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Piada sobre nazismo: a comediante alemã “passou do ponto”?

Fazer piadas com o Holocausto é de muito mau gosto. O Holocausto mexe com uma carga emocional de proporções sempre equivalentes à da hecatombe que foi o assassinato genocida de 6 milhões de judeus.

A carga emocional é tão grande e o risco de se usar o humor negro para denunciar uma das causas psicológicas para ele ter acontecido é tão elevado que aquilo que menos se deseja acaba ocorrendo: a compreensão equivocada da mensagem que se quer passar.

Esse creio ter sido o caso da celeuma recente que tem no seu centro um vídeo de três meses atrás da comediante alemã residente no Brasil Lea Maria Jahn. Ela faz um show de stand up comedy sobre preconceito, generalizações e cultura popular onde ela usa um recurso retórico comum entre os comediantes desse tipo, mas sempre arriscado, que é o de denunciar algo emulando-o no ato.

É dessa maneira que eu entendo que a Lea Maria tentou mostrar que há preconceito entre os brasileiros contra os alemães ao acharem que todos os alemães seriam nazistas da mesma forma que os alemães, não apenas eles, tinham e têm preconceito contra os judeus. Isso é mais ou menos dizer “me chame pelo seu nome” num processo circular que sugere ser o preconceito um moto-contínuo vicioso sem fronteiras.

Muitos da coletividade judaica, meus patrícios, acho que exatamente por se deixarem embriagar, não sem razão, pela carga emocional que o assunto carrega, não entenderam o teor da apresentação, ou eu é que não estou percebendo o que eles estão.

Como radical adepto da defesa da liberdade de expressão, acho que não há tabus que não possam ser visitados e remexidos, mesmo que o mau gosto esteja presente. Não é o caso da piada intrincada da comediante alemã, que faz uma crítica tão sutil e subliminar ao ponto de ser incompreendida.

Por sinal, vê-se na sua performance um humor sarcástico, amargo e debochado que coloca a plateia em uma zona de desconforto evidente da qual se sai somente com algo que vai além do riso fácil ou forçado.

Temos que ter muito cuidado aqui para não resvalarmos no equívoco do polilogismo que ilogicamente estabelece existirem lógicas de raciocínio particulares, próprias de cada grupo étnico ou identitário, o que resultará num abismo que processo cognitivo algum poderá transpor.

Existe uma lógica universal, como existe a verdade absoluta que diz que onde Hitler e seus nazistas viam num judeu um ser asqueroso o suficiente para ser exterminado – qualquer ser racional veria antes um indivíduo, um ser humano como outro qualquer, com suas idiossincrasias.

Sabemos que os judeus na Alemanha Nazista cumpriam o papel perfeito do bode expiatório, eram objeto de desprezo por conta da inveja que geravam por suas virtudes e realizações que os destacavam positivamente nas sociedades em que viviam.

Eu não vejo, obviamente, em todo indivíduo alemão um nazista, mas vejo em todo nazista alguém que dificilmente se poderia dizer que ali há um ser humano como qualquer outro.

Nazistas, comunistas, fascistas em geral carregam dentro si um niilismo tal que, por vezes, para não dizer sempre, não conseguimos ver a sua humanidade, porque aquilo que têm na sua essência é oposto: desumanidade.

Racismo, como todo tipo de segregação discriminatória baseada em fatores que não o caráter individual, é uma forma de coletivismo e como tal deve ser rechaçada.

Talvez eu esteja errado, mas foi essa a impressão que eu tive a respeito da piada da jovem que quis ser ao mesmo tempo instigante e engraçada: sua denúncia contra o racismo foi mal elaborada, deixando sequelas indesejáveis numa plateia suscetível a emoções latentes, fruto das aberrações vividas ou testemunhadas no passado.

Roberto Rachewsky

Roberto Rachewsky

Empresário e articulista.