Soberania que sai caro

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Existe uma indústria que nunca conheceu recessão na América Latina. Ela não depende de inovação, produtividade nem investimento. Alimenta-se da mais abundante matéria-prima política da região: a impressionante capacidade de transformar responsabilidades próprias em culpas alheias.

No Brasil, essa indústria aperfeiçoou um de seus produtos mais rentáveis: o antiamericanismo. Não porque explique melhor a realidade, mas porque explica melhor os fracassos. Toda narrativa política precisa de um antagonista. É muito mais confortável governar contra um inimigo do que diante de um espelho.

Foi assim que os Estados Unidos deixaram de ser apenas um país. Tornaram-se um argumento. Quando a economia decepciona, quando o investimento recua ou quando uma negociação produz custos, Washington reaparece como personagem obrigatório. O culpado chega antes dos fatos.

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Donald Trump negocia como quem derruba a mesa antes de começar a partida. Pressiona, ameaça, exagera, recua quando convém e volta a pressionar. Pode-se criticar seu método, mas existe uma diferença elementar entre uma potência e um país emergente. Uma pode desperdiçar oportunidades. O outro não. Foi exatamente essa lógica que levou governos de diferentes orientações ideológicas, como o do Reino Unido, notadamente “progressista”, a negociar com pragmatismo. Não porque concordassem com Washington, mas porque compreenderam que, na política externa, o interesse nacional vale mais do que a satisfação do ego governamental.

Na geopolítica, a realidade não negocia com o ego. É justamente aí que a retórica encontra seu limite. O governo brasileiro transformou a soberania em palavra de palanque. Pronuncia-se o termo com indignação, multiplica-se o conflito e espera-se que o discurso faça a realidade recuar. Mas soberania para quem? Para a empresa que perde mercado? Para o exportador que enfrenta novas barreiras? Para o trabalhador cuja renda depende da competitividade brasileira? Ou para quem transforma um impasse diplomático em ativo político?

Soberania não é colecionar confrontos. É ampliar mercados, atrair investimentos, proteger empregos e aumentar a liberdade de escolha de uma nação. A política vive de símbolos. A economia vive de incentivos. Confundir uma com a outra produz manchetes hoje e custos amanhã.

O maior paradoxo do antiamericanismo é que ele raramente altera o comportamento dos Estados Unidos. Em compensação, pode aumentar o custo das escolhas brasileiras. Ideologias escolhem inimigos. Estadistas escolhem prioridades. A realidade jamais perdeu uma negociação para uma ideologia.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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