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Sem orientação de longo prazo, não há avanço

Faz poucos dias, morreu João Paulo Diniz, filho do empresário Abílio Diniz. João Paulo, segundo consta, era um esportista e possuía um estilo de vida bastante regrado, o que não foi suficiente para evitar uma morte aos 58 anos.

Logo após a notícia, comecei a ler uma série de posts e mensagens alertando e sugerindo que deveríamos “viver a vida”, gozando de seus prazeres imediatos, vinculados a comidas, bebidas, viagens e outros tipos de desejos. O “racional” é de que a morte está sempre à espreita.

Fiquei pensando que, embora a mensagem seja sedutora, parece-me que esse é um dos grandes problemas do pensamento “pós-moderno e progressista” mundial. Sob o ponto de vista histórico, não há dúvidas de que, na América do Sul, vis a vis a Europa e aos EUA, a lógica curto-prazista sempre foi o “modus operandi” – e aí é que sempre habitou o perigo! Não há crescimento e progresso sólido e sustentado sem a construção do futuro, que necessita ser realizado a partir do presente, o que implica certa renúncia dos desejos presentes, a fim de construir e se beneficiar no longo prazo.

Em outras palavras, é preciso trabalhar, planejar, economizar e edificar um futuro mais inovador e melhor. Na inovação, raramente existe o “momento Eureka”. As inovações demandam várias tentativas e muita persistência.

Viver “loucamente” a vida no presente é sensacional para livros e para roteiros de filmes.

Tanto no aspecto individual como no empresarial, é singelo perceber como a questão temporal importa e é decisiva.

Tristemente, não é a regra, mas quantas pessoas abandonam os prazeres imediatos da vida para investirem numa formação universitária, por exemplo, visando a obterem maiores benefícios futuros?

Quantos empresários investem os ganhos nos seus negócios, com o objetivo de gerar mais diferenciais competitivos para construir uma posição competitiva mais vantajosa no futuro?

Evidente que não é uma tarefa fácil. Confesso que por inúmeros  motivos também fraquejei, em algumas situações, nessa questão. Penso que, quanto mais jovens somos, em razão da pouca “janela” que possuímos, mais frágil é o nosso autocontrole e a nossa preocupação com o longo prazo. A cegueira se apossa de nós.

Como sempre, os incentivos importam, e a própria “qualidade” de nossas instituições depende da orientação temporal, aqui sendo de pior qualidade justamente pela despreocupação com a construção de um futuro melhor para todos.

No país do carnaval, os incentivos são contrários ao investimento no futuro, aquele que induz as pessoas a trabalhar, economizar e investir numa vida melhor no futuro. Nesta terra, a procrastinação na implementação de políticas públicas de sedimentação de um futuro promissor é fundamental para que os donos do poder e da democracia continuem explorando e se apropriando da riqueza gerada pelos seus reais criadores.

Neste país, a orientação curto-prazista, similarmente, evoca a busca de “salvadores da pátria”, que compram a alma popular em troca de migalhas, mesmo que isso custe o futuro de gerações de brasileiros.

Até mesmo no país berço das liberdades individuais e econômicas, os valores virtuosos, pilares do crescimento e do progresso, têm sido abandonados em nome do total gozo do presente. Narrativas populistas, “progressistas” e insensatas alardeiam mensagens do tipo “você pode ser quem você quiser”, “viva somente o presente”, “faça tudo o que quiser agora”, entre outras, o que demonstra a ênfase na estipulação de um pensamento de curto prazo nas populações.

Na Terra do pau brasil, Macunaíma também era guiado pelo prazer e pelo oportunismo. Evidente que o medo imperava. No conhecimento econômico lógico, a orientação de longo prazo também é um componente essencial para o desenvolvimento econômico e social.

Penso que, se os incentivos não forem transformados para que as pessoas passem a ter a capacidade de pensar e de avaliar os impactos no longo prazo – ironicamente o ensino brasileiro valoriza e estimula o gozo no presente -, continuaremos sendo vítimas de populistas, corruptos, ladrões e despreparados, que não roubam apenas dos cofres públicos, mas que sequestram nossa felicidade e nosso futuro.

Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.