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Postura e respeito: não vomitem palavras nos cidadãos

O tema é postura. Antes fosse a física. Ajeite-se na cadeira. Levante essa coluna. Pronto, resolvida a questão e nada no corpo vai doer. Mas não, me refiro a postura ao falar publicamente, nas redes sociais ou durante entrevistas. Essas palavras secas, duras, tão recheadas de chacotas ou despreparo, que temos visto constantemente no meio político.

Nunca se ouviram tantos discursos desnecessários. Século 21 e todos têm acesso aos acontecimentos em poucos segundos, se não em tempo real. Então, aplica-se aquela frase: “a palavra dita não volta atrás”. Já era, alguém filmou e disponibilizou nas redes sociais e cada cidadão vai tirar sua própria conclusão. Uma palavra mal interpretada, certamente, vai detonar a reputação deste ou daquele. Triste realidade é saber que isso acontece na frente das câmeras, durante entrevistas coletivas. E não foi algo assim de improviso, sem querer querendo. Não houve tempo de preparar um discurso encorajador, digno de um líder? Ou foi mesmo a má vontade? Minha gente, as pessoas precisam de líderes, não de “meninos e meninas” que parecem brincar de política. Francamente, por que não fazer uso de um media training?

Media training – o treinamento é simples e certamente será eficaz, se eles seguirem a proposta. Profissionais de comunicação vão ensinar como e quando dizer determinado assunto. Durante os promissores oito anos e meio em que trabalhei na comunicação interna de uma grande multinacional francesa, elaboramos e aplicamos diversos media training. Simulávamos entrevistas com perguntas surpresas e bombardeávamos os porta-vozes da empresa, que recebiam o treinamento adequado ao cenário em que a empresa estivesse passando. Eles também eram preparados para situações de crise ou para encontros informais com jornalistas. Não se engane, claro que não será apenas durante uma coletiva que o jornalista vai te abordar. O treinamento era aplicado individualmente e todos eram filmados e fotografados. Sempre havia aquela pergunta para testar o autocontrole e o emocional das hierarquias. Essa era a tentativa de desestabilizar os entrevistados. Uma análise minuciosa era realizada em seguida. A avaliação incluía a linguagem corporal, o olhar, o tom de voz e o conteúdo das respostas. A maioria dizia que gostaria de ter falado de outra forma ou que não queria ter se exaltado tanto. E voilá: o objetivo proposto era alcançado. As hierarquias recebiam feedbacks, inclusive por escrito, sobre a melhor forma de responder aos jornalistas, como se comportar nas entrevistas, como manter o controle diante de perguntas delicadas ou de cunho pessoal. Um media training pode ser aplicado não só para empresas, mas para políticos, principalmente.

Prova do total despreparo para lidar com a imprensa foi a entrevista da ex-atriz, Regina Duarte, no dia 7 de maio, quando ainda ocupava, oficialmente, o cargo de Secretária Especial de Cultura, para o canal CNN Brasil. Ela se viu em seu pior papel ao tentar responder às perguntas do jornalista. Regina foi muito infeliz em suas colocações ao minimizar atos da ditadura, como as mortes. “Cara, desculpa, eu vou falar uma coisa. Assim, na humanidade não para de morrer. Se você fala em vida, do outro lado tem morte. E as pessoas ficam ‘ó, ó, ó’. Por quê?”, indagou Regina Duarte. Foram longos minutos de entrevista com depoimentos surreais, como o trecho a seguir: “Bom, mas sempre houve tortura. Meu Deus do céu, Stalin, quantas mortes? Hitler, quantas mortes? Não quero arrastar um cemitério de mortos nas minhas costas. Não desejo isso para ninguém. Sou leve, estou viva, estamos vivos, vamos ficar vivos”, completou Regina.

Para completar o total descontrole de Regina, ela deu um “baita chilique”, como ela mesma se referiu ao momento, quando a CNN colocou um vídeo da atriz Maitê Proença, que, em nome da classe artística, fez duras críticas à sua gestão. A ex-atriz ainda pediu desculpas pelo chilique, numa clara demonstração de despreparo para lidar com o contraditório. Vivemos tempos tensos e extremados politicamente. A ex-atriz ficou numa situação delicada, pois recebeu uma enxurrada de críticas de todos os lados. Teria sido uma boa troca deixar a teledramaturgia e tentar a política? A assessora de imprensa da Secretaria Especial de Cultura, Renata Giraldi, deixou o cargo na sexta-feira, dia 15 de maio. Giraldi fazia parte da equipe de imprensa da pasta liderada pela ex-atriz. Mais um capítulo desse enredo veio a público na manhã do dia 20 de maio, quando o Presidente Jair Bolsonaro anunciou a exoneração de Regina Duarte.

O Presidente disse ainda que Regina deverá assumir a Cinemateca de São Paulo.

Políticos ou aspirantes a, fica a dica: façam um media training. O custo benefício valerá a pena. E os cidadãos merecem esse respeito.

Caros políticos, deixem as opiniões pessoais de lado e sejam os verdadeiros representantes de que as pessoas precisam nesse momento.

Simone Freitas

Simone Freitas

Jornalista diplomada pelo Centro Universitário de Barra Mansa (RJ). Trabalhou como Analista de Comunicação na fábrica da PSA Peugeot Citröen, em Porto Real. Foi assessora de imprensa na Prefeitura de Volta Redonda-RJ. Trabalhou nos navios da Costa Crociere, que fazia o trajeto China, Japão e Coreia do Sul. Atualmente é jornalista freelancer e escritora.