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Marielle, Anderson e um tiroteio de horrores

O fato: Marielle Franco, uma vereadora do Rio de Janeiro, aos 38 anos, mãe de uma estudante de 19 e eleita com o significativo número de 46 mil votos, foi baleada no bairro do Estácio, juntamente com seu motorista, Anderson Pedro Gomes. Os dois entraram para a estatística dos sessenta milhares de vítimas de homicídios por ano e da violência característica do Rio de Janeiro, que vem ceifando as vidas de policiais, professores, médicos, todos os tipos de pessoas de todas as profissões. O acontecimento foi uma tragédia. É mais uma face do horror que nos assombra, sedentos que estamos por uma perspectiva de esperança.

Infelizmente, o crime covarde e sanguinolento foi apenas o começo – e a pior parte, convenhamos – de um verdadeiro tiroteio de horrores a que presenciamos no mesmo dia. A começar pelo horror dos que procuraram nos rótulos e nas especificações identitárias o elemento elucidativo de todo o cenário dramático, quando sequer os restos da carne das vítimas haviam sido sepultados.

O horror de certos autointitulados liberais e conservadores que, diante da conclusão da história de Marielle, enfatizaram seu caráter de militante socialista, de esquerdista, de ativista do PSOL, para decretar que sua morte foi um bem e celebrar o abominável. Não, não cremos que estes insensatos formem qualquer fenômeno político significativo que valha a pena temer ou fazer parecer maior do que efetivamente é; foram, sim, a minoria, e não vamos aqui pagar pedágio às esquerdas e igualar o que não é proporcional. Moralmente, porém, são um encosto depravado e vil em um processo de desenvolvimento de uma alternativa real para o país, ao pontificar que a defesa de ideias tortas justifica a execução bárbara de uma vida humana.

O horror das esquerdas, que não perderam tempo em transformar em um movimento político o pranto por Marielle, “mulher”, “negra”, “favelada”, como se tais qualificativos tornassem sua vida mais ou menos importante ou explicassem de algum modo a sua morte. Hediondos carniceiros! Anderson, homem, caucasiano e fazendo um “bico”, não ganhou tantos holofotes, porque não era uma vida tão fácil de se instrumentalizar em seus panfletos repugnantes. Tal como Lula havia feito com a morte de sua esposa; tal como fez Luciana Genro ao manifestar estranhamento com a comoção em torno da morte do filho de Geraldo Alckmin; tal como não fazem ao vermos nossos policiais abatidos como gado nas ruas – assim agiram as esquerdas, em sua sanha por politizar. De maneira, porém, ao contrário das reações estouvadas e infelizes à direita, organizada, integrada, capaz ainda de mobilizar sua rede de manifestantes nas ruas a se acumpliciar de vazias palavras de ordem.

O horror das esquerdas, mais uma vez, ao dizer que o assassinato foi consequência do “golpe” de 2016, aquele que nunca existiu. Ao atribuir à “direita branca, rica e homofóbica” a morte de Marielle. Ao estabelecer qualquer tipo de associação – por menor que seja, já asquerosa -, entre tamanha violência e os cidadãos ordeiros que caminharam nas ruas para reivindicar o fim do governo Dilma Rousseff e da era lulopetista, significativamente responsável pela escalada numérica do quadro de compatriotas perecendo sob o tacão da crueldade.

O horror dos especialistas de Internet, os peritos criminais dos Cafundós de Judas, que já solucionaram o caso Marielle-Anderson antes mesmo de qualquer investigação ter sido efetivamente feita. O horror da leviandade insensível. O horror dos palpiteiros despudorados. O horror do fel nas palavras frias de quem não mede as consequências do que diz e se converte desbragadamente em paladino da injustiça.

O horror de um desafio à recém-iniciada intervenção federal no Rio de Janeiro, que, sob os ataques galvanizados da esquerda, depois que esta encontrou uma mártir-símbolo para chamar de sua, precisará trazer respostas eficientes para a sociedade com ainda mais urgência. O horror de não se saber quando isto vai acabar, quando a segurança pública será mais que uma ficção, quando os noticiários estarão menos tingidos de vermelho.

O horror de uma sociedade exibindo o que tem de mais feio, o que tem de mais triste, o que tem de mais escroque. O horror do horror – e é com tal azedume que nos despedimos de uma tétrica semana que, por ora, na realidade, não vai acabar.

 

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Berlanza é editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica" e “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”.