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Por que Angela Merkel conseguiu ficar tanto tempo no poder?

Após catorze anos no poder, chegou a hora de a primeira chanceler feminina da Alemanha pendurar suas chuteiras. Ao que tudo indica, Angela Merkel, da União Democrata Cristã (conservador), dará lugar ao seu ministro da economia e vice-chanceler, Olaf Scholz, do Partido Social-Democrata (SPD). Apesar de serem de partidos diferentes, como Scholz faz parte do gabinete de Merkel, tudo leva a crer que ele dará seguimento às políticas (bem-sucedidas) de sua sucessora. E por que Merkel conseguiu ficar tanto tempo no poder, sendo ela a terceira colocada atrás apenas de Bismarck (22 anos) e Kohl (16 anos)? É isso que vamos explorar neste texto.

Já escrevemos no passado sobre as reformas de seu antecessor Gerhard Schroeder, conhecidas como “Agenda 2010” (segundo link das fontes). De uma maneira bem resumida, a Alemanha estava muito mal. Seu PIB caiu entre 2002 e 2003, os gastos públicos estavam fora de controle (principalmente por causa dos esforços para integrar o Leste), houve uma diminuição de sua participação nas exportações mundiais, cerca de 11% de desemprego (2005), ataque especulativo contra sua antiga moeda (Deutschmark), migração de sua produção industrial – e consequentemente empregos – para seus vizinhos europeus. O consumo estava em queda e os custos trabalhistas das empresas subiam.

Ao contrário dos líderes brasileiros que ficam anos discutindo reformas, mas nunca fazem nada, Schroeder resolveu atacar o problema e várias reformas foram feitas. Entre elas estavam:

1 – Redução drástica do orçamento do Estado de bem-estar social;

2 – Corte de impostos para trabalhadores e empresas;

3 – Flexibilização das leis trabalhistas – incluindo aí facilitação de regras de contratação/demissão e trabalho parcial/temporário;

4 – Redução da quantidade de tempo por que uma pessoa pode receber seguro-desemprego;

5 – Forte limitação no salário do funcionalismo (Reforma Administrativa que o Brasil está tentando passar);

6 – Uma reforma da previdência, que aumentou a idade de aposentadoria.

Resultado? Rodrigo Zeidan e Fábio Giambiagi respondem: “hoje todos reconhecem que foi essa agenda de reformas que modernizou a economia alemã”, e fez com que sua economia se tornasse bastante pujante. Porém, devido à impopularidade das suas medidas, Schröder perdeu a eleição para Angela Merkel, que, por sua vez, colheu o que seu antagonista plantou. Mais ou menos como Lula fez em relação a FHC.

Reformas anteriores por si sós não explicam o sucesso de Merkel, que vai sair do Reichstag com altíssimo índice de aprovação. Durante o seu governo, a tributação das empresas foi reformada (2008), reduzindo a taxa de imposto em lucros retidos de 38% a 30%. Ela também reduziu as contribuições para o seguro-desemprego de 6,5% para 4,2% em 2007. Para compensar a perda de arrecadação, o imposto sobre valor agregado (VAT) foi aumentado, bem como a base de cobrança; porém, ambas as reformas conseguiram impulsionar os investimentos e criar empregos na Alemanha. Michael Wohlgemuth, professor de economia da Universidade de Witten/Herdecke, diz que, “no geral, os 15 anos de Merkel foram muito bons para a economia alemã, especialmente quando comparada à da maioria de nossos vizinhos”. Embora os padrões de vida da França e da Itália tenham estagnado ou caído, os alemães estão em média 20% melhores do que quando Merkel chegou ao poder.

Talvez o grande mérito de Merkel seja sua capacidade de administrar crises. Durante a crise do COVID, a taxa de mortalidade da Alemanha pela doença é significativamente menor do que a de outros grandes países europeus: menos de um quarto do que a da França, menos de um quinto do que a da Grã-Bretanha, Espanha e Itália. Ela também foi amplamente celebrada no seu país por minimizar as consequências econômicas da pandemia: o índice de confiança de consumidores e empresas ficou acima da imensa maioria dos seus pares europeus. Apesar de sua abordagem geralmente rígida em relação aos gastos públicos, Merkel injetou cerca de US$ 1,2 trilhão na proteção de trabalhadores e empresas, o que ajudou a aumentar a confiança e evitar uma espiral de desemprego fora de controle.

Em 2009, a economia alemã foi duramente atingida pelo declínio do crescimento em todo o mundo (subprimes), tendo sua produção econômica encolhido em 5%. O fato de a indústria exportadora, o setor mais forte da economia alemã, ter sido afetada, provou ser uma bênção disfarçada. Apesar da queda dramática nas vendas, muitas empresas se recusaram a permitir que seus funcionários se fossem. Eles estavam confiantes de que a economia iria se recuperar rapidamente. O governo federal alemão apoiou essa estratégia de várias maneiras, incluindo a extensão ao subsídio de curto prazo. Essa estratégia valeu a pena, pois, quando começou a recuperação, a indústria alemã estava pronta para atender à demanda global.

Nem a crise dos refugiados entre 2014 e 2015 atingiu a popularidade de Merkel. Em sua decisão mais polêmica, ela abriu as fronteiras durante a crise de refugiados de 2015. Apoiadores dessa decisão alegaram que o influxo de refugiados acabaria por beneficiar a economia da Alemanha, já que o país precisava de mais trabalhadores. Em contraste, os críticos aconselharam cautela à luz dos altos custos para o estado de bem-estar. Como já escrevi por aqui outras vezes, imigrantes tendem a melhorar a economia do país hospedeiro e a Alemanha não foi diferente. Ela foi reeleita em 2017.

Obviamente, nem tudo são flores. Um dos erros da chanceler, conforme já escrevi aqui outras vezes, foi em relação à energia nuclear e, consequentemente, em relação à mudança climática. Devido ao medo bobo que os alemães têm da energia atômica, os germânicos pagam quase 50% a mais na conta de luz que seus pares franceses e, além disso, eles trocaram seus reatores por combustíveis fósseis. Porém, não há dúvidas de que a história será generosa com a primeira governante feminina alemã, ao contrário do seu “par” brasileiro…

*Artigo publicado originalmente por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

Fontes:

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/09/24/eleicoes-na-alemanha-veja-perfil-de-olaf-scholz-favorito-em-pesquisas-a-substituir-angela-merkel.ghtml

https://www.ifo.de/DocDL/Viewpoints_2020_211_webversion_0.pdf

https://taxsummaries.pwc.com/germany/corporate/taxes-on-corporate-income#:~:text=Corporation%20tax%20is%20levied%20at,total%20tax%20rate%20of%2015.825%25.

https://fee.org/articles/why-angela-merkel-just-keeps-winning/

https://www.economist.com/special-report/2021/09/20/after-merkel

https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php?title=Electricity_price_statistics

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