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Em resposta à carta aberta de um racista abjeto

diversidadeEm um site chamado “Revista Fórum”, me deparei, logo ao acordar (que triste amanhecer!), com um texto que já tinha quase 8 mil compartilhamentos no Facebook, intitulado Carta aberta aos brancos pró-movimento negro. É claro que eu não sou nenhum desavisado e não esperava do texto nada além de lixo, como patético é o próprio título. Não há razão nenhuma para direcionar uma “carta aberta” a um grupo que não tem uma identidade particular, não se unifica, não se organiza em torno de nenhuma bandeira comum, sendo apenas categorizado por uma arbitrariedade superficial como a quantidade de melanina.

A capacidade de ser repulsivo, porém, se supera a cada linha. Deixando de lado o fato óbvio de que, sobretudo em um país tão miscigenado quanto o nosso, não está com nada esse discurso imbecil de “brancos” e “negros”, conceitos que praticamente não existem estanques, isolados, mas sim como mesclas de inúmeras variações, o autor, evidentemente um ativista do “movimento negro”, já começa, em tom de depreciação, dirigindo-se ao imponderável destinatário “você, pessoa branca”. Importante destacar, desde já, o fato de que no Brasil de hoje não existe nada expressivo como uma Ku Klux Klan, não existe nenhum “movimento branco” hostil aos negros a que essa carta pudesse ser endereçada. Nem é preciso. Todos aqueles que o racista boçal que escreveu o texto identifica como “brancos” já se podem sentir, automaticamente, os alvos da mensagem.

Segundo o autor, a “pessoa branca, constantemente, apresenta a tendência de querer tomar para si o protagonismo de todas as lutas. Acha que pode escrever e falar sobre racismo”. A afirmação infame me faz lembrar que, efetivamente, abundam intelectuais de esquerda querendo discorrer acerca da realidade dos pobres e miseráveis, dos que realmente sofrem, como se vivessem em tais agruras, diagnosticando causas infantilmente, tais como o “capitalismo” e o “patriarcalismo”, embora desfrutem de todas as benesses que o sistema econômico pode oferecer. Querem falar em nome de quem não lhes deu procuração. Duas questões a considerar aí. Primeira: mesmo no alto de sua prepotência, eles não “acham que podem” escrever ou falar sobre alguma coisa.  Eles realmente podem. Felizmente inventamos uma coisa chamada liberdade de expressão. Segundo: o raciocínio correto exposto acima obviamente não se aplica a quem fala em nome de causas RACISTAS e NOJENTAS como a do autor do texto, que estará errado de qualquer maneira. Muito embora eu deva admitir que é delicioso que os esquerdistas “brancos” (sic) que apoiam uma ideologia esclerosada e histérica como a do chamado “movimento negro” recebam críticas dele próprio, como certa vez aconteceu com o deputado Jean Wyllys em um evento de que participou junto a ativistas dessa bandeira.

“Acha que pode lutar lado a lado comigo contra o racismo”, continua o autor, que parece realmente muito incomodado com a companhia de “brancos”. “Como branco, não tem a menor ideia sobre o que é racismo e, por conseqüência, não sabe nada sobre a opressão que eu sofro”, sentencia. Esse raciocínio reproduz uma mentalidade tipicamente marxista, segundo a qual existem categorias humanas que, pela sua própria natureza, apresentam lógicas particulares, impossíveis de dialogar com as de outras categorias. Assim, existe um abismo intransponível entre as “classes dominantes” e as “dominadas”, condenadas a se agarrar a causas e princípios próprios que as outras serão eternamente incapazes de entender e abraçar. A conseqüência é que o ódio e a hostilidade são a única forma possível de relacionamento entre esses diferentes grupos.

