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Scruton, a ordem do conservadorismo e as falácias reacionárias e revolucionárias

A espontaneidade é ou deveria ser a força-motriz que rege a ordem da sociedade civil. Assim, em outras palavras, o gigante filósofo inglês Roger Scruton (1944 – 2020) usa o economista austríaco Friedrich Hayek (1899 – 1992) para balizar a ordem das relações sociais que seriam regidas por uma “mão invisível” – aproximadamente como Adam Smith define as relações de um mercado que se autorregula sob a égide de uma também “mão invisível”. Hayek, portanto, que, como lemos, nasce em fins do século XIX, vivencia quase a totalidade do XX e, por pouco, não belisca ao século XXI, traz luz ao pensamento conservador de Scruton. É fascinante como, dentro desse processo de conservadorismo e liberalismo, os autores dialogam em suas ideias que, embora por vezes se oponham, ajustam-se mesmo assim debaixo da palma da mesma “mão invisível” citada acima.

Tais trocas voluntárias e livres entre os indivíduos constituem-se, portanto, em “regimento” da organização nas sociedades modernas. O conservadorismo, no ensejo de manter saudável esse processo de relações sociais entre indivíduos nessas sociedades modernas, serve como eixo-mestre para nortear as comunidades. O conservadorismo se porta como as raízes nervosas que direcionam e impulsionam a “mão invisível das relações”.

Mas o que seria, de fato, o conservadorismo? De acordo com Scruton, “da matéria-prima do afeto humano, construímos associações duradouras com regras, ocupações, cerimônias e hierarquias que atribuem às atividades um valor intrínseco. Escolas, igrejas, bibliotecas, coros, orquestras, bandas, grupos teatrais; clubes de críquete, times de futebol, […] xadrez; sociedade histórica, instituto de mulheres, museu, clube caça e pesca […]” são maneiras de as pessoas reunirem-se com formalidade em tais associações. Cada indivíduo, sustenta Scruton, submete-se, como já citado acima, de forma voluntária às normas desses grupos formais, o que torna-se fonte de orgulho.

Desses grupos habitados e fomentados por cooperação social orgânica, que cresce “de baixo para cima por relações de amor, de respeito e de responsabilidade”, é composto o conservadorismo. Aquele estilo Clint Eastwood, durão e mascador de tabaco não representa, necessariamente, o arquétipo de um conservador, que passa longe do reacionarismo.

Para Scruton, o conservadorismo é filho de um sentimento que o indivíduo maduro difunde: “a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas”. Paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, segurança da propriedade e da vida familiar são “bens coletivos” que dependem da cooperação alheia. Porém, a movimentação moderna para a destruição desses princípios é rápida, haja vista o que se verifica na Revolução da França, tão criticada pelo irlandês Edmund Burke, que jamais se opôs às mudanças graduais da sociedade moderna, conquanto não ocorressem de forma revolucionária, tampouco sanguinária e “guilhotinista” como ocorreu na França.

Ato contínuo, após a Revolução Russa, o Partido Comunista teve como primeira missão destruir as associações civis no Leste Europeu. Além das associações lacradas, as mesmas que citamos acima (igrejas, clubes, etc.), no comunismo soviético toda e qualquer forma de caridade privada foi proibida.

Na esquerda do século XX, o trabalho é árduo para destruir as instituições mais sagradas, como a família, a propriedade e a fé; mas, sabendo que o arcabouço para tais instituições é a moral, tentam destruí-la com o relativismo que impera na academia e na mídia. Scruton responde: “O homem que diz que a verdade não existe está pedindo para que você não acredite nele. Então, não acredite.”

Amparados na cadeia de um aparelhamento gramscista e protegidos por paredes de uma retórica do politicamente correto, movimentos da New Left, como o feminismo, trabalham na contramão do conservadorismo, ou seja, da ordem natural da vida. Discorre Scruton: “A tradição da Esquerda é julgar o sucesso humano pelo fracasso de alguns. Isso sempre lhe oferece uma vítima a ser resgatada. No século XIX, eram os proletários. Nos anos 60, a juventude. Depois as mulheres e os animais. Agora, o planeta.”

O bom conservadorismo, no entanto, é a antítese de um reacionarismo cego, burro e manco. E mais: o conservador tem no ceticismo um de seus principais pilares. O conservador é vigilante e crítico também entre os seus. Um lord conservador atropela com classe qualquer falácia revolucionária socialista, assim como não fecha os olhos para o mundo exterior, restringindo-se à caverna, regida pelo Mito, que nada mais é do que um falso conservador.

Findo com uma célebre frase do filósofo britânico: “Nós, conservadores, somos chatos. Mas também estamos certos”.

Que saudade do Scruton!

Referências

Scruton, Roger, 1944- Como ser um conservador / Roger Scruton; tradução de Bruno Garschagen; revisão técnica de Márcia Xavier de Brito. – 8. ed. – Rio de Janeiro: Record, 2018.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC. Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor de imprensa do deputado federal Marcel van Hattem, na Câmara dos Deputados (Brasília). Além de colunista e autor no Instituto Liberal (RJ), é colunista dos sites Opinião & Crítica e Tribuna Diária. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria de Segurança Pública de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021).