O Pós-modernismo, as políticas identitárias de grupo e o socialismo

O pós-modernismo é fruto do marxismo, conforme nos mostra Stephen Hicks em Explicando o pós-modernismo. É uma metamorfose do marxismo cultural, por isso também chamado de neo-marxismo. Como o socialismo não deu certo onde foi implementado (e não tem como dar certo, pela ausência do cálculo econômico*), o pós-modernismo visa a desconstruir e relativizar a razão, a lógica e os fatos que marcaram o iluminismo, o modernismo, o capitalismo e o livre mercado e para isso utiliza o politicamente correto, o discurso compulsório, a restrição à liberdade de expressão, a ideologia de gênero, a ideia de que todas as culturas são iguais (mesmo algumas sendo mais injustas e assassinas), as políticas identitárias de grupo, o niilismo e o aparato e a coerção estatais, tudo em nome da utopia socialista.

No pós-modernismo, foi transpassada a lógica de burguês contra proletário para grupo, raça, etnia, sexo (ou qualquer outra classificação que convenha) oprimido/a e grupo, raça, etnia, sexo opressor/a. Houve uma mudança de paradigma no pós modernismo: têm-se grupo oprimido contra grupo opressor, porém é o mesmo marxismo e pensamento coletivo que leva a Estado máximo, guerras e disputas pelo poder. Buscam-se políticas de identidade de grupo, usualmente utilizando o Estado e a sua coerção.

É basicamente o pensamento coletivo e de identidade de grupo no sentido de que os diversos grupos têm pensamentos e agem de formas semelhantes. O que impera não é a lógica e a razão, mas sim o fato de que todos do grupo pensam e agem igualmente. É um absurdo e contra a lógica, um homem branco (ou qualquer outra classificação grupal) não pensa ou age igual a outro homem branco, não são ambos como formigas em um formigueiro, são indivíduos diversos um do outro. A ideia do pós-modernismo é a de que os grupos disputam uma riqueza limitada em constante luta entre si e a consequência disso é trágica.

Os socialistas do pós-modernismo têm um pensamento ou ideia de que a riqueza deve ser distribuída igualmente (como se a economia fosse um jogo de soma zero) entre os supostos grupos em busca de uma igualdade utópica.

Os fatos de que desde o século XIX e com a revolução industrial, que decorreu do predomínio do pensamento liberal e do poder do indivíduo perante o Estado, a população mundial cresceu de 1 para 7 bilhões, de que a renda per capita mundial mais que decuplicou e a extrema pobreza caiu de 95% para 10% já deveriam sepultar esse pensamento de que a economia é um jogo de soma zero ou um bolo definido que deve ser repartido. A extrema pobreza verifica-se ainda maior no continente africano por causa de Estados socialistas, intervencionistas na economia e o não respeito à propriedade privada.

O fato de a troca de um bem A por um bem B ocorrer significa que os proprietários dão valor subjetivo maior àquele bem que estão recebendo em troca para os fins que mais apreciam, como bem desenvolvido por Carl Menger da Escola Austríaca de economia, que é o que faz toda a economia girar gerando riqueza. Quanto maior a liberdade na economia, sem intervenção do Estado, maior a riqueza gerada, ou seja, os fins almejados pelas partes são alavancados, sendo que o livre mercado possibilita maior poupança, acúmulo de capital e especialização das atividades para melhor atender ao consumidor.

As intervenções do Estado como salário mínimo e as diversas regulações (licenças, restrições, proibições de competição, monopólios e etc. ao invés de deixar o consumidor se guiar pela certificação privada) sobre a economia impedem os pobres de saírem da pobreza. Vamos supor que cheguem em São Paulo pessoas com a cor cinza (os pós-modernistas correriam para classificá-los) sem nenhum bem e sem estudo formal. O salário mínimo e as regulamentações a impedem de trocar sua mão de obra por dinheiro, exercer uma profissão ou abrir um comércio ou mesmo aprender um ofício, só restando a informalidade, a ilegalidade e a criminalidade; logo o Estado as impede de trocar seu trabalho, de poupar e de ter capital para ter maior qualidade de vida. Cabe esclarecer: a ausência de regulamentações por parte do Estado não é uma pandemia, pois há a certificação privada para guiar o consumidor e também, para quem se sentir prejudicado, há a Justiça para dirimir as questões, sem a necessidade das restrições naturais do Estado com todos os seus efeitos maléficos decorrentes principalmente de não se guiar pelo cálculo econômico. 

