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Sempre é tempo para se promoverem os mesmos erros de sempre

Foi com espanto que li o artigo intitulado Resposta À Pandemia Pode Ser Um Modelo Universal De Sociedade Voltado Aos Direitos De Todos, Defende Filósofo[1], escrito pelo Sr. Barretto. Já li muitos textos esotéricos em jornais – alguns até simpáticos, como os da seção de horóscopo –, mas nunca vi sequer um escrito com tamanha arrogância travestida de filosofia.

Espantei-me não por ser ilógico que o Sr. Barretto fale, na mesma semana em que o presidente do Brasil foi massacrado pela opinião pública por declarar indiferença às mortes por Covid-19, que a pandemia não só é irrelevante como será benéfica para a sociedade. É extremamente lógico que titulados filósofos estejam sempre do lado das catástrofes e das ditaduras e nunca dos homens comuns – afinal, por cima do Olimpo de seus títulos se torna difícil ter alguma compaixão com coisas tão pequeninas.

Mesmo diante do rotineiro, espantei-me por acreditar veementemente que o primeiro passo para falar as besteiras que o Sr. Barretto disse é parar de se espantar com coisas que, apesar de lógicas, são extremamente graves.

Há uma pandemia que se alastra pela face da Terra desde os primórdios do Homem. Sem respeitar fronteiras, etnias ou diplomas, essa doença sem cura modifica o cotidiano das pessoas, influindo em suas decisões e planos, servindo de tema central para romances e de objeto de estudo para as maiores mentes que já passaram por este planeta: o nome desta pandemia – vejam só – é morte.

Talvez seja a morte algo muito novo para o Sr. Barretto, talvez a humanidade que ele encontrou nos livros que leu tenha passado a morrer somente a partir da aparição destes vírus, bactérias e bacilos. Talvez o Sr. Barretto tenha esquecido que, muito antes dos revolucionários direitos humanos que ele prega, os homens se diferenciavam de tudo o que é divino ao se intitularem mortais. Talvez o Sr. Barretto tenha esquecido que ser humano é ser mortal, que só há adversidades pela existência da mortalidade, que só há um sistema fundamental de eleição de valores racionais pela existência de adversidades – e é isso que sempre marcou a humanidade, muito antes de qualquer vírus.

Talvez o Sr. Barretto deva procurar mais a fundo em seus livros por ao menos um humano; só a partir desse momento ele poderá então entendê-los.  Isso se for realmente da intenção dele se sentir minimamente capaz de dizer algo sobre a humanidade – ainda mais sobre o que será de seu futuro.

Mas afirmar arrogantemente qual será o futuro da humanidade é a marca do homem que não entende nada de seres humanos – daquele que sequer se vê como um. Foi assim com o Sr. Marx e com o Sr. Hitler e, ao que parece, sempre que houver uma nova velha forma de morrer – de fome, de pobreza advinda da cobrança de juros, por meio de novas doenças –, aparecerão aqueles iluminados que tentarão prever o futuro da humanidade baseando-se na morte, sem no entanto considerar que é a existência da morte que faz com que cada ser humano viva e escolha para si os valores que considera mais valiosos – de forma que se torna impossível prever o futuro de um, quiçá de todos.

Como todos os outros cientistas do passado, o Sr. Barretto incidiu no mesmo erro de sempre: proclamar uma responsabilidade coletiva como a salvadora de todos os males. Talvez o Sr. Barretto não tenha lido Hannah Arendt e não saiba que a melhor forma de fugir da responsabilidade – a real, a única que existe, a individual – é dizendo-se parte de um sistema coletivo de responsabilidade; foi assim com Adolf Eichmann e foi assim muitas outras vezes em Nuremberg. Toda vez que se lê responsabilidade coletiva, deve-se traduzir o termo para um que seja mais exato: álibi.

Mais que isso, um filósofo que diz que os direitos humanos ultrapassam os direitos fundamentais é um sujeito que não entende nem de filosofia, nem de humanos, nem de direitos, nem de fundamentos. A própria palavra “fundamento” já exprime que são esses os direitos que alicerçam aqueles “humanos”.  É como um engenheiro que considera que numa casa o telhado é mais importante que as paredes – ele não entende nada de telhados, nem de paredes, muito menos de casas; talvez entenda de guarda-chuvas – que não são nada mais que telhados ambulantes.

Ao fim, concordo com o Sr. Barretto quando ele diz que o vírus lançará ratos para a infelicidade e o ensino dos homens. Eles já estão saindo do bueiro; emitindo decretos e escrevendo artigos, se aproveitando do momento de fraqueza das pessoas comuns para repetir os mesmos erros de sempre contra elas; e roer até o fim os sublimes laços que as ligam aos seus direitos fundamentais, inatos e inalienáveis, em nome da mesma infantil ideia que marcou a vida de todos os lunáticos que já mancharam a face deste planeta: o progresso.

Então, caveat lector!

[1] Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2020/04/resposta-a-pandemia-pode-ser-um-modelo-universal-de-sociedade-voltado-aos-direitos-de-todos-defende-filosofo-ck9ldrebv003v017nmvzqvoat.html

*Igor Damous é advogado criminal. 

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