IPO da SpaceX: como a SpaceX pode se tornar a empresa mais valiosa do mundo

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Sr. Zitelmann, segundo relatos da mídia, a SpaceX pode ser avaliada em mais de dois trilhões de dólares em uma eventual oferta pública inicial (IPO) — uma escala que faria até mesmo muitas das maiores empresas de tecnologia do mundo parecerem pequenas. Pelas estimativas atuais, a SpaceX se tornaria a sétima empresa de capital aberto mais valiosa do mundo. Do ponto de vista de um investidor, o que a SpaceX realmente teria de entregar nos próximos anos para que essa avaliação fosse mais do que uma fantasia de Elon Musk: fluxos de caixa do Starlink, um monopólio no mercado de lançamentos de foguetes, centros de dados para IA em órbita — ou a perspectiva de uma economia espacial inteiramente nova?

Zitelmann: A avaliação é, naturalmente, fantasticamente alta — até várias vezes maior que a da Tesla. É exagerado quando o Financial Times afirma que a SpaceX foi responsável por mais de 80% de todos os lançamentos de foguetes no mundo no ano passado. Mas é verdade que a SpaceX hoje tem, na prática, uma posição quase monopolista. Em 2025, dos 324 lançamentos de foguetes realizados globalmente, 165 foram feitos pela SpaceX. Se a SpaceX fosse um país, ocuparia o primeiro lugar como potência espacial mundial — muito à frente da China, com 88 lançamentos. E, dos aproximadamente 15.000 satélites ativos atualmente em órbita, mais de 10.000 pertencem ao sistema Starlink de Musk. Mas isso é apenas o começo: em janeiro de 2026, a SpaceX solicitou à agência reguladora norte‑americana FCC autorização para até um milhão de satélites destinados a funcionar como centros de dados de IA em órbita. O modelo de negócio por trás disso é fornecer enormes quantidades de poder computacional de IA de forma muito mais barata e energeticamente eficiente do que centros de dados terrestres, utilizando energia solar praticamente ilimitada no espaço e resfriamento passivo no vácuo espacial. Há poucos dias, a SpaceX anunciou uma parceria com o Google nessa área.

Muitos investidores associam a SpaceX principalmente a lançamentos de foguetes espetaculares e à visão de Elon Musk de colonizar Marte. Mas como a SpaceX realmente ganha dinheiro hoje — por meio de contratos com a NASA e os militares, lançamentos comerciais de satélites, assinaturas do Starlink ou, potencialmente, serviços totalmente diferentes no futuro? E, especificamente: de que ordem de grandeza de receita estamos falando quando os investidores avaliam a SpaceX atualmente?

Zitelmann: Uma afirmação frequentemente repetida, porém falsa, é que a SpaceX vive inteiramente da NASA ou de contratos com a NASA. Eu estimo que a SpaceX gera apenas de 5% a, no máximo, 10% de sua receita a partir de contratos com a NASA. A maior parte, cerca de 70%, vem do setor privado, especialmente do Starlink e de lançamentos comerciais. O restante vem dos militares dos EUA. Starlink tem margens extremamente altas. E, nos serviços de lançamento, eu estimo que Musk cobra dos clientes cerca de três vezes seus próprios custos internos. Ainda assim, a SpaceX como um todo ainda não é lucrativa — por causa dos investimentos massivos no desenvolvimento da Starship, de longe a nave espacial mais poderosa já construída e destinada a levar humanos a Marte.

O timing do IPO é principalmente consequência das atuais avaliações elevadas do mercado de capitais para histórias ligadas à IA e infraestrutura? A SpaceX precisa de capital novo para a Starship, o Starlink e novos projetos? Ou um IPO é simplesmente o próximo passo lógico porque a SpaceX evoluiu de um projeto espacial visionário para uma empresa de infraestrutura em escala?

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Zitelmann: Porque a SpaceX se encaixa perfeitamente no atual boom em torno de IA, infraestrutura e tecnologias do futuro. Starlink deixou de ser apenas uma rede de satélites e tornou‑se potencialmente uma infraestrutura global de dados para IA, aplicações militares e comunicações. Ao mesmo tempo, a SpaceX precisa de quantidades enormes de capital para a Starship, para suas ambições na Lua e em Marte e para a expansão contínua do Starlink. A SpaceX representa o grande tema do futuro da economia espacial.

