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Túnel do tempo: o movimento liberal em 2010

É preciso ter a consciência objetiva das adversidades apresentadas pelo cenário nacional, admitir os entraves que encontramos para promover o avanço efetivo de nossas agendas, as decepções em que por vezes temos submergido, pois não se pode travar a luta em estado de negação. No entanto, para quem está em combate, é também um alento necessário consultar as páginas do passado e identificar em que medida o trabalho valeu a pena.

Deparei-me não intencionalmente com uma matéria jornalística de 28 de janeiro do já algo distante ano de 2010, publicada pelo veículo britânico The Economist, sob o título The almost-lost cause of freedom – Why is economic liberalism so taboo in socially liberal Brazil? (livremente traduzido para: A causa quase perdida da liberdade – por que o liberalismo econômico é tão tabu no Brasil socialmente liberal?). A manchete despertou minha curiosidade. Como será que aquela publicação registrava, onze anos atrás, o estado do ativismo pelo liberalismo econômico no país?

Passo a traduzir alguns dos comentários registrados pela matéria. O texto começava citando uma das frases pitorescas do liberal mato-grossense Roberto Campos, em que ele dizia que, em um país com uma cultura dirigista, endossar o liberalismo era tão estranho “quanto fazer sexo em público”. De acordo com o The Economist de 2010, ano da primeira eleição da petista Dilma Rousseff, a observação de Campos continuava em vigor para o Brasil, onde “liberais” – o texto enfatizava: no sentido de defensores de uma economia de mercado livre – “são tão raros quanto flocos de neve”. A matéria reconhecia que nenhum dos prováveis candidatos nas eleições presidenciais falava sobre redução de impostos e “os dois principais candidatos estão ambos na centro-esquerda defensora de impostos e gastos”.

O texto se referia, naturalmente, à petista Dilma e ao tucano José Serra (embora minhas sensibilidades particulares não me permitam adicionar a expressão “centro” em adjetivações ao PT, a despeito da postura de conciliação com as forças fisiológicas, do MDB e do Centrão, que o partido foi forçado a assumir). O The Economist dizia ainda que a escassez de liberais econômicos no Brasil era estranha, dado que, no Chile, o liberalismo econômico ficou associado à atuação dos economistas da escola de Chicago durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, enquanto, no Brasil, o regime militar “escolheu um modelo econômico construído em torno do planejamento estatal e das importações restritas. É necessário voltar ao século 19, quando a então monarquia do Brasil foi brevemente subordinada a economistas escoceses, para encontrar algo como o liberalismo clássico”.

Para os redatores da matéria, uma das razões para isso seria o voto obrigatório: “Isso significa que um grande número de eleitores pobres, que pagam poucos impostos, mas se beneficiam dos gastos do governo com a previdência, ajudam a empurrar os partidos na direção de um Estado maior. Se o mesmo sistema fosse aplicado à América, os Democratas poderiam gozar de uma maioria permanente.”

Outra causa seria a hegemonia, na Nova República, de lideranças que fizeram oposição ao regime militar, geralmente absortas em uma atmosfera de esquerda: “Durante a ditadura, o presidente atual, Luiz Inácio Lula da Silva, era chefe sindical; seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, foi um acadêmico marxista. O favorito nas pesquisas presidenciais, José Serra (dos sociais-democratas de Cardoso), era um ex-líder estudantil exilado. Sua principal rival, Dilma Rousseff (do Partido dos Trabalhadores de Lula), era trotskista”. Mesmo assim, a matéria reconhecia que esses líderes, quando eleitos presidentes, mesclavam pragmaticamente uma agenda social-democrata com aspectos mais moderados, tal como FHC, que, na leitura do The Economist, seguia a linha política do primeiro-ministro britânico Tony Blair, enquanto o PT, ao menos em parte do governo Lula, respeitou o tripé macroeconômico.

Diante do cenário, o texto se perguntava o que sobreviria nesse campo, em matéria de pensamento, nas próximas gerações. O economista Carlos Alberto Sardenberg dizia na época temer que “as escolas brasileiras e as universidades com financiamento público sejam tão distorcidas ideologicamente que sua visão de mundo provavelmente se reproduza na próxima geração”. Por outro lado, o texto ressaltava avanços reais, como a diminuição de restrições ao comércio exterior desde o governo Collor e uma maior autonomia do Banco Central (o que os fatos viriam provar ser bastante relativo).