As intervenções do Estado para tentar solucionar esses problemas criados por ele mesmo e influenciados pelo pós-modernismo, em busca da igualdade de renda e de oportunidade, que são conceitos contra a natureza humana e, portanto, impossíveis de serem implementados, somente eliminará os processos de ajuste da economia, destruirá sua eficiência e causará o consumo de capital, não resolverá a situação e congelará a economia em um modelo de castas improdutivo com a queda no padrão de vida em geral, consoante o ensino de Murray Rothbard em Power & Market (traduzido por Governo & Mercado pelo Instituto Mises Brasil). Somente no livre mercado não há castas e há efetivamente mobilidade de renda para atender ao consumidor. Como também preleciona Rothbard em Power & Market, a igualdade de oportunidade é algo inatingível pelas intervenções do Estado, pois a vida não é um jogo ou corrida com um ponto de largada idêntico: o mundo é infinitamente diverso, como as pessoas e seus atos o são, e não acabou de surgir. A desigualdade é inerente à raça humana, todo ser humano é diferente um do outro, é impossível querer os mesmos resultados; mesmo na pobreza e morte socialista há desigualdade e só o livre mercado possibilitará a poupança e a especialização das atividades para que todos possam atender ao consumidor da melhor forma. A riqueza gerada pela maior liberdade econômica beneficia a todos com maior capital e qualidade de vida, conforme se verifica nos índices de liberdade econômica.

A política chamada numerus clausus em diversos países, principalmente na Europa, nas primeiras décadas do século XX foi isso: ao notar que os judeus eram 1% da população, porém muito mais representados que isso na universidade e diversos setores e também muito mais ricos, impuseram cotas para os diversos grupos, com a justificativa de dar direitos e oportunidades a todos os grupos. Hoje em dia chamariam de ação afirmativa anti-discriminação alemã, húngara, polonesa, alguns países que adotaram essa política.

Políticas identitárias de grupo e suas consequências podem ser notadas na Alemanha, onde geraram leis de ações afirmativas, depois de restrições de direitos e finalmente de extermínio dos judeus. O mesmo se repara no genocídio de Ruanda, com a separação grupal entre os tutsis e os hutus, com estes sendo maioria dominando o Estado a partir de 1960 e com ações afirmativas a seu favor. Enfim, o mundo é cheio de catástrofes com conflitos étnicos e religiosos do pensamento tribal de políticas identitárias de grupos, decorrentes do “nós contra eles”. O pós-modernismo faz acentuar essa separação grupal ou tribal.

Graças ao avanço do pensamento liberal e à ideia da soberania do indivíduo, como também ao fato de o sistema escravagista não conseguir competir com a mão de obra paga, a escravidão foi tornada ilegal em grande parte do mundo. A escravidão sempre existiu na história da raça humana. O predomínio de escravos negros nas Américas decorreu do comércio lucrativo que existia na África das próprias tribos e impérios africanos. Quando a escravidão foi tornada ilegal e se ordenou no Brasil a soltura dos escravos, o correto seria que quem se apropriou dos trabalhos dos escravos os indenizasse. Uma vez passadas diversas gerações e a grande miscigenação que existe no Brasil, bem como o fato de não se saber qual família era proprietária de terras com escravos e nem se saber quais são esses escravos, fica impossível qualquer prova da materialidade e previsão de possibilidade de indenização e culpa, devendo-se aplicar também o princípio da intranscendência ou da pessoalidade da pena. Cabe ressaltar que o historiador Robert Davis estima que mais de 1 milhão de europeus, brancos, foram escravizados entre os anos de 1500 e 1800. Assim, classificar um grupo específico hoje como merecedor de privilégios e discriminação é cair na guerra tribal e separação da sociedade em busca do poder.

O pós-modernismo, conforme nos ensina Dr. Jordan Peterson em suas palestras e no prefácio da nova edição de Arquipélago Gulag de Aleksandr Solzhenitsyn, coloca a responsabilidade e o julgamento em cima de um grupo, afastando, assim, a responsabilidade e a culpa individual, sem a possibilidade de expiação e reparação do erro por parte do indivíduo, sendo que a única justiça que resta é a punição de todo o grupo. Tudo se transforma em um ressentimento de um grupo contra outro e ao mesmo tempo o conforto de estar fazendo algo “certo” ao privilegiar e/ou discriminar certo grupo.   A disputa pelo poder do Estado fica inevitável entre os grupos.

O Estado se aproveita do pensamento pós-modernista para promulgar leis que visam conceder privilégios a determinados grupos, que, como nos mostra Friedrich Hayek em O Caminho da Servidão, as intervenções acarretam cada vez mais domínio e subjugação da economia e da sociedade, sendo o pós-modernismo, assim, um caminho totalitário de intervenção na economia e na vida das pessoas que desemboca na separação grupal, no socialismo e a sua pobreza e morte como consequência.

* Explicando brevemente a ausência do cálculo econômico no socialismo previsto por Ludwig von Mises: Sem propriedade privada não existem mercados e sem estes não existem preços, os quais tornam possível o cálculo econômico, ou seja, a comparação e alocação entre os diversos usos possíveis dos recursos. A ausência de cálculo econômico (propriedade privada, mercado e preços) no socialismo impossibilita a racional alocação de recursos e provoca a escassez generalizada.

Sobre o autor: Vitor Humberto Sampaio Netto é Advogado.

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