Série “Espiritualidade e Pensamento Liberal” – Apresentação

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Desde que comecei a escrever para o Instituto Liberal, venho refletindo sobre um projeto que concebi para esse espaço, e acredito que chegou a hora de colocá-lo em prática. Em artigo publicado aqui em 30/07/2014, intitulado “Coletivismo na ficção pop”, eu comentei que “a política não é uma entidade isolada de todos os demais aspectos e elementos da sociedade”, mas que “sua vivência e as melhores maneiras de pensá-la estão sempre entrelaçadas com a cultura, em suas diversas manifestações, nas quais grita a alma de um povo ou de um tempo”.

Naquela oportunidade, o argumento justificava uma apreciação de manifestações do campo da literatura, do cinema e dos quadrinhos, na ficção popular, que de algum modo expunham, por simbologia e analogia, conceitos relacionados ao tipo de pensamento político preconizado, grosso modo, por este Instituto: o pensamento liberal, em diversas escolas e matizes, mas conservando sempre certas características fundamentais.

Agora, queremos ir além; a cultura abrange muito mais. Valorizar a questão cultural, em matéria brasileira, por exemplo, significa revolver as grandes figuras, intelectuais e políticas, que difundiram ideias politicamente inspiradoras no passado. Não é por outra razão que procuramos sempre enfatizar a utilidade de vasculhar personalidades como José Bonifácio, Joaquim Nabuco ou Carlos Lacerda, que foram tema de textos de nossa autoria, sem jamais desprezar a contribuição fundamental de filósofos e economistas internacionais, tão bem difundidos por este Instituto. Mas “cultura” abrange também, por exemplo, as diversas formas de espiritualidade e religiosidade na história humana.

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A concepção metafísica que abraçamos, a religião que professamos, qualquer que seja – bem como a ausência de qualquer crença -, normalmente acaba tendo muito impacto na maneira com que enxergamos a vida em sociedade, e acaba tendo alguma influência na formação de nosso pensamento político. O entendimento dessa relação já começa a ser encarado com seriedade a partir da obra seminal de Max Weber, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”(1905), em que o célebre sociólogo aprecia a conexão entre o pensamento protestante e a mentalidade própria das modernas sociedades capitalistas, identificando sua tese de que o primeiro foi decisivo para a formação destas últimas.

Não estamos dizendo que isso seja definitivo, que a crença ou descrença que possuímos seja, individualmente, elemento único a estabelecer que percepção sócio-política teremos, mas não nos parece razoável desprezar esse fator. A partir dessa consciência, pretendemos, talvez, uma ousadia: estamos lançando neste momento a série “Espiritualidade e Pensamento Liberal”. Justamente por compreender que a temática é delicada e motiva normalmente fortes discussões nos fóruns de debates políticos, achamos por bem iniciar com esse texto de apresentação, a fim de explicar precisamente o que pretendemos com esse projeto, e o que NÃO pretendemos.

A série consistirá em entrevistas, sem limite ou prazo para terminarem – é, portanto, como que um “espaço aberto” para o tema -, com diferentes personalidades, conhecidas ou anônimas, que tenham algo a dizer sobre suas respectivas tradições ou cosmovisões religiosas/metafísicas/espiritualistas, e que reconhecidamente professam concepções políticas pertinentes ao público-alvo deste Instituto, coerentes com suas determinações estatutárias. Os entrevistados relacionarão para nós uma coisa à outra, indicando em que medida suas crenças impactam em suas concepções políticas, ou, principalmente, em que medida uma e outra coisa DIALOGAM entre si atualmente.

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DIÁLOGO é o que define nosso propósito. As religiões e crenças constituem comunidades de forte referência cultural, e queremos entender melhor, a partir dos próprios envolvidos, como anda o panorama de percepção política em seus movimentos, e como as nossas ideias fundamentais, como propriedade privada, liberdades individuais, Estado de Direito, liberdade de expressão, entre outras, podem se conectar com os pensamentos das diversas tradições que constituem o panorama religioso brasileiro.

Sob a forma dessas entrevistas, faremos cada pessoa se expressar como John Locke havia feito em sua extraordinária Carta sobre a Tolerância (1689), em que o filósofo inglês sustenta o princípio fundamental da liberdade religiosa de uma maneira diferente da usual: empregando uma linguagem cristã. Isto é, de forma absolutamente magistral, Locke usa princípios extraídos de sua própria visão religiosa para justificar suas ideias de liberdade, no tocante a esse mesmo aspecto. É precisamente o que queremos obter de nossos interlocutores, no que diz respeito a todos esses princípios fundamentais acima mencionados. A única diferença é que Locke ainda cometia a impropriedade, a nosso ver, de abrir uma exceção em sua tolerância aos ateus, que considera não sejam merecedores dela; aqui, a todos a estendemos.

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O que NÃO pretendemos com essas entrevistas? Desnecessário dizer que não há a menor intenção de fazer qualquer proselitismo religioso. Todos os entrevistados e convidados, de todas as crenças que encontrarmos, gozarão do mesmo espaço e poderão se expressar com liberdade sobre suas convicções, desde que atendam ao enfoque político deste Instituto. O objetivo não será defender suas posições, nem atacar suas crenças; será observar e entender como as duas esferas, para cada uma dessas pessoas, se comunicam.

O que sinceramente esperamos é que a iniciativa seja estimulante para a curiosidade intelectual dos nossos leitores, principalmente no sentido de entender como pessoas de ideias, concepções religiosas e, consequentemente, estilos de vida tão diferentes, podem convergir para a mesma compreensão dos bons princípios sociais que aqui sustentamos e difundimos.

Aguardem a primeira entrevista da série!

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Comentários

  1. Sugestão de entrevistaa: Caio Fábio e Silas Malafaia. Os dois pastores divergem sobre o que seria o conservadorismo ou conservadorismo cristão, entretanto é evidente que os ideais da liberdade pautam os dois.

  2. Prezado Lucas, caso seja do seu interesse, sou presidente da Associação de Dirigentes Cristãos do Rio (ADCE) – filiada a UNIAPAC – ONG Internacional de divulgação dos valores cristão orientados para a rentabilidade empresarial.
    Eu tenho o livro do ultimo encontro: A rentabilidade dos valores – caso seja do seu interesse.
    Att
    Carmen Migueles