Socialismo racista ameaça a África do Sul

O injustificável regime do apartheid terminou em 1994. Os anos de divisões raciais, entretanto, deixaram sequelas. Não há como negar a extrema dificuldade de enfrentá-las e é sabido que o famigerado “milagre da reconciliação” de Nelson Mandela não criou nenhum paraíso na África do Sul. Alega-se que os fazendeiros brancos, os africâneres ou bôeres, ainda detêm mais de 70% das terras, e muitas delas foram originalmente obtidas através de roubos de proprietários negros.

As notícias que vêm de lá, porém, parecem indicar que as coisas podem ficar piores e o mundo precisa prestar atenção aos desdobramentos de mais essa aula prática de socialismo e tragédia. No Parlamento, por 241 a 83 votos no final de fevereiro, com apoio do presidente Cyril Ramaphosa, foi dado o primeiro passo para a aprovação de uma emenda constitucional que permite a desapropriação de terras de fazendeiros brancos sem compensação de qualquer natureza. Ou seja: entrega-se ao Estado sul-africano o poder de retirar as terras e lhes dar o destino que lhe aprouver. Abole-se a propriedade privada.

A medida avança sob o influxo de Julius Malena e seu partido de extrema esquerda EFF (Economic Freedom Fighters, um nome paradoxal para uma legenda tão avessa ao liberalismo econômico), com sanção do ANC (African National Congress, o partido majoritário do país desde a época de Mandela, que caminha em uma direção mais radical). Malena já manifestou com todas as letras o desejo de restaurar “a dignidade” de seu povo “sem compensar os criminosos que roubaram nossa terra”. Disse claramente que “o tempo da reconciliação se foi”.

O quadro piora se somarmos a isso as denúncias, que se acumulam faz tempo, de ataques violentos a fazendeiros brancos. A ONG AfriForum, que fala em favor da minoria branca, afirma que, apesar de a África do Sul ser um país muito violento, os ataques têm uma causa política. “Alguns dirigentes predicam o ódio contra os fazendeiros brancos e os acusam de todos os males”. Este seria o caso do próprio Malena, exortando a “tomar as terras” dos brancos, e do ex-presidente Jacob Zuma, alvo de mais de 800 acusações de corrupção e que renunciou no dia 14 de fevereiro, de quem se afirma ter entoado em 2010 o cântico revolucionário “atirem no fazendeiro, atirem no bôer”.

Não há como simplificar o que é dramaticamente complexo. É evidente que a economia e a formalidade jurídica não são tudo na formação de um quadro social e uma teia intrincada de tragédias feriu a África do Sul profundamente. Há uma linhagem de africânderes que têm enorme responsabilidade por tudo isso. Fatalmente, porém, o país conflagrado que nasceu do término oficial do apartheid e do governo de Mandela não dará passos adiante se escolher caminhos demagógicos e definidos pelo ódio de que se dizia querer livrar.

A revista virtual voltada para pessoas de negócios Quartz publicou uma matéria relevante sobre o tema, assinada pelos economistas agrícolas Johann Kirsten e Wandile Sihlobo, evocando o exemplo do Zimbábue, outra nação africana que tomou basicamente a mesma atitude: 18 anos atrás, eles também decidiram confiscar terras sem compensação. Curiosamente, em dezembro do ano passado, os fazendeiros brancos do Zimbábue conseguiram a compensação,  em sequência à recente destituição do presidente-tirano Robert Mugabe, que governava desde 1987.

A matéria destaca que, se o povo do Zimbábue não pagou compensação alguma aos fazendeiros desempossados, pagou o custo do alto de seu governo autoritário com oito anos consecutivos de declínio econômico, desemprego (taxas de mais de 90%!), desindustrialização e perda de receitas com exportação agrícola. Em 2009, o economista Eddie Cross estimou o custo da reforma agrária imposta ao país em $ 20 bilhões.

Não há mistério: além da óbvia queda em descrédito – afinal, que investidor pode acreditar em um país que despreza completamente um dos direitos basilares da civilização, dando ao Estado o poder de fazer o que quiser com as propriedades alheias? -, graças a uma medida que é, a um só tempo, socialista e racista (porque seus alvos serão os brancos), o governo sul-africano ainda teria que lidar com o fato de que a terra em si mesma perfaz apenas 10% do valor típico das operações em fazendas, que abrange principalmente elementos como maquinário e infraestrutura. Como se fará com esses elementos? Como isso tudo será distribuído? Como o Estado lidará com as dívidas dos fazendeiros com os bancos ao fazer as expropriações?

Há uma série de dificuldades práticas que, somadas à corriqueira desconfiança liberal com a concentração de tarefas e autoridade em uma instituição central, incompetente para lidar com todas as sutilezas e complicações e, como diriam Mises e Hayek, incapaz de consolidar todas as informações necessárias aos procedimentos de mercado, desenham um cenário terrível para o país das vuvuzelas. Esperamos que esse espectro de socialismo racial não se confirme ou um novo desastre humanitário pode estar próximo.

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