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Schopenhauer e o carreirismo político no Brasil

Estava a ler A Arte de escrever, de Arthur Schopenhauer, e me deparei com uma afirmativa interessante do filósofo. Ele fala, noutras palavras, sobre a vocação para realizar algo. Apesar de o livro ser focado na escrita, ele abrange a filosofia e a ciência em geral. O trecho nos possibilita refletir sobre diversas áreas do fazer. Eis parte do trecho: “Diletantes, diletantes! – Assim os que exercem uma ciência ou uma arte por amor a ela, por alegria, per il loro diletto [pelo seu deleite], são chamados com desprezo por aqueles que se consagram a tais coisas com vistas ao que ganham, porque seu objeto dileto é o dinheiro que têm a receber. […] No entanto, só se dedicará a um assunto com toda a seriedade alguém que esteja envolvido de modo imediato e que se ocupe dele com amor, con amore. É sempre de tais pessoas, e não dos assalariados, que vêm as grandes descobertas”.

No final do texto de Schopenhauer, entende-se que o filósofo se refere a um contexto de ciência, mas quero transpor a ideia para o carreirismo político no Brasil, infestado por oportunistas sem qualquer comprometimento ou capacidade com a coisa pública.

Não levo a ideia ao extremo de imaginar que políticos trabalhem de graça. Acredito que todo trabalhador é digno de seu salário. Isso é um princípio. Nas democracias modernas, políticos têm bons salários, haja vista Estados Unidos e o próprio Reino Unido. No Brasil, o que debate-se não é salário, mas sim os privilégios. Já citei em outros textos bons exemplos da política brasileira, que abrem mão de privilégios e estão focados em mudar nosso contexto.

O problema, todavia, é que esse arquétipo é de uma exceção da regra em nossa política atual. Quantos políticos brasileiros podem ser usados como exemplos de pessoas com vocação para a vida pública? Tais políticos dependem da política para sobreviver? Fora dela, conseguiriam sucesso na iniciativa privada?

De todo modo, o tema em questão é a vocação. Quais políticos atualmente em Brasília têm arcabouço intelectual e capacidade de articulação e de desenvolvimento de ideias para “fazer as grandes descobertas”, como bem cita Schopenhauer?

Infelizmente a resposta é pessimista – ao estilo Schopenhauer. Como citei, há sim bons políticos no país, com ótimas intenções e que querem um novo país, mas são a exceção – e me refiro a Brasília, apenas. Se descer aos estados e municípios, lidaremos com o esgoto político em muitos lugares, sobretudo em câmaras de vereadores e secretarias de municípios – pessoas com obsessão pelo carreirismo político.

O certo é que o Brasil precisa sair do terceiro-mundismo e avançar em seu sistema político. Já manifestei meu desejo de o sistema parlamentarista ser implementado, haja vista nossa Constituição construída ao molde parlamentarista. Com voto distrital puro, de preferência. Nesse caso, tem-se uma proximidade eleito-eleitor muito mais otimizada. A cobrança aumenta.

Porém, não nos esqueçamos: é o cidadão quem elege os políticos, e esses políticos que hoje ocupam seus cargos, ontem eram cidadãos como nós, falando mal de políticos. Nossa classe política é um espelho de nossa sociedade. Como um todo, portanto, precisamos evoluir, para que, lá no fim da corda, na classe política, haja mudança e apenas indivíduos capacitados integrem nossa política, sem espaço para carreiristas.

Somente dos diletantes podem vir novas descobertas, disse Schopenhauer. Quem sabe, com políticos comprometidos e que amam o que fazem, descobrimos um novo Brasil.

Infelizmente, num curto ou em um médio espaço de tempo, isso não me parece ser possível. De um lado, deparamo-nos com nossa máquina política tão moderna e eficiente quanto um videocassete para assistir a um filme nos dias atuais. Um sistema político defasado, torto. De outro lado, junta-se o problema a uma sociedade dividida em tribos que, em vez de produzir, gasta seu tempo em guerrinhas ideológicas na internet – muitos apenas preparando terreno para fazer carreira política e viver dela. Assim sendo, não consigo fazer qualquer previsão mais otimista. Ou menos “pessimista”, já que hoje falamos em Schopenhauer.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). Estuda Pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia na PUC-RS. De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC, veículos do Grupo Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor parlamentar na Câmara dos Deputados. É colunista e autor no Instituto Liberal (RJ). Foi colunista do site Opinião & Crítica. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria Municipal de Segurança de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021). Membro da Academia Luso-Brasileira de Letras do Rio Grande do Sul.