Propaganda versus o desfile da liberdade

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No domingo, sentei para assistir ao carnaval. A Sapucaí era menos palco de criação artística e mais vitrine de propaganda política.

A festa popular, financiada por todos, convertia-se em instrumento de exaltação governamental. Rareavam a ambiguidade, a tensão criativa e a ironia crítica, os elementos próprios da arte que desafia o poder. O que se apresentava ali não era apenas celebração temática; assumia contornos de propaganda eleitoral antecipada, ainda que embalada pela estética da festa. A arte, que deveria tensionar o governo, surgia convocada a legitimá-lo.

É curioso que os “grandes progressistas”, aqueles que se proclamam guardiões da cultura silenciem quando ela abandona a função crítica e passa a servir como adorno oficial. Nesse momento, sua dimensão simbólica se deforma, porque cultura que não confronta o poder aproxima-se, objetivamente, da propaganda.

Sob o nobre slogan lulopetista “União e Reconstrução” — repetiam-se também as palavras amor e paz. O vocabulário vermelho era elevado, quase redentor. Mas palavras não corrigem o modo de ser. União imposta não é união; é alinhamento sob outra nomenclatura. Reconstrução edificada sobre a divisão não recompõe o tecido social; apenas reorganiza fraturas e preserva antagonismos úteis, mas destrutivos.

O discurso lulopetista fala em conciliação enquanto a prática estrutura identidades políticas, consolida blocos e administra tensões cuidadosamente cultivadas.

Divide-se para governar, alimentam-se antagonismos convenientes e, em seguida, o próprio poder apresenta-se como mediador indispensável dos conflitos que aprofundou. Fala-se em liberdade enquanto se normalizam decisões e mecanismos que, na prática, restringem vozes divergentes e ampliam a percepção e a realidade de censura.

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E é aqui que o contraste se torna incontornável.
Ontem, segunda-feira, iniciava-se a homenagem a Rita Lee. Não se exaltava governo algum nem se instrumentalizava a cultura para fins eleitorais.

Celebravam-se irreverência, liberdade de expressão e autonomia criativa. A própria trajetória artística evocada ali carrega a marca da resistência à censura e da defesa do direito de dizer, criar e discordar. O desfile trouxe à avenida a ideia mais simples e a mais poderosa, a de que a liberdade de expressão é o fundamento da dignidade individual.

Ali, o indivíduo surgia maior do que qualquer narrativa coletiva, e a diferença aparecia como potência humana, não como ferramenta de engenharia social.

Amor não era segmentação; era reconhecimento da singularidade. Paz não era silêncio imposto; era convivência com o contraditório.

Entre os dois desfiles havia mais do que estética; havia um divisor moral.

De um lado, a cultura utilizada para promover um projeto político sob aparência festiva, enquanto que nessa mesma política, relativizam-se limites e cerceiam à livre expressão. De outro, a arte reafirmando que nenhum coletivo abstrato pode se sobrepor à primazia da consciência individual e ao direito de falar sem controle político.

Quando a arte se curva ao poder, algo essencial cede, pois a vigilância enfraquece, a corrupção perde o constrangimento e a coesão social, fundada no respeito entre indivíduos livres, inevitavelmente se esfacela.

O espetáculo pode continuar, as luzes podem brilhar e o ritmo pode embalar a multidão.

Mas, quando a liberdade deixa de ocupar o centro, a avenida já não celebra o povo. Passa a encenar, sob brilho e aplausos, a velha coreografia do patrimonialismo, em que o dinheiro público financia a autopreservação do poder e a política oculta seu projeto de dominação sob o enredo conveniente de que “a esperança venceu o medo”.

Esperança, neste caso, não como promessa de futuro, mas como expediente de permanência; medo, não da tirania, mas da perda dos privilégios consagrados que a sustentam.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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