Vamos nos concentrar em João Doria para presidente?

Enquanto os liberais brasileiros ficam aguardando o “candidato perfeito”, o tempo vai passando num país afogado em um mar estatal Já estava com este artigo praticamente pronto quando surgiu a matéria de capa da Isto É enaltecendo as possíveis virtudes de João Doria como o “anti-lula”. Para nós, não é disto que se trata. É preciso […]

Enquanto os liberais brasileiros ficam aguardando o “candidato perfeito”, o tempo vai passando num país afogado em um mar estatal

Já estava com este artigo praticamente pronto quando surgiu a matéria de capa da Isto É enaltecendo as possíveis virtudes de João Doria como o “anti-lula”. Para nós, não é disto que se trata. É preciso vencer os dois extremos. O Brasil sempre balançou com os poderes pendentes à sanha estatizante seja da direita ou da esquerda. O pensamento liberal jamais esteve no poder e esse é o problema: nós, liberais por excelência, somos uma espécie de bicho raro, daqueles que estudam, trabalham, chegam às conclusões mais racionais e inteligentes, sabem que estão com a razão, mas desprezam o poder. Sempre foi assim. Os liberais gostam de debater. Mas lutar pelo poder é cansativo demais…

Quando penso em João Doria como provável candidato e seus eventuais adversários – conforme o quadro para o pleito de 2018 vai se formatando -, vem-me à mente a mitologia grega, mais precisamente a estória de Ares. Para facilitar, transcrevo a descrição feita no site http://eventosmitologiagrega.blogspot.com.br/2011/05/:

Como deus da guerra, Ares andava em companhia de seus dois filhos: o Deimos – o terror e Phobos – o medo. Quando seu carro ardente surgia, era precedido por estes pavorosos arautos, anunciando a fúria das batalhas. Eris – a discórdia – ia adiante, espalhando a intriga e a calúnia. Sua vocação era criar interesses opostos, tornando-os irreconciliáveis. As Queres, deusas sanguinárias, fechavam o cortejo. Elas mergulhavam sobre as vítimas abatidas na guerra para dilacerá-las e arrastá-las à morada das sombras.

Estimado somente por Hades, o deus do submundo, este o ajudava em suas intenções porque as guerras aumentavam a população do inferno. Tão bonito e garboso quanto vaidoso e cruel, Ares se preocupava apenas com as guerras e batalhas. A ele não importava se ganhava ou perdia, contanto que houvesse o derramamento de sangue. Admirado apenas pelos ferozes, os poetas se compraziam em mostrar que a força bruta e cega de Ares sempre era burlada pela inteligência de Hércules e pela reflexão de Atena. A vitória da inteligência sobre a força bruta era a essência do pensamento grego.

Será que Doria estratificaria para nós a vitória da inteligência sobre a força bruta à direita e à esquerda (que vive prometendo derramamento de sangue)? Pensando nisso, assisti com muita atenção ao encontro entre o prefeito de São Paulo e a combativa jornalista liberal-conservadora Joyce Hasselmann, no talk show cibernético Olho no Olho. Frente a ela – que, discorde-se ou não de suas posições, tem provado que a mulher pode ser determinada e veemente sem perder a beleza feminina -, Doria teria que me convencer em alguns pontos.

1)      A máfia da fiscalização: Foram quatro funcionários públicos afastados e um demitido. Tudo no ato. Doria diz que esses eventos não são compatíveis com a democracia em um país moderno. E critica a estabilidade no funcionalismo público: “São a competência e a meritocracia que têm que garantir o emprego. O Direito Civil já é uma ferramenta suficiente para corrigir as injustiças”. E faz um discurso contra a corrupção, arrematando com aquela que é a preocupação de um empreendedor – a recuperação do dinheiro roubado. Ou seja, o dinheiro, que foi o foco dos que cometeram o ato indecoroso, tem que ser também uma das preocupações centrais dos que se ocupam em corrigir o problema. Dinheiro não é algo que flui com facilidade, como acreditam os preguiçosos estatizantes.

2)      Firmeza no comando: João Doria afirmou haver provado que, na prefeitura de São Paulo, agora, há comando. E não deixou transparecer que será contaminado pelos vícios de uma cultura estatal. Já é um tremendo avanço na formação de um político liberal, aquele com alma de self made man que quer passar esse conceito para a questão pública. Tudo faz crer que João Dória não tem medo de críticas não faz concessão ao que ele acredita. “É preciso ter coragem e determinação”, disse ele, confirmando isso na maneira moderna e dinâmica como sabe se utilizar das mídias sociais, aquilo que é uma virtude, mas infantilmente criticada pelo vetusto Fernando Henrique Cardoso.