Honestamente, considero essa ideia, acima de tudo, antinatural. Todos, salvo em casos de enfermidades que nos deixem insensíveis, temos os mesmos sentidos, temos pele e nervos e, consequentemente, temos a noção do que seja a dor. Todos somos capazes de vivenciar os mesmos sentimentos. Todos sabemos o que é odiar, o que é amar, o que é ter raiva, o que é ter vergonha. Somos seres com capacidade de empatia suficiente para, mesmo sem vivenciar, possuir ao menos uma vaga noção do que sente o outro quando passa por determinada experiência. É isso, inclusive, o que nos faz diretamente responsáveis pelas atrocidades que viermos a cometer; se eu não fizesse ideia de que meu ato poderia causar sofrimento, que culpa eu teria mais do que o animal que ataca, fere e mata sem qualquer deliberação e consciência?

Os abstratos “branco” e “negro” são, ambos, humanos. Sentem as mesmas coisas e são capazes de pensar e compreender as mesmas coisas. Durante parte importante da história humana, certas sociedades construíram estruturas de pensamento racistas por questionarem fundamentos como esse. No entanto, os RACISTAS do “movimento negro” não ruborizam ao restaurá-los em sua retórica vil.

“Por mais revoltante, sem sentido e escroto que você ache o racismo. Não sabe nada sobre ele. Simplesmente porque nunca o sofreu. Você pode se indignar com atitudes racistas, com declarações racistas, pode colaborar com a luta contra o racismo, mas jamais colocar-se como protagonista nesse movimento, porque, enquanto branco, embora em potencial, você permanece sendo meu opressor”. Prezado “branco” brasileiro, entendeu o recado? Você pode nunca ter discriminado alguém negro, amarelo, cigano ou o que seja na sua vida inteira. Você pode se casar com uma negra ou um negro, com um amarelo e um vermelho. Você pode ter nojo de racismo. De qualquer maneira, você é uma força opressora do pobre negro que desabafa sua condição de oprimido em um texto na Internet cuspindo em você e desvalorizando qualquer contribuição sua por um mundo mais respeitoso e saudável. Você sempre terá culpa pelo que séculos atrás um monte de “brancos fedidos” fizeram, mesmo que você, quem sabe, seja descendente de um punhado de imigrantes europeus pobres que vieram tentar a vida na virada do século XIX, quando os escravos estavam sendo libertados.

O autor do texto chega ao cúmulo de dizer ao “branco” que ele não sabe o que é o racismo porque “seu psicológico não foi destruído pelas práticas racistas desde os navios negreiros e a baixa auto-estima não é inerente ao seu povo”. Respondo a esse racista asqueroso que o “meu povo”, que eu realmente amo, apesar de todos os seus profundos problemas e defeitos, é o povo BRASILEIRO, com todas as suas cores e formas. Ademais, o autor deve ser um Matusalém para sentir alguma coisa do que era a vida dos escravos nos navios negreiros. Assim como eu não sei o que é “racismo” porque pertenço ao “povo branco” (e viva o apartheid eterno, pelo que entendi), ele também, pela sua lógica, não faz a mínima ideia do que eles experimentaram e sofreram, seja quem for.

O autor, em seu último parágrafo, principia dizendo que, “apesar de você achar que cor de pele não faz diferença, saiba que ela faz toda a diferença sim”. Sim, eu não acho que faz diferença. Achar que faz, isto sim, estabelece uma distinção importante: entre pessoas minimamente civilizadas, ao menos nesse ponto, e racistas grosseiros. É nessa última categoria que o autor do artigo se encontra. O vitimismo do chamado “movimento negro”, assim como de todas as demais “minorias barulhentas” que preferem mendigar verbas e privilégios estatais através do método da divisão artificial do povo, pode ser visto como uma ingenuidade de fracos de espírito, mas não aqui. Aqui ele já demonstra sua face mais extrema e doente, e se transforma no exato espelho daquilo que se propõe a combater.

Acabo de perceber, ao final destas linhas, que cometi uma indelicadeza, da qual certamente me acusarão: respondi uma carta que não é para mim. Desculpem a intromissão. Explico: apesar de ser um “branco” – com parentes relativamente próximos de origem portuguesa, italiana e indígena -, eu não sou “pró-movimento negro”. Nada sinto por esse “movimento” além de desprezo e repúdio.

 

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Berlanza é editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica" e “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”.