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Zeitgeist proibicionista

“De todas as tiranias, aquela que é exercida para o bem de suas vítimas pode ser a mais opressiva.” C. S. Lews

Morreu na última sexta feira o desportista Fernando Gonçalves, depois de saltar da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, trajando o equipamento denominado “wingsuit”.  “Flying wingsuit” é uma nova modalidade de esporte radical em que o praticante salta de alturas variadas com um traje especial que imita as asas de um morcego (veja foto).  Depois de descer em altíssima velocidade, não raro em voo rasante sobre montanhas, a aterrissagem é feita com o auxílio de um pequeno paraquedas, aberto a pouca altura do solo.

O perigo e, evidentemente, as altas doses de adrenalina, além da sensação de poder voar, estão na base desse esporte.  Não há um só praticante que desconheça os riscos inerentes a essa atividade.  Os que escolhem fazê-la é porque entendem que os prazeres de um salto superam os riscos, por maiores que sejam estes últimos.

Depois da morte de Fernando, como de hábito, a grande imprensa saiu em defesa de maiores regulamentações, na esperança de que isso possa, de alguma maneira, evitar outros acidentes e mortes.  Matéria de O Globo, por exemplo, destaca que o esporte “não é regulamentado no Brasil, o que suscita debate sobre a necessidade de se garantir mais segurança aos praticantes da modalidade”, embora quem a lê não encontre qualquer manifestação de praticantes e/ou entidades defendendo esta tese.  Muito pelo contrário: a maioria dos entrevistados defendeu que “não há como impedir uma iniciativa individual, mesmo que implique risco para o praticante”.

É evidente que, ao pedir regulamentação, os autores da matéria desejam mesmo é proibi-la, ainda que não diretamente, mas tornando-a tão onerosa e/ou complicada que impeça a maioria dos saltos.  Ou alguém acha que autoridades governamentais detêm conhecimento específico (tecnologia) para determinar alterações na vestimenta, a fim de torná-la mais segura, sem descaracterizar o esporte? Ou que esses mesmos burocratas, de dentro de seus escritórios, possam conhecer técnicas de voo melhores e mais seguras que as utilizadas por seus praticantes?

Esse espírito regulador/proibicionista, infelizmente, encontra-se incrustado em boa parcela da nossa sociedade, sempre ávida por mais segurança, ainda que isso implique em cada vez menos liberdade.  Não lhes passa pela cabeça que Fernando, praticante experiente, sabia exatamente os riscos que corria e, assim mesmo, voava.  Que a felicidade, para ele, era algo muito diferente do que é, por exemplo, para os jornalistas que assinam aquela matéria do Globo.

Como escrevi alhures, a síntese do pensamento proibicionista é a seguinte: as pessoas são incapazes de saber o que é melhor para elas e o governo deve, portanto, protegê-las de seus próprios desejos e necessidades. Alguma força avassaladora compele os proibicionistas a querer nos proteger de nós mesmos.

O corolário necessário desse raciocínio é que somente os governos e seus especialistas são sábios e capazes, enquanto os cidadãos comuns são seres fracos e sem juízo, que devem ser eternamente guiados e protegidos para que não se machuquem.

Os defensores do proibicionismo imaginam que os governos tenham adquirido, sabe-se lá por que método, o preciso conhecimento sobre o que os reles mortais desejam, merecem ou podem ter. Em virtude dessa sapiência onisciente, defendem que lhes sejam concedidos poderes normativos e coercitivos para ditar o que pode ser feito, como deve ser feito, quanto e quando deve ser feito.

A ideia de permitir que as pessoas sigam o seu próprio destino – às vezes errando, outras vezes acertando, eventualmente até morrendo por causa do caminho que escolheram – está além da sua compreensão.  A solução, portanto, é nada menos que planejar a vida alheia nos mínimos detalhes, da forma como os sábios do governo imaginem ser a melhor, a mais eficiente e menos dolorosa para todos.

A grande verdade, entretanto, é que, embora no mais das vezes bem intencionadas, todas as tentativas de tornar o ser humano virtuoso pela utilização da força do Estado sempre desaguaram em tirania e opressão. Quantos crimes já não se cometeram ao longo da História na pretensão de transformar os homens em seres melhores, isentos de vícios e imunes às más escolhas?

Apesar da longa história das tiranias ao redor do mundo, os defensores da liberdade sempre enfrentaram um inimigo poderoso: a eterna comparação entre o mundo real — com todas as suas imperfeições — e o mundinho ideal que povoa os corações e as mentes das almas caridosas e abnegadas, sempre dispostas a “salvar” a humanidade – pelas mãos do governo, claro.

O prejuízo maior desse “zeitgeist” amedrontado, salvacionista e proibicionista, no entanto, está no fato de que, nas sociedades onde a liberdade é abandonada em prol da busca por uma segurança extremada (embora jamais alcançável), o fracasso estará sempre à espreita, pois um dos principais motores do progresso humano é a coragem – e a liberdade – dos homens (ou pelo menos de alguns deles) para correr riscos. Ou alguém acha que Colombo teria chegado à América, Santos Dumont e os Irmãos Wright inventado o avião e os astronautas pisado na lua, caso não tivessem assumido muitos (e sérios) riscos?

É tão inquietante quanto preocupante pensar que estejamos nos transformando numa enorme massa de gente amedrontada e passiva, dominada pela pueril expectativa de que a quimera da segurança absoluta possa ser provida pelo Estado-Babá.

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.