Os apoiadores de regimes socialistas dizem chorar pela Síria. Nada mais hipócrita!!

Adam Smith, em sua obra “Teoria dos Sentimentos Morais” convida o leitor a participar de um exercício de imaginação. Volto após a citação.

Diz o economista escocês: “Suponhamos que o grande império da China, com suas miríades de habitantes, fosse subitamente engolido por um terremoto, e imaginemos como um humanitário na Europa, sem qualquer ligação com aquela parte do mundo, seria afetado ao receber a notícia dessa terrível calamidade. Imagino que, antes de tudo, expressaria intensamente a tristeza pela desgraça de todos esses infelizes, faria muitas reflexões melancólicas sobre a precariedade da vida humana e a vacuidade de todos os labores humanos, que num instante puderam ser aniquilados. Além disso, se fosse um homem especulativo, talvez ponderasse muitos raciocínios sobre os efeitos que esse desastre poderia produzir no comércio da Europa em particular, e nas transações e negócios do mundo em geral. E quando toda essa bela filosofia tivesse acabado, quando todos esses sentimentos humanos tivessem encontrado sua expressão definitiva, continuaria seu negócio ou seu prazer, teria seu repouso ou sua diversão, com o mesmo relaxamento e tranqüilidade que teria se tal acidente não tivesse ocorrido”.

Esta análise de Adam Smith revela o que todo leitor politicamente incorreto da sociedade atual já sabe: nós, seres humanos, sempre buscamos atender nossos próprios interesses, bem como os de nossos familiares e amigos íntimos, nesta ordem. Trata-se de uma realidade inescapável: a busca pela mudança de uma situação de desconforto em direção a uma situação de satisfação pessoal. Problemas que assolam regiões e pessoas que não conhecemos podem até gerar discussões acaloradas, mas não são uma fonte de preocupação genuína para a grande maioria das pessoas.

Uma onda de protestos pacíficos pelas crianças da Síria, no entanto, tomou conta das redes sociais nos últimos dias e quase me fez crer que Adam Smith estava errado. Uma repentina manifestação (potencializada pelo uso das redes sociais) de consternação pelas crianças vitimadas por uma guerra civil que já dura 7 anos causou-me certa estranheza pela falta de reflexão sobre os fatos que levaram àquela guerra.  

Diante disso, coloquei-me a analisar esta questão. Aos fatos: a Síria vive uma guerra civil há mais de 7 anos porque é governada por um ditador de nome Bashar Al Assad. Ainda no ano de 2015, o economista Rodrigo Constantino publicou em seu blog um artigo em que lista os nomes dos partidos (veja aqui) que compõem o cenário político daquele país. Todos, sem exceção, são de cunho autoritário. Socialistas, comunistas, islâmicos. Eles possuem uma relação incestuosa com a ideologia de Marx, o socialismo. Assad é um tirano que desconhece e rejeita com veemência qualquer sistema de governo que se pareça com uma democracia. Como todo ditador, governa seu povo com mãos de ferro e inibe qualquer forma de expressão de seus governados. Interessante notar que, apesar deste modelo de governo que já se provou um fracasso e subjugou pessoas das mais diversas nações, o brasileiro médio se recusa a entender que um governo autoritário, nos moldes do socialista de Cuba (outro governo tão aclamado por nossos intelectuais) sempre irá produzir os mesmos resultados, as mesmas tragédias, enfim, os genocídios e assassinatos de sempre.

Para adicionar insulto à injúria, grande parte destes que se expõem nas redes sociais solidarizando-se com as crianças sírias, ignoram que, logo ali, na Venezuela, milhares estão sendo igualmente assassinados por uma ditadura bolivariana, não se importam com o fato de que Lula, o “pai dos pobres”, como o chamam os intelectuais de esquerda (o que explica parcialmente o nível educacional de nosso país), já afagou os egos do mesmo ditador sírio, bem como de Fidel (Cuba), o de Hugo Chavez (Venezuela) e, agora, de Maduro (Venezuela) e de vários outros déspotas que escravizaram seus próprios povos. Muitos destes indignados com a dor alheia, inclusive, apoiam os mesmos regimes, ironicamente, que maltratam e prendem seus próprios governados reduzindo-os a meras peças de um jogo socialista (ganha uma jabuticaba quem nunca ouviu dos apoiadores de Lula algo maravilhoso a respeito da educação e da saúde cubanas). Tudo em nome do bem comum, claro.

Tamanha é a hipocrisia ou mesmo a ignorância que acusam a porção ocidental e cristã deste mundo de intolerante e xenófoba por se recusar a receber os refugiados do país sírio (muitos dos quais são, nada menos, que terroristas). Não entendem que o problema não está nos países europeus que se recusam a recebê-los. Dão de ombros para o fato de que a origem deste quadro calamitoso está correlacionada com a existência de um governo cujos métodos estão desvinculados daquilo que chamamos de democracia representativa. São os mesmos, enfim, que se esquecem de que o autoritarismo estatal que destrói as esperanças dos sírios, também deu o ar das graças por estas bandas por aproximados 14 anos sob a batuta do governo petista e que, não somente corremos o risco de tê-lo novamente ocupando o cargo mais importante da esfera política como, na verdade, há toda uma militância presa em sua torre de marfim que deseja ardentemente por isso. Como ainda há por estas plagas tupiniquins pessoas que ousam desafiar o perigo comunista-autoritário, não fomos lançados ao abismo que viceja por aquelas bandas. A despeito disto, não temos também muitos motivos para comemoração. 

Temos autoritarismo suficiente para assistir, calados, milhares de pessoas tornando-se reféns da violência, a qual encontra amparo no estatuto do desarmamento que tira do pai de família o direito de defender a si próprio e aos seus. Tira-lhe, em suma, um direito fundamental, o direito de propriedade. Afinal, a vida é, conforme nos lembra Frédéric Bastiat, um dom de Deus. É a propriedade que Ele nos concedeu. A propriedade sobre si mesmo pressupõe o direito de agir livremente em defesa de sua própria integridade (desde que não violando o direito recíproco de outros) e delegar tal defesa ao Estado parece-me muito imprudente.

As lamentações pela dor alheia, no entanto, fazem um desavisado acreditar que Adam Smith estava errado. No fim, com a inversão dos fatos, uma dor de dente pode causar menos comoção que os problemas enfrentados pelos habitantes de longínquas regiões. Haja hipocrisia!!

Juliano Oliveira

Juliano Oliveira

É administrador de empresas, professor e palestrante. Especialista e mestre em engenharia de produção, é estudioso das teorias sobre liberalismo econômico.