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Trocas compensatórias: conhecimento econômico versus cientificismo bondoso

Não sou um capitalista sem coração, tampouco cínico.

Somente acho que o estudo traz “iluminadas luzes” ao nosso entendimento – ampliado – sobre um determinado campo e a própria vida em geral.

É o conhecimento que permite que nós, seres humanos, possamos agir com prudência e com efetiva responsabilidade!

Sabem, de boas intenções o inferno já está lotado.

Por isso fico incrédulo com pessoas “humanas” e seus apelos passionais do tipo “sou 100% vidas”, em especial aqueles vindos de jornalistas adeptos do beautiful people e, pasmem, de professores das áreas de ciências econômicas de uma grande universidade metropolitana, agora instalada em bairro nobre de Porto Alegre.

De jornalistas que nunca passaram nem perto do estudo econômico até vá lá, mas como podem professores das áreas econômicas desconhecerem um conceito tão básico chamado de custo de oportunidade?! Inacreditável!

Tudo na vida está sujeito a “trade-offs”, ou seja, aquilo que de forma simples são “trocas compensatórias”. Tenho convicção que meus alunos captaram tal conceito.
Absolutamente tudo envolve compensações e, portanto, entre determinadas opções, é preciso escolher “a melhor possível”. Compulsoriamente tem que haver uma certa troca.

O trivial tema da imposição de limites de velocidade serve como exemplo. Poderíamos salvar vidas diminuindo os limites de velocidade, mas isso igualmente prejudicaria alguns motoristas – alguns profissionalmente – e a própria atividade econômica como um todo.

Meus caros humanistas, na realidade vivida não existe almoço grátis, mesmo!

Não existe o paraíso na terra porque puramente os recursos são escassos e, dessa forma, é impossível atender todos os objetivos de maneira integralmente satisfatória.

As escolhas se realizam sob o manto da incerteza, já que o ser humano não dispõe do conhecimento total do mundo, o que implica algum tipo de risco. Como faz falta para muita gente um pouco do que detalhou o economista Oliver Williamson com a Teoria dos Custos de Transação! Ele parte da premissa básica de que o homem não tem conhecimento integral sobre o ambiente, por isso não consegue obter uma solução que maximize a eficiência.

Já o conceito de custo de oportunidade determina que o benefício de cada ação deve ser ponderado em relação ao benefício perdido da melhor ação não seguida.

No caso do Covid-19, mesmo com o risco de vida dos grupos de risco (e pelos dados disponíveis, 80% dos que morreram foram idosos com problemas respiratórios pré-existentes), é necessário tomar decisões que trarão a maior quantidade de bem-estar humano, agora e no futuro. Ninguém deseja a morte dos velhinhos… santa hipocrisia!

O problema é que as pessoas não enxergam os custos das oportunidades perdidas, na maioria das vezes invisíveis.

Nem mesmo as excelentes e promissoras notícias dos resultados da administração da cloroquina ajudam no entendimento dos custos gerais envolvidos.

Não se trata de uma escolha entre vida e economia, trata-se simplesmente de alertar – cientificamente – que haverá uma devastadora depressão econômica. Num futuro breve, com tal situação econômica, serão gerados mais fome, miséria, suicídios e mortes e, assim, perder-se-ão muito mais vidas humanas do que se pondera que ocorrerá agora com a contaminação virótica. Isso é simplesmente algo lógico e racional.

Embora o pensamento diferente de nobres corações, com cabeças carentes de conhecimento científico da vida como ela é, as mortes pelo desastre econômico serão gigantescas, porém silenciosas, distintamente das vítimas pelo vírus, que são emocionalmente anunciadas diariamente por uma mídia suja e comprometida, sendo publicizadas de maneira sensacionalista.

Por favor, não existe essa dicotomia “bondosa” entre vida e economia; são coisas inseparáveis no tempo! Estou assistindo e recomendo uma série de televisão alemã espetacular, Babylon Berlin. Ela narra e mostra o caldeirão cultural, a decadência política da República de Weimar, seus excessos, o terrível declínio dos padrões morais da época e a baderna generalizada nos “anos dourados”, antes de os nazistas chegarem ao poder.

Não tenho dúvidas de que o colapso econômico que iremos experienciar impulsionará o surgimento de deuses ex-machina em todo o mundo. O monstro Hitler emergiu e alcançou o poder, sobretudo pelo fascínio ao líder salvador do colapso econômico alemão no início dos anos 30!

Fico imaginando os tais humanitários da vida humana, cegos para os efeitos catastróficos que as depressões econômicas podem e trazem para reais vidas humanas; de carne e osso.

Valorizar a importância do estudo sério não é querer dar “carteiraços” por aí… O conhecimento técnico, o estudo significativo e a preocupação com vidas humanas vão muito além de dadivosos desejos românticos… Não, meus amigos, não me preocupa o mercado acionário, preocupa-me mesmo a maximização do bem-estar humano, bem humano!

Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.