Presidente, mantenha-se em silêncio

Quando eu escrevi um artigo recente chamando o presidente de irresponsável, esperava que realmente não precisasse voltar ao assunto. O fato é que irresponsável é pouco. Há quem vá me acusar de aproveitar qualquer oportunidade para criticar o presidente. A verdade é que tenho pelo menos uns dois artigos já planejados, esperando ser escritos, que nada têm a ver com a performance do Bolsonaro frente ao cargo; mas há coisas que precisam ser ditas e outras que podem ser postergadas. Nunca gostei, particularmente, do Jair Bolsonaro, mas nunca decretei ou torci pelo insucesso do seu governo, mesmo porque havia/há, sob a batuta de Paulo Guedes, a promessa de aprovação de reformas profundas no modelo de estado brasileiro, algo que, a despeito da maior repercussão dada às críticas que faço ao governo, já defendi em várias oportunidades, não só neste Instituto Liberal, mas em outros veículos antes disso.

O cerne das críticas que sempre direcionei ao presidente, e que sempre me angariaram rótulos como comunista, petista, isentão, socialista, social-democrata, liberal no sentido americano e, pasmem, keynesiano, são sua falta de tato, sua incapacidade de sair da campanha e de entender que venceu as eleições – ainda que ele ponha em cheque o resultado. Pois bem, estamos, como todos sabem, em meio a uma pandemia, uma crise de saúde pública que já se desenrola para uma crise econômica profunda, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Crises colocam mandatários à prova – e Bolsonaro está se saindo péssimo.

Escrevi um artigo esta semana intitulado “Precisamos encontrar um meio-termo”, em que discorro sobre a necessidade de encontrarmos um equilíbrio, um meio-termo, de usarmos esses dias de isolamento e traçar estratégias para os próximos meses que não sejam o lockdown, porque nossa economia de fato não aguenta isso. É um artigo de apelo ao bom-senso, à conciliação e à rejeição de ideias extremas em um momento complexo. Claro que fui apenas um entre diversos outros defendendo essa necessidade de se ter uma visão holística. Aí o que o presidente da República faz? Faz um pronunciamento ridículo em rede nacional onde compra uma briguinha com os governadores e apresenta a justa e compreensível preocupação com a economia de maneira histérica e tresloucada. Mais do que isso: desautoriza o ministro da Saúde, estimula as pessoas a saírem às ruas e novamente menospreza o vírus, que trata por “gripezinha” e “resfriadinho”. Não preciso nem mencionar a indireta infantiloide à Globo e ao Drauzio Varella, ou o comentário nonsense sobre o fechamento das escolas, além do seu costumeiro ataque à imprensa. Além de não colaborar para o debate, ele provoca um retrocesso no debate. No referido artigo eu também falava da necessidade de coordenação entre o governo federal e os governos estaduais e a necessidade de, em conjunto, desenvolverem estratégias que não paralisassem a economia por meses. Diante disso, o anúncio de que o presidente faria reuniões com os governadores soava como bom augúrio. Não sei o que foi tratado nas reuniões, mas qualquer avanço que tenha havido, em termos de coordenação, pode ter ido por água abaixo com o pronunciamento.

Temos sorte de termos o Mandetta no governo e de ele não ser da estirpe ideológica de certos integrantes da Esplanada. Luiz Henrique Mandetta e sua equipe são os responsáveis por prover seriedade no combate ao coronavírus por parte do executivo federal, porque, se dependesse de Bolsonaro e de sua torpe capacidade de lidar com crises, estaríamos em uma situação muito pior.

Tudo parece ser jogo político para ele, apesar de acusar os governadores de fazer isso. Na segunda e na terça, dia do pronunciamento, o presidente fez reuniões, por videoconferência, com diversos governadores. Custo a crer que o tom que ele adotou tenha sido aquele que vimos no pronunciamento. O tom, a propósito, é bem em linha com o que ele vem ventilando em relação ao Witzel e ao Dória, notórios rivais políticos, apesar de não atacar Carlos Moisés, governador de Santa Catarina que adotou medidas restritivas ainda antes dos dois citados. Moisés é do PSL e foi eleito em meio à onda bolsonarista.

Ele ignora os panelaços, os pedidos de impeachment já apresentados e as críticas ferozes que tem recebido nas redes sociais. Não se iludam pensando que as críticas estão vindo apenas da esquerda, pois o presidente tem, dia após dia, perdido apoiadores de outrora devido à sua postura inconsequente. Não defendo um processo de impeachment, sobretudo neste momento, até porque não teria chance de acontecer agora. Não nutro ilusões de que ele vá renunciar, embora isso pudesse vir a calhar – Mourão não é nenhum esquerdista, afinal. Apelos para que ele mude a postura sempre foram infrutíferos, e como ele apertou há muito o botão da autodestruição, nem pressão da opinião pública funciona. O Ministério Público pedir que ele fosse submetido a uma avaliação psicológica também não seria má ideia, e não falo para provocar não – é porque um chefe de estado deve estar no pleno gozo de suas faculdades mentais, e Bolsonaro dá reiterados sinais de que não está.  Diante disso, o mínimo que ele poderia fazer seria calar a boca. Sim, podem se enfurecer, mas ele deveria calar a boca em tudo que se refere ao Covid-19 e parar de atrapalhar o trabalho sério de gente como o Mandetta, que, diferente do presidente, não está preocupado em vencer a próxima eleição. Aliás, se a estratégia é essa, ela está indo pelo ralo.

Bolsonaro teve a chance de se provar líder nesta crise e falhou. Ele não só falhou: ele provou que ele consegue pegar o que já está ruim e piorar ainda mais. Como também já disse recentemente, em situações de crise as pessoas se voltam para os governantes/líderes, mas Bolsonaro não lidera nada. Ainda que sua preocupação com o “pânico” fosse legítima – e ela só é na medida em que teme que isso afeta seu plano de se reeleger –, dá para garantir que ninguém se acalmou ou teve uma palavra de alento com o pronunciamento. Ele nem ao menos usou o espaço para apresentar medidas efetivas, como, por exemplo, o anúncio do ministério da Saúde de que pretende realizar 22,9 milhões de testes para o coronavírus nas próximas semanas. Qual é a consequência prática? O tiro vai sair pela culatra, e na guerrinha que ele comprou com os governadores, o povo vai manda-lo às favas e se voltar para os governadores de seus estados. Muitas das medidas adotadas em planos estaduais e municipais serão, com certeza, revistas nas próximas semanas, mas foi o que puderam fazer de improviso e para ganhar tempo enquanto avaliavam o cenário e pensavam em alternativas de longo prazo, sobretudo diante da inércia particular do presidente e do seu desprezo pela seriedade da questão. Então, cale a boca, presidente. Faça uma quarentena, vá a praia, vá para uma das residências oficiais e assista Netflix ou leia um livro. Ao menos enquanto dura essa crise, faça-nos esquecer de que o presidente do Brasil é alguém desse nível e deixe quem está trabalhando de verdade trabalhar. Ou renuncie.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.