Venezuelanos, saibam que, apesar da esquerda, nós nos importamos

Sei que não sou pessoalmente culpado; sou jovem demais e impotente demais para que seja minha a responsabilidade. Mesmo assim, como brasileiro, a sensibilidade e a empatia para com a vossa dor me levam a pedir perdão. Perdão em nome de um povo que se acovardou. Um povo que acreditou que a verdade poderia ser […]

Sei que não sou pessoalmente culpado; sou jovem demais e impotente demais para que seja minha a responsabilidade. Mesmo assim, como brasileiro, a sensibilidade e a empatia para com a vossa dor me levam a pedir perdão.

Perdão em nome de um povo que se acovardou. Um povo que acreditou que a verdade poderia ser ignorada em troca de um delírio de juventude. Um povo que acreditou em um populista sórdido e foi cúmplice, como “nunca antes na história deste país”, dos mais repugnantes cuspes na decência e que, na mais cega comodidade das ilusões transitórias, se dispôs a sacrificar no cadafalso a própria liberdade e a dos seus irmãos vizinhos.

Essa escolha feita por ampla parcela da nossa população, de maneira mais ou menos consciente, comprometeu o Brasil em sua dignidade pátria. Alojamos no poder e mantivemos por mais de uma década um séquito da mediocridade com delírios de grandeza, cuja grande função foi amesquinhar ainda mais a nossa posição perante o mundo, financiar e apoiar o alastramento da tirania e da miséria, tudo sob o emblema obtuso da utopia dos Castro. Agraciamos o chavismo, congregamos as hostes do atraso e patrocinamos o derramamento de sangue. O Brasil é, sim, responsável.

É produto da nossa falência como nação que um estudante de Letras, João Marcos Barbosa, publique, no espaço virtual dedicado ao partido que até o ano passado chefiava nosso governo, que a divergência que hoje desponta contra essas forças políticas e ideológicas – apresentando finalmente as “intoleráveis observações ofensivas” de que a grama é verde e socialismo e liberdade não combinam – representa um “perigo fascista” a ser contido, quando seus “companheiros” usaram da expressão diplomática e financeira do Brasil na região para irrigar a tirania – a mesma que hoje faz a vossa Venezuela prantear o martírio de seus filhos.

É produto da nossa falência como nação que ainda conquistem tanto espaço, tanta relevância e, principalmente, tantos votos, esses desalmados do PT, do PCdoB e do PSOL, divulgando notas oficiais ou declarações de apoio ao infame Nicolás Maduro, expressando sua solidariedade à Revolução Bolivariana. É produto da nossa falência como nação que tantos levem a sério as constantes acusações que eles fazem a nós – nós, os que ousamos apontar seus malfeitos, os que ousamos rejeitar seus projetos perniciosos, os que ousamos desmascará-los em seu oportunismo sanguinário e sua cumplicidade blasfema com a truculência assassina –, alcunhando-nos “fascistas”.

No entanto, quero garantir uma coisa. Apesar deles, apesar desse exército de insensíveis, apesar dessa esquerda que concretiza a profecia de Churchill segundo a qual os fascistas do futuro se diriam inimigos do fascismo, nós estamos aqui. Os brasileiros que não aceitam isso. Os brasileiros que se recusam a aplaudir a matança e a truculência “pelo bem maior” – bem esse que acaba sendo apenas para alguns, e bem poucos, desfrutando dos privilégios às custas de esmagar os vizinhos, bem como ao preço de macular as próprias almas.

Nós hoje somos a maioria e estamos com vocês, que se dispuseram a estar nas ruas, a se rebelar, mesmo a colocar em risco a própria integridade para se libertar da opressão. Há muito a fazer para que nosso próprio país se encontre consigo mesmo, com aquilo que pode dar, com as tradições de liberdade e solidariedade verdadeira – não essa que traveste sob o rótulo de “solidariedade” o aniquilamento do indivíduo – que herdamos da civilização a que pertencemos e deveríamos sustentar. Há muito a fazer para que, mais do que meramente publicar notas tímidas condenando a espúria Constituinte do Partido Socialista Unificado, imponhamos com firmeza e ardor os princípios que nosso senso moral deveria reclamar, sem medo de empregar a virilidade que a situação exige.

Mesmo assim, nós já estamos aqui. O compromisso que podemos assumir agora é este: não nos calar. Mesmo que veículos de imprensa vergonhosamente se refiram a um ditador fantasiando com aspas a sua crueldade, mascarando com sutilezas a face nua e crua da asquerosa verdade do mal que ele representa, não silenciar, e em vez disso permanecer a gritar com estridência que nem todo mundo perdeu o senso de proporções, nem todo mundo perdeu a capacidade de ser honesto – com os outros e consigo mesmo.

Não aceitar, sobretudo, nunca mais, que os “senhores do bem”, os “campeões do amor e da felicidade na Terra”, nos intimidem, que nos apontem o dedo como vilões da humanidade, quando, em benefício da sua “revolução” e da sua “justiça social”, se esquecem prontamente de que são seres humanos e do que significa isso. Os monstros são eles. Apesar deles, repito, nós estamos aqui, e, embora esse consolo não seja o bastante, lamentamos a vossa dor e aclamamos a vossa guerra justa contra os parasitas que insistem em impor peias ao vosso espírito livre.

Se eu não posso derrubar o governo de Maduro, nem o podem os cidadãos comuns do Brasil, podemos pelo menos seguir destronando a mentira. Impedir que nossos espíritos se dobrem à farsa de que, deliberadamente ou não, nosso povo foi cúmplice. E não demonstrar uma nesga de respeito pela posição dos que insistem em defender o indefensável.