo

É muito provável que o leitor já tenha ouvido falar na figura de Javier Milei, um pré-candidato à presidência da Argentina que tem uma profunda “vis comica”. Com um cabelo que parece inspirado em um personagem de mangá, o economista libertário sempre termina seus discursos com “Viva a Liberdade, c******!”. Certa vez, ele foi em um evento de aficionados por quadrinhos em Buenos Aires vestido de “General Ancap”, o líder fictício do país de faz-de-conta “Liberland”, criado pelo próprio. A missão do super-herói? “Combater os keynesianos e coletivistas.”

Porém, o assunto principal deste texto não é Milei, e sim as visões políticas de outro argentino: Jorge Luís Borges. O escritor teve um impacto tão grande nesse possível futuro ocupante da Casa Rosada que Milei chegou a se definir como “Liberal Borgiano”. Não é novidade para ninguém que Borges é um dos autores mais destacados da literatura latino-americana, mas suas visões políticas não são tão conhecidas por aqui.

Ser um individualista em uma das regiões mais esquerdistas do mundo pode causar problemas para qualquer um. Apesar de seu caráter introvertido, da cegueira que o invadiu em suas últimas décadas e de sua inexistente ofensividade, Borges passou os últimos anos de sua vida sendo cancelado. Motivo? Sua firme defesa do individualismo em uma bolha acadêmica e literária muito comprometida com causas coletivistas.
Ao contrário da maioria dos autores latino-americanos, Jorge Luis Borges nunca apoiou a revolução cubana ou se manifestou a favor de qualquer movimento que tentasse valorizar a figura do coletivo sobre o individual. Essa linha vai na contramão de gente de grosso calibre como o colombiano Gabriel García Márquez, o brasileiro Jorge Amado, o argentino Julio Cortázar, o mexicano Carlos Fuentes – que mais tarde retiraria seu apoio ao castrismo – e o peruano Mario Vargas Llosa – que fez o mesmo que Fuentes e se tornou um grande liberal clássico.

“O mais urgente dos problemas do nosso tempo (já denunciado com lucidez profética pelo quase esquecido Spencer) é a interferência gradual do Estado nos atos do indivíduo; na luta contra esse mal, cujos nomes são comunismo e nazismo, o individualismo argentino, talvez inútil ou prejudicial até agora, encontrará justificativas”, escreveu Borges em Nosso pobre individualismo (1946).

Jorge Luis Borges recebeu o Prêmio Miguel de Cervantes em 1980, o mais importante prêmio literário da língua espanhola. No entanto, apesar de ser candidato ao Prêmio Nobel de Literatura por mais de 20 anos, ele nunca recebeu o reconhecimento que foi dado na época ao comunista chileno Pablo Neruda, em 1971, ou ao amigo pessoal de Fidel Castro, Gabriel García Márquez, em 1982. Motivo? Maria Kodama, esposa do falecido Borges, pode nos ajudar a entender.

Ela conta que, por ocasião de um doutorado honorário que lhe foi concedido pela Universidade do Chile em 1976, o escritor programou uma visita ao país, então governado pelo ditador Augusto Pinochet. Quando as autoridades do Nobel souberam da viagem, ligaram para ele de Estocolmo para tentar dissuadi-lo, ao que o escritor respondeu: “Olha, senhor; agradeço sua gentileza, mas depois do que você acabou de me dizer, meu dever é ir ao Chile. Há duas coisas que um homem não pode permitir: suborno ou se deixar subornar. Muito obrigado, bom dia.”

Borges, ao contrário de Milei e tantos outros autores latino-americanos, sempre procurou se dissociar de qualquer tipo de luta política. No entanto, ele não podia deixar de ser sincero toda vez que lhe perguntavam em entrevista sobre suas posições ideológicas ou seu antiperonismo radical. “Nunca pertenci a nenhum partido, nem sou representante de nenhum governo… Acredito no Indivíduo, não acredito no Estado. Talvez eu não seja nada mais do que um anarquista pacífico e silencioso que sonha com o desaparecimento dos governos. A ideia de um indivíduo máximo e um Estado mínimo é o que eu gostaria hoje”, disse Borges.

O escritor argentino nunca foi perdoado pelos intelectuais de esquerda e pela imprensa por seu anticomunismo. Isso lhe valeu uma reflexão bastante atual sobre os xingamentos recebidos: “Há comunistas que sustentam que ser anticomunista é ser fascista. Isso é tão incompreensível quanto dizer que não ser católico é ser mórmon”, concluiu. Quantas vezes o leitor já viu alguém associar o liberalismo (ou qualquer um que se opõe ao coletivismo) ao fascismo? Seguramente inúmeras vezes. O último caso que eu vi veio do músico Leoni, que publicou em seu Twitter que “A História demonstra: o liberal é o fascista de férias. O neoliberal não tira férias”. Seguramente ele nunca leu A Doutrina do Fascismo, do ditador italiano, mas não vem ao caso agora.

O interessante é que Borges via fascismo e comunismo como filhos do mesmo monstro chamado coletivismo. “Você começa com a ideia de que o Estado deve administrar tudo; que é melhor ter uma organização administrando as coisas, e não ter tudo ‘deixado ao caos ou às circunstâncias individuais’; e você acaba chegando ao nazismo ou ao comunismo, é claro. Toda ideia começa como uma bela possibilidade, e então, bem, quando envelhece, é usada para tirania, para opressão.”

Claramente, Jorge Luis Borges não era o típico intelectual que adulava governos ou políticos para receber prêmios ou dinheiro. Ele foi fiel às suas ideias, e criticou – como poucos em nosso subcontinente – a ineficácia dos Estados para gerir a vida das pessoas. Não me surpreende que um argentino pense isso, haja vista a destruição que o peronismo fez no país desde 1950 até os dias de hoje (Jorge Luís morreu em 1986). O que me surpreende é que existam argentinos que NÃO pensem como Milei e Borges.

*Artigo publicado originalmente por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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