Narrativas e a política

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No início de 2024, o debate público se viu envolto na discussão sobre a tributação de compras internacionais abaixo de 50 dólares. Em meio a críticas da jornada arrecadatória da atual gestão, alguns argumentos foram apresentados à população, e um deles foi de que tal tributo não impactaria os consumidores.

Com a medida em vigor há mais de dois anos, podemos afirmar que o impacto foi desastroso. Tanto que, ciente disso, o governo revisou a regra. Porém, não se furtou de apresentar uma nova narrativa: a de que sempre foi contrário à proposta.

Os números são expressivos: a chamada taxa das blusinhas gerou R$ 5 bilhões em 2025. Apenas nos quatro primeiros meses de 2026, mais R$ 1,78 bilhão entraram nos cofres públicos. O objetivo arrecadatório foi cumprido. Mas a que custo?

Segundo pesquisa da AtlasIntel, 62% dos brasileiros consideram a medida um dos principais erros do governo atual, e não é difícil entender o porquê. A taxa encareceu o acesso a produtos importados de baixo valor para milhões de consumidores.

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No entanto, os problemas não se limitam à popularidade. Se, por um lado, os cofres públicos arrecadavam, por outro, o governo via uma de suas empresas estatais ser diretamente prejudicada. Os Correios relataram forte redução no volume de encomendas internacionais, que passaram de cerca de 22% para 8% das receitas da estatal. Em suas notas explicativas, a empresa apontou esse movimento como um dos fatores que contribuíram para o prejuízo bilionário registrado no período.

Um resultado e déficit que obriga o governo a capitalizar a companhia, ou seja, o dinheiro entra por um bolso e sai pelo outro. Quem paga a conta, ao fim, é o mesmo cidadão sufocado por tributos. Portanto, em meio a narrativas e discursos políticos, a economia acontece no mundo real – e é nesse mundo real que decisões mal planejadas e sem justificativa afetam o bolso, as oportunidades e a vida das pessoas. O ano é decisivo e de eleições no Brasil, e, com as eleições, virão mais e mais narrativas sobre diversos fatos ocorridos nos últimos anos.

Por isso, é fundamental revisitar seus resultados e consolidar o debate público sobre seus efeitos para que medidas dessa natureza não voltem a ser adotadas sem a devida reflexão sobre seus custos e consequências.

*Rodrigo Villa Real Mello é economista e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE).

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