3)      Reforma da Previdência: Ele apoia incondicionalmente a reforma da Previdência e disse à jornalista que, se fosse parlamentar e tivesse essa oportunidade, aprovaria a proposta sem mais nenhuma concessão.

4)      Transparência natural: Outras impressões que ficaram desse encontro: Qual outro político fala com tanta desenvoltura sobre a corrupção e a incompetência do lulopetismo? Isso estando num cargo executivo!  Há algo dele que transmite essa aura de liberdade para ser autêntico e sincero. Ele denota transparência ao revelar em detalhes como são concebidas as verbas para os programas “Asfalto Novo”, “Operação  tapa-buraco” e “Operação Semáforos” – este um problemão deixado pela gestão anterior. Ele mostra como a iniciativa privada é parceira, inclusive para contratação de Jaime Lerner, arquiteto consultor para a remodelação do centro de São Paulo. A herança dá gestão anterior também inclui 650 mil buracos demandando mil toneladas de asfalto por dia!

Sua experiência televisiva lhe permite um programa como o Olho no Olho, com grande desenvoltura, quase impensável para qualquer outro político. “João Doria exala liberdade. É o hálito de frescor sem frescura na política” – estas aspas aqui foram para a manifestação do meu pensamento enquanto assistia à entrevista. Impressões de momento?

5)      Clareza e bom humor: Há um impasse para o horizonte político de Doria. Ele precisaria se libertar de Geraldo Alckmin. Entretanto, sua relação estreita com seu padrinho eleitoral tem sido vital para os projetos da Prefeitura. Vide a Cracolândia e seu emaranhado quase intransponível de problemas.
Mas percebe-se que ele sabe disso, seguindo em frente até que tudo se cristalize de maneira mais natural.  Não depende nem de Alckmin nem do partido. Prova disso é a clareza com que ele detona o movimento bolivariano liderado pelo lulopetismo na criação de ditaduras de esquerda na América latina. Isso é  uma raridade entre os políticos top de linha em termos eleitorais.

Fiquei impressionado também com o bom humor. Chegou a provocar Joyce Hasselmann insinuando a existência de algum grau de parentesco entre ela e Gleisi Hoffmann, por causa da similitude dos sobrenomes. Hilariante foi a reação da jornalista diante dessa brincadeira, tudo terminando em risadas.

6) Privatização: De certa forma ele vai privatizar 107 parques da cidade, entre as ideias criativas para gerir a cidade sem aumentar o rombo deixado pela administração petista. Sete e meio bilhões de reais!

O seu programa de desestatização, uma raridade! Vejam este discurso durante o programa: “Dizem que eu quero vender São Paulo. Esse pessoal da extrema esquerda só fala bobagem. Vivem ainda no século 19. Acordem! Estamos no século 21! A iniciativa privada emprega muito mais gente que o governo no mundo civilizado. Olhem para esse mundo! Viver da literatura de Cuba ou Venezuela vai tornar o seu cérebro cada vez menor. O mundo civilizado é o que se desenvolve, que gera oportunidades e oferece empregos, planos de carreira e perspectiva de futuro”. Ou seja, sua defesa da privatização é veemente. Que diferença dos discursos da velha política brasileira!

Joyce não teve tempo de perguntar sobre a questão do desarmamento e outros “poréns” no arcabouço mental de João Doria e que incomodam os liberais. Ele, que está longe de ser um socialista Fabiano – termo usado como mera retórica marqueteira sem qualquer precisão – será sempre acusado, de um lado, de um incorrigível social-democrata com fortes pendores a cair na mesmice da política tucana e, de outro, de ser um “coxinha” que buscará invariavelmente favorecer a “elite branca” na qual estaria inserido.

Entretanto, por enquanto não vejo no horizonte outro capaz de preencher essa histórica lacuna nas pretensões dos verdadeiros liberais – aqueles que efetivamente sabem como os problemas dos miseráveis e excluídos podem ser solucionados.

 

Sobre o autor: Claudir Franciatto é jornalista e escritor. É autor de 11 livros, entre eles A Façanha da Liberdade e O Desafio da Liberdade, obras que discutem o liberalismo e atitudes liberais.

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