No seu livro New Space Capitalism você descreve o espaço sideral como a próxima grande fronteira econômica. Elon Musk há muito fala sobre a colonização de Marte na SpaceX, mas agora também sobre produtos de IA sob a SpaceXAI e centros de dados no espaço. Para os investidores, isso constitui uma visão industrial de longo prazo realmente credível — ou existe o risco de que um IPO acabe sendo, sobretudo, a venda de um futuro que ainda é fundamentalmente impossível de avaliar?

Zitelmann: Musk é um visionário. Quando fala em colonizar Marte com um milhão de pessoas, a maioria considera isso ficção científica. Mas é preciso lembrar que ele já alcançou mais do que qualquer agência espacial governamental e qualquer outra empresa privada. Já faz dez anos que a SpaceX construiu o Falcon 9, o primeiro foguete de classe orbital verdadeiramente reutilizável do ponto de vista econômico. Nenhuma agência espacial governamental do mundo conseguiu isso, e Jeff Bezos só alcançou esse feito com a Blue Origin no setor orbital há poucos meses. Se compararmos os custos de lançamento — isto é, o custo de colocar um quilograma no espaço — entre o ônibus espacial da NASA e os custos internos de Musk, ele conseguiu reduzir esses custos em 95%.

Sua visão é construir assentamentos na Lua e em Marte. Na minha opinião, porém, ainda falta um requisito crucial: a possibilidade de adquirir direitos de propriedade privada sobre corpos celestes. Os Estados estão proibidos de fazê-lo pelo Tratado do Espaço Exterior de 1967, mas, entre os especialistas em direito espacial, ainda há controvérsia sobre se essa proibição também se aplica às empresas privadas. No entanto, acredito que, se os planos de Musk para Marte se tornarem realidade, a SpaceX acabará sendo, acima de tudo, uma história de mercado imobiliário. Sem direitos de propriedade privada, isso não funcionará — e, com um REIT marciano, a SpaceX certamente se tornaria a empresa mais valiosa do mundo. Isso ainda está muito distante no futuro, mas, como sabemos, os mercados financeiros precificam o futuro. Segundo o Financial Times, o conselho de administração da SpaceX aprovou um pacote de remuneração segundo o qual Musk poderá receber até 200 milhões de ações Classe B caso a SpaceX atinja uma avaliação de 7,5 trilhões de dólares e estabeleça uma colônia humana de um milhão de habitantes em Marte.

Você vê alguma outra empresa espacial de capital aberto que mereça a atenção dos investidores? 

Zitelmann: Em meu livro New Space Capitalism, discuto em detalhe a Planet Labs e a Rocket Lab. A Rocket Lab foi fundada pelo neozelandês Peter Beck. Com 21 lançamentos no ano passado, ainda está longe dos 165 lançamentos da SpaceX, mas, ainda assim, essa empresa privada realizou aproximadamente três vezes mais lançamentos do que a Europa. A Planet tem 200 satélites em órbita fotografando a Terra e vendendo análise de dados para empresas e governos. A Planet também está trabalhando com o Google no tema de data centers no espaço. No entanto, as ações de ambas as empresas chegaram a subir até 1.000% em certos momentos nos últimos anos. Quando comecei a escrever sobre o capitalismo espacial há alguns anos, muitas pessoas riam de mim e diziam que era um tema de nicho e pura ficção científica. Mas os desenvolvimentos desde então mais do que confirmaram minhas ideias.

A entrevista foi conduzida pelo renomado editor de economia Daniel Eckert, que escreve para o jornal alemão Die Welt. Rainer Zitelmann é autor do livro New Space Capitalismhttps://www.skyhorsepublishing.com/9781510788213/new-space-capitalism/

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Rainer Zitelmann

Rainer Zitelmann

É doutor em História e Sociologia. Ele é autor de 26 livros, lecionou na Universidade Livre de Berlim e foi chefe de seção de um grande jornal da Alemanha. No Brasil, publicou, em parceria com o IL, O Capitalismo não é o problema, é a solução e Em defesa do capitalismo - Desmascarando mitos.

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