O que era a “tribo” dos liberais econômicos de 2010, no diagnóstico do The Economist? “O Fórum da Liberdade, encontro anual na zona sul da cidade de Porto Alegre, atrai os membros mais dedicados dessa tribo. Mas também podem ser encontrados no Movimento por um Brasil Competitivo, lobby fundado por Jorge Gerdau Johannpeter, um barão do aço; na influente faculdade de economia da PUC-Rio, uma universidade; e entre os banqueiros e gerentes seniores de empresas brasileiras que atuam no comércio”.

O texto concluía assim: “Como em muitas democracias, os liberais do Brasil carecem de um partido onde suas opiniões sejam bem-vindas. O enfraquecido partido Democratas (anteriormente chamado de Frente Liberal) tentou se tornar isso, mas lutou para escapar de suas origens como um partido mecânico antiquado. O último golpe em sua tentativa de transformação veio em novembro, quando a polícia abriu uma investigação sobre um suposto esquema de propina envolvendo José Roberto Arruda, o governador Democrata de Brasília (ele nega irregularidades). O pequeno grupo de liberais econômicos do Brasil, marginalizado na política, pode se consolar de que pelo menos seu país está entre os mais socialmente liberais. Todos os tipos de minorias religiosas professam sua fé livremente; São Paulo sedia a maior marcha do orgulho gay do mundo. Os conservadores culturais que empurram na direção oposta são desorganizados e pouco influentes. Por enquanto, porém, as pessoas que desejam professar o liberalismo econômico são aconselhadas a fazê-lo em particular. Os críticos de Roberto Campos costumavam chamá-lo de “Bob Fields”, uma tradução de seu nome para o inglês, dando a entender que suas ideias eram estrangeiras. Um político que defendesse suas ideias agora ainda seria visto como um pouco excêntrico”.

Pode-se, a meu ver até com certa razão, discutir a menção ao conservadorismo na reta final do texto, bem como o esquecimento de figuras que defenderam o liberalismo ao longo da República, mas prefiro que nos atenhamos ao ponto essencial desta recordação. Parece claro que o pessoal em 2010 não sonhava com o que viria a acontecer.

Os redatores do The Economist não anteviram as rejeições ao socialismo e ao PT nas ruas, o fenômeno da emergência da dita “nova direita” (com sua costela liberal) que já estava em gestação nas redes sociais, a multiplicação de institutos em defesa do liberalismo (já havendo, além do nosso pioneiro Instituto Liberal, outros como o Instituto Mises Brasil e o Instituto Millenium), de organizações estudantis, de iniciativas culturais, eventos, documentários, livros, comunicadores, que levariam ao conhecimento de um grande público nomes como Mises, Hayek ou Milton Friedman. Não imaginaram que o discurso ficaria cool entre um segmento social relevante, especialmente entre as juventudes, a ponto de candidatos que não necessariamente teriam por natureza afinidade com a proposta, como um pastor Everaldo ou um Jair Bolsonaro, se virem obrigados a adotá-la, ao menos em suas campanhas eleitorais. Não anteviram uma bancada de liberais, no Partido Novo, no próprio DEM, no Patriota e outros partidos, ainda diluídos, mas já marcando presença no Parlamento.

É inegável que, nos últimos onze anos, nossas ideias conquistaram um espaço que não tinham antes. Conseguimos aumentar a pluralidade das correntes de opinião capazes de reverberar na Nova República. Não é possível, em sã consciência, acreditar que isso não significou nada. Encontremos forças para enfrentar os amargores e desilusões do presente na certeza de que, ainda que influenciando realizações concretas a passos de tartaruga, nossos esforços não foram e não serão em vão.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, sócio honorário do Instituto Libercracia, editor do site Boletim da Liberdade e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica", “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”, "Os Fundadores - O projeto dos responsáveis pelo nascimento do Brasil" e "Introdução ao Liberalismo" (co-autor e organizador).