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O Bitcoin e a falta de confiança em moedas estatais

“O Bitcoin tornou a nossa moeda inútil ou sem valor” – Sani Musa, senador da Nigéria

O Banco Central da Nigéria (BCN) tentou recentemente proibir as instituições financeiras daquele país de processar transações em criptomoedas. Junto com a proibição, o BCN solicitou que os bancos identifiquem os detentores de tais ativos. Não deu certo, claro. Os nigerianos começaram a comprar bitcoins “por fora”, via grupos de WhatsApp e até “doleiros”.

Não é difícil presumir porque a população de tal país africano prefira poupar em Bitcoin do que na moeda local. Ao olhar as taxas de inflação daquele país, é raro encontrar algum ano que foi menos de 10% – algo que até poderia dar inveja na Argentina, mas está anos-luz de ser algo saudável. Soma-se a isso a evasão fiscal, algo também totalmente compreensível em se tratando da Nigéria que no ranking da Transparency International esta na posição 149 de 180. Quem vai querer pagar impostos em um país totalmente corrupto?

Não sei se Satoshi Nakamoto está vivo ou morto. Se vivo estiver, sem dúvida ficará feliz ao ver a população da Nigéria usando sua invenção para escapar de regulamentações e incompetência estatais. Vale lembrar que no “Genesis Block” do Bitcoin está a manchete do jornal “The Times”: “Chanceler está próximo de salvar os bancos da falência”. Que pagador de impostos gosta de ver o governo salvando bancos?

A criação do Bitcoin foi fortemente influenciado pelos fundamentos da Escola Austríaca de Economia. “Dinheiro não é uma invenção do Estado”, escreveu Karl Menger. Mises não gostava de interferências estatais no dinheiro das pessoas – era contra, por exemplo, a existência de Bancos Centrais pois, para o judeu-austríaco um Banco Central traria demasiado poder para o Estado que acabaria levando à infração de direitos e liberdades humanas fundamentais. Hayek, discípulo de Mises (que por sua vez foi discípulo de Menger), demonstrou como políticas expansionistas de crédito levariam à inflação e ciclos financeiros que, eventualmente, causariam um crescimento do tamanho do Estado.

O Bitcoin chega para resolver todos os problemas descritos pelos austríacos: é uma moeda privada, impossível de ser expandida e feita para não ser rastreada pelo Estado. A Nigéria é apenas mais um exemplo de como as pessoas usam as criptomoedas para fugir da interferência estatal, mas há vários outros como a Argentina. Buenos Aires é hoje a segunda cidade que mais se aceita Bitcoin no mundo como meio de pagamento.

Há um problema sério se o Bitcoin for cada vez mais utilizado: quando depositamos dinheiro nos bancos, estes utilizam o capital para conceder empréstimos, “criando” moeda. Colocando de uma maneira bem resumida, vamos supor que eu depositei 100 reais no Banco Inter e a fintech emprestou 100 reais para você, logo o Inter acabou de “criar” 100 reais (100 reais do deposito mais 100 reais emprestados) – apesar de que em circulação no mercado o valor não mudou.

Se as pessoas não custodiarem seus valores nos bancos, como ficará o mercado de crédito? Não precisa ser um PhD em Chicago para perceber que haverá sérios problemas. E qual é a solução? Para “matar” o Bitcoin, não adianta criar leis como ocorreu na Nigéria, mas sim atacar o verdadeiro problema: a falta de confiança dos cidadãos em moedas estatais. E como trazer de volta tal confiança? Basta os governos pararem de imprimir dinheiro e gastar menos que arrecadam. Tão simples e tão complexo, não é mesmo?

Para finalizar, aqui vai um recado para o Senador Sani Musa: não foi o Bitcoin que tornou a moeda nigeriana “inútil e sem valor” mas sim a incompetência das autoridades do seu país.

* Artigo publicado originalmente na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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