Flávio, o STF e o impasse da direita brasileira
Após a eleição de 2022, pela qual o PT logrou retornar ao poder, publiquei um artigo neste espaço falando sobre a necessidade de a direita se organizar fora da esfera bolsonarista e, até mesmo, relegar o bolsonarismo ao ostracismo, posto que não faria sentido insistir no nome daquele que mais concorreu para reabilitar Lula e seu partido. Quase quatro anos depois, o diagnóstico pragmático é de que isso não ocorreu e que, embora muito mais enfraquecido, em todos os aspectos, Jair Bolsonaro ainda reúne um capital político que não pode ser ignorado. Ironicamente, a perseguição política da qual os bolsonaristas têm sido alvo preferencial (mas não exclusivo), a farsa do golpe e os julgamentos de exceção dos réus do 8 de janeiro, do próprio ex-presidente e de pessoas próximas a ele pode ter ajudado o bolsonarismo a ficar em evidência, dessa vez no polo passivo do desmando estatal: não foi o bolsonarismo, mas o STF, afinal, quem implementou um regime de exceção no país.
Ficou claro, durante este período, que a direita, nas eleições de 2026, tendo como objeto principal uma resposta à juristocracia que tomou conta do país, não poderia prescindir do apoio de Bolsonaro a uma candidatura verdadeiramente competitiva. No entanto, estando o próprio ex-presidente inelegível, isso não implicaria necessariamente a escolha de alguém de sua família; tanto melhor, na verdade, se fosse um nome que não carregasse a rejeição que vem a reboque com o sobrenome. Fato é que Tarcísio de Freitas havia se mostrado o nome mais competitivo, seja por um bom desempenho em pesquisas anteriores como, principalmente, por carregar uma rejeição inferior a outros nomes do círculo bolsonarista. Mas eis que Flávio Bolsonaro, com o beneplácito do seu pai, logrou se impor como o candidato. Quem conhece o histórico sabe que essa era uma escolha no mínimo questionável: ainda em 2019, o filho do presidente atuou no Senado contra a chamada CPI da Lava Toga que visava a investigar e endereçar abusos do Judiciário (imaginem como as coisas poderiam ser diferentes hoje se o Senado houvesse atuado ainda no princípio da coisa), já manifestou-se contrário ao impeachment de Moraes e, para completar, defendeu uma anistia ampla que beneficiasse o próprio Moraes. Mas essa escolha se impôs, sobretudo após o prazo de desincompatibilização que afastou de vez a possibilidade de Tarcísio ser o candidato.
Tendo uma rejeição superior à de Tarcísio, o posicionamento de Flávio nas pesquisas mais recentes havia começado a melhorar, com algumas apontando um possível triunfo sobre Lula em um eventual segundo turno. O cenário até ontem, portanto, era de um Flávio cada vez mais competitivo e de um governo e STF cada vez mais desgastados. A reputação da suprema corte nunca esteve tão combalida, sobretudo após as revelações do envolvimento de Toffoli e Moraes com Daniel Vorcaro, o que torna as eleições que se avizinham a grande chance de darmos um basta ao regime juristocrático. Mas eis que, nesta semana, o país todo escuta um aúdio no qual Flávio cobra dezenas de milhões de reais de Vorcaro para a produção de um filme sobre seu pai. Conforme a reportagem do Intercept, pelo menos R$ 61 milhões foram desembolsados por Vorcaro entre fevereiro e maio de 2025. A veracidade do áudio foi confirmada pelo próprio Flávio, que argumentou se tratar de um pedido “privado”.
Não há espaço para “passar pano” e eu entendo que, com isso, a candidatura de Flávio tornou-se insustentável. Ora, o grande trunfo da candidatura de direita que deve fazer frente aos desmandos do STF é justamente o caso Master, incluindo os tentáculos de Vorcaro sobre integrantes da corte. Como Flávio estaria em posição de fazer qualquer cobrança nesse sentido depois de figurar cobrando parcelas milionárias de Vorcaro? Pouco importa se, a priori, não há ilicitude no patrocínio ao filme: o resultado político é o mesmo. Se uma eventual vitória de Flávio já não é garantia de que, à frente do Executivo, ele faria frente ao arbítrio do Judiciário, se seu histórico nos permite considerar ao menos a possibilidade de que ele resolva compor com a ordem juristocrática em benefício próprio, a revelação de uma relação com Daniel Vorcaro só reforça essa possibilidade. Quem, diante de escândalos, demonstra ter “teto de vidro”, neste país, acaba se congregando até com os inimigos de ontem para se proteger: quem garante que Flávio, se vendo atingido pela conexão com Vorcaro, não fará um “acordão” com o STF, também acometido com as mesmas conexões? Há poucas semanas, Flávio ainda insistia na sua ideia de anistia “ampla e irrestrita” e falava em “zerar o jogo”. Os sinais, que já estavam muito claros desde ao menos 2019, chegam a ofuscar a vista tamanho o brilho após a revelação dessa conexão com Vorcaro.
O problema para a direita então é: quem colocar no lugar? Infelizmente, nenhum dos nomes alternativos parece reunir hoje a mesma competitividade que Tarcíciso e o próprio Flávio haviam alcançado até então. Tudo o mais constante, a insistência de Bolsonaro em colocar seu nome e sua família à frente de tudo, a despeito do slogan patético de seu governo, pode ter custado ao país mais um governo do PT e uma continuidade do regime juristocrático. Vemos o mesmo equívoco na eleição ao Senado, a eleição mais importante de todas neste ano. Em Santa Catarina, tradicional reduto eleitoral de Bolsonaro, há dois candidatos naturais e fortes ao Senado, a deputada federal Caroline de Toni e o senador Esperidião Amin. Em que pese o fato de que Amin é um político da velha guarda e está há muito tempo na política, fato é que ele demonstrou nos últimos anos uma postura intransigentemente contrária e crítica aos arroubos autoritários do STF, fazendo-se digno do voto da direita. Havendo duas vagas ao Senado e dois candidatos fortes, o que Bolsonaro fez? Impôs a candidatura de outro filho, Carlos, um sujeito que sequer vive em Santa Catarina..
É provável que Flávio insista na sua candidatura e não se espantem se amanhã o 01 começar a trocar afagos com Toffoli e Moraes enquanto o povo segue espezinhado. O fato é que não há tempo a perder e a direita não pode permitir que o projeto personalista da família Bolsonaro fique no caminho da retomada da democracia no Brasil.
Fontes:
https://www.gazetadopovo.com.br/republica/flavio-bolsonaro-pt-alianca-contra-cpi-lava-toga/
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/04/09/flavio-bolsonaro-diz-ser-contra-impeachment-de-moraes-nao-vai-resolver.htm
https://www.intercept.com.br/2026/05/13/audio-flavio-negociou-vorcaro-milhoes/
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2024/11/27/flavio-bolsonaro-defende-anistia-ampla-e-diz-que-alexandre-de-moraes-vai-sofrer-consequencias-por-abusos.ghtml
https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/flavio-defende-anistia-zerar-o-jogo-e-subir-a-rampa-com-bolsonaro/



