fbpx

O marxismo cultural nas livrarias brasileiras

Na semana passada, foi amplamente divulgado um vídeo de uma mulher que se desespera ao entrar em uma livraria e se deparar com uma estande lotada de livros de autores de esquerda, pois estes estariam em evidência perante os livros dos autores de direita, que, segundo a mesma, estavam escondidos. Para ela, a conclusão não poderia ser mais clara: é culpa do marxismo cultural.

Posso enumerar quantas vezes já afirmei que essa tese conspiratória é uma bobagem e mais uma vez venho explicar aqui o porquê de isso nada ter a ver com o fantasma do marxismo cultural que assombra e virou pesadelo para grande parte da direita brasileira.

Como todo bom estudioso da economia, mesmo que principiante, existe a lei de oferta e demanda, talvez uma das leis mais sólidas a respeito da humanidade e suas ações. Por óbvio, toda e qualquer atividade comercial baseia-se nessa lei para funcionar, e, portanto, uma livraria, um comércio especializado em livros, disponibiliza justamente aquilo que seus consumidores mais buscam em livros.

Se você entra em uma livraria e encontra livros da série 50 tons de cinza, livros do Felipe Neto para crianças, livros de autoajuda e consequentemente livros de autores de esquerda na entrada, é apenas o mercado dando um sinal: a esquerda tem lido livros e a direita tem minguado da procura no mercado editorial. Porém, em se tratando de uma evidência anedótica da determinada livraria, permito-me aqui aplicar outra evidência anedótica, pois há não mais que uma semana, no exato dia em que o vídeo “bombou”, eu estive em uma livraria.

Como um consumidor ávido de livros que eu pessoalmente sou, passo mais tempo em livrarias do que em qualquer outro lugar por lazer, e, com base nas minhas inúmeras visitas a várias livrarias com constante regularidade, posso afirmar: por mais que exista uma imensa exposição de livros dos autores de esquerda, existe também a exposição de livros de autores de direita. Infelizmente muitos deles são de qualidade muito inferior, na minha opinião.

Prova disso é que, no mesmo dia em que viralizou o vídeo, me deparei com uma prateleira no setor de ciências humanas com livros sobre a Escola Austríaca, mencionando autores que fazem sucesso no país, como Mises, Rothbard e até mesmo Hoppe – alguns dos livros com mais de 15 cópias dispostas, mostrando que fazem uma excelente tiragem em livrarias pelo Brasil. Fora estes livros, por várias vezes vi obra de Olavo de Carvalho disposta na primeira prateleira da loja, pois era um dos best-sellers, além de ver até mesmo livros de Guilherme Fiúza e Rodrigo Constantino em várias ocasiões.

Isso sugere dois pontos importantes: se há um problema com consumo de literatura política, está muito longe de ser uma questão de esquerda ou direita, e sim de qualidade. Pois, no campo da esquerda, abundam livros sobre o “golpe de 2016”, sobre fim da democracia baseando-se apenas na eleição e no mandato de Donald Trump e até o livro sobre “Turbomachotecnofascismo” de Márcia Tiburi, livros por si só risíveis em seus títulos.

Enquanto isso, no mercado editorial de direita, vários livros sequer conseguem ver a luz do dia. Poucas vezes encontrei os excelentes livros de Antônio Paim em prateleiras visíveis, autores liberais e conservadores como John Locke, Eric Voeglin, Russell Kirk tem poucos títulos disponíveis para aquisição. É difícil até mesmo encontrar autores contemporâneos como Francis Fukuyama, já que seus livros são pouco traduzidos por falta de demanda.

Porém, se encontrar um verdadeiro intelectual de direita é difícil, o mesmo não acontece com os de esquerda. Karl Marx segue em evidência, afinal, todo curso de humanas o utiliza, seja em menor ou maior parte, a Escola de Frankfurt tem seção inteira dedicada a si; Michel Foucault além de acessível, é muito barato; o mesmo vale para Sartre e muitos existencialistas da Sorbonne. Por mais que você odeie estes autores, eles são a cabeça de toda ideologia da esquerda progressista moderna e tem um acesso muito mais fácil do que autores de direita.

Isso não ocorre por questões de “marxismo cultural”, mas sim por algo que o mercado aponta: a direita brasileira consome pouco da chamada alta cultura. Autores conservadores não estão escassos por algum complô superior, mas sim por baixa procura.

Parte da direita brasileira parece que se alimenta do senso comum que busca travar uma guerra cultural sem consumir cultura. Diferentemente da direita americana, que, sentindo-se ameaçada, tentou preencher espaços com sua própria defesa, no Brasil decreta-se o WO por antecedência e, como resultado, tem-se uma derrota acachapante para a esquerda no âmbito cultural por falta de oponente à altura, pois, ao invés de informar o cidadão, prefere-se a criação dos idiotas úteis nocivos para serem testa de ferro de um movimento errático.

*Artigo publicado originalmente na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

Instituto Liberal

Instituto Liberal

O Instituto Liberal é uma instituição sem fins lucrativos voltada para a pesquisa, produção e divulgação de idéias, teorias e conceitos que revelam as vantagens de uma sociedade organizada com base em uma ordem liberal.