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Sobre a nossa liberdade de audição

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John Stuart Mill foi um em um milhão. Educado desde os primeiros passos para ser uma máquina de pensar, ele era o legado que seu pai (John Mill) e Jeremy Bentham, luminares do utilitarismo, queriam deixar para a humanidade. Mill, que já sabia proferir suas primeiras sentenças em grego aos três anos, era profundamente preocupado com a obtenção da verdade e via na livre discussão de ideias o caminho para se aproximar dela.

Mill entendia que silenciar uma voz implicava violar não apenas o direito à expressão do silenciado, mas também o direito de toda a humanidade de ouvir. Ouvindo o que é correto, as pessoas teriam a oportunidade de corrigir seus erros, parcial ou totalmente. Ouvindo o incorreto, poderiam, ao articular suas respostas, relembrar e fortalecer os motivos pelos quais defendiam suas posições. Assim, até mesmo ouvir os insensatos era aconselhável, pois mantinha a verdade viva e articulada na mente de todos, protegida contra as investidas da irracionalidade.

Mas existem formas mais e menos adequadas de se ouvir. Um bom ouvinte parte da premissa de que há uma assimetria de informação entre ele e seu interlocutor e que o propósito de uma conversa é superar essa assimetria. Como um cientista, irá investigar o que o outro possa ter de conhecimento que lhe foge. Já um mau ouvinte parte da premissa de que a informação é simétrica e que a recusa do outro em aceitar os fatos estabelecidos decorre de má-fé.

A forma boa de ouvir é conhecida nas escolas de negócios como “escuta ativa”, o hábito de “não apenas escutarmos o que o outro diz, mas também nos sintonizarmos com seus pensamentos e sentimentos”. Isso torna o diálogo uma interação ativa e não competitiva – e bidirecional. Em resumo, trata-se de abordar com curiosidade e interesse o que o outro tem a dizer.

Escutar ativamente requer que sejamos generosos com quem fala; que busquemos entender não apenas o que nos dizem, mas o que querem nos dizer. Que sejamos solidários na comunicação, ajudando os interlocutores a superar eventuais vícios de expressão. Precisamos salvar informações valiosas dos maus comunicadores que as fazem de reféns.

Um tipo mais rude de escuta seria a escuta passiva. É o famoso balançar a cabeça e manter-se a uma distância segura de tudo o que não foi verbalizado. No fim da ladeira, encontramos a escuta defensiva, ou anti-escuta. A escuta defensiva representa uma total aversão a encontrar qualquer “grão de verdade” no que está sendo comunicado.

Na escuta defensiva, buscamos ser o menos generosos possível com o outro, assumindo suas piores intenções e usando suas falhas de comunicação como corda para preparar-lhe a forca. O mais trágico da escuta defensiva é que, presumindo a má intenção do outro, não vemos sentido em justificar nossas posições e consideramos qualquer esforço de explicação um desperdício de tempo.

Para que a liberdade de expressão revele seu verdadeiro valor, é necessário que pelo menos um participante da conversa utilize bem sua liberdade de ouvir. Na escuta defensiva generalizada, a liberdade de ouvir (e expressar) torna-se estressante e infrutífera. Isso demonstra como a boa vontade e a tolerância também são vitais na busca pela verdade.

Teria John Stuart Mill presumido que a humanidade seria tão erudita quanto ele? Acredito que não. Não precisamos saber grego aos três anos de idade para sermos capazes de aprender a escutar adequadamente. Idealmente, todos deveriam praticar a escuta ativa, mas, na ausência disso, a simples presunção de boa fé já é um grande passo.

A saída que muitos apontam para o abuso da liberdade de expressão é o controle; mas, quando o custo de controlar a expressão é a busca da verdade e o cultivo da tolerância, melhor é que aprendamos a ouvir. Se prestássemos mais atenção em como ouvimos, descobriríamos que aqueles mais atentos aos “discursos de ódio” são também os que escutam de maneira mais rude.

Do tribunal superior à praça pública, não saber escutar enfraquece a democracia e a busca pela verdade. Sem abertura mental e com o coração arisco às visões opostas, a liberdade de expressão pouco pode fazer para iluminar a verdade.

*Willian Pereira é advogado e economista.

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