Ensaio sobre um novo fenômeno: a Lei Coase-Surowiecki (segunda parte)

Este artigo foi dividido em duas partes. Para ler a primeira clique aqui.

O matemático Oskar Morgenstern percebeu um paradoxo no empenho de prever o mercado: o de que os agentes econômicos levam em consideração quaisquer previsões e alteram suas decisões de acordo com elas. Em seguida os previsores ajustam suas previsões de forma a restar apenas o imprevisível.

Assumir como válida essa hipótese significa aceitar que não é possível tomar decisões acertadas no mercado, pois qualquer percepção que você venha a ter sobre as tendências do futuro, o mercado já percebeu antes.

Há ressalvas, e o livro O Sinal e o Ruído de Nathan reescreve a teoria dizendo que não é possível lucrar no mercado de ações por muito tempo de maneira consistente sem ter informação privilegiada ou ajuda do acaso.

Ou seja: tentar vencer o mercado significa tentar vencer uma “inteligência coletiva”, mas… existe isso de inteligência coletiva?

Sim, existe, ela atua, mas não o tempo todo. A inteligência coletiva pode agir de maneira assombrosa e surpreendente e pode ser mais sábia que o mais inteligente de seus integrantes, o que nos parece paradoxal.

No livro Sabedoria das Multidões, Surowieck descreve essa inteligência e narra um dos vários acontecimentos que ilustram isso: poucas horas depois que o ônibus espacial Challenger explodiu no ar, o mercado financeiro reagiu e dentre tantas empresas da Nasa envolvidas com a sua construção, foram justamente as ações da empresa que viria a ser apontada como responsável pelo laudo técnico, quando os jornais ainda nada sabiam, as que caíram.

Há muitos exemplos de ação da inteligência coletiva e alguns podem ser acompanhados online. Quem tiver interesse pode checar as partidas do site https://www.chess.com/votechess/ e então confirme que a tendência é a de que as partidas no xadrez sejam ganhas pelo lado com maior número de votantes.

Uma exceção foi de alguém que venceu uma partida muito difícil contra o voto de 50 mil pessoas. Esse alguém foi Kasparov. É preciso ser um gênio para vencer a multidão, é preciso conhecer o seu objeto de estudo em um nível de profundidade filosófico. [https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Partida_Kasparov_contra_o_Mundo]

Um dos primeiros a descrever algo sobre isso foi Adam Smith com sua Mão Invisível. Com Hayek essa ideia tomou força no seu conceito de que conhecimento disperso na multidão é maior do que qualquer dirigente individual (levou um Nobel). Dan Tapstok cunhou o termo Inteligência Coletiva que usou para explicar a superioridade da indústria colaborativa ao modo tradicional de projetar e gerenciar os produtos em regime centralizado. O Linux contra o Windows, a BMW contra a Ford, a Boeing contra todas as outras, a Amazon contra o resto. Cada uma dessas tira proveito da colaboração coletiva contra a hierarquia rígida e quem quiser saber mais pode consultar o livro Wikonômics. Mas foi Surowiecki quem esboçou as condições para atuação dessa inteligência coletiva. James Surowieck faz duas afirmações: 1) “as melhores decisões coletivas são produtos de desacordos e contendas e não de consenso e compromisso” e 2) “sob as circunstâncias corretas os grupos são notavelmente mais inteligentes e frequentemente mais espertos do que as pessoas espertas que os integram”.

Para ilustrar isso, uma breve história introdutória: a do cientista britânico Francis Galton que, buscando provar sua crítica ao sistema democrático, aproveita a oportunidade de fazê-lo durante suas visitas habituais a uma exposição de gado numa cidade rural. Ao observar um evento tradicional da exposição que promove um concurso entre os participantes mediante o pagamento de um bilhete, consistindo o concurso em dar um palpite sobre o peso de um boi, Galton especula que os palpites mais próximos viriam daqueles que possuem alguma relação profissional com o gado, e isso servirá para fundamentar a sua tese de que o governo deveria ser guiado por especialistas e não pelo povo ignorante. No concurso, cada participante deve colocar sua estimativa num papel junto com seu nome e endereço antes de entregar. Após a apuração e entrega de prêmio aos vencedores, Galton decide coletar os dados, cada estimativa, tirar uma média que corresponderia a uma estimativa coletiva, para então comparar com a atuação dos que identificou como especialistas e disso esperou provar sua tese; mas a média se revelou mais precisa do que a de qualquer estimativa individual tirada de qualquer especialista.

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O livro conta vários exemplos assim, analisa as decisões tomadas de reuniões deliberativas e sintetiza as leis que regem a formação de uma “Sabedoria das Multidões”: 1) Os participantes precisam vir de mentalidade, crenças e origens diversas; 2) não pode haver uma fonte de influência central atuando na decisão de todos; 3) cada participante deve atuar de modo independente sem interagir com os demais no ato de deliberar.

Surowiecki segue em seu livro identificando as melhores e piores decisões conforme elas respeitam ou violam os princípios mencionados. Fico imaginando se com isso já dá para esboçar uma filosofia da história. Em vez do Materialismo Dialético de Marx, poderia ser o Deliberalismo Dialélico; a história contada sob o ponto de vista dos meios de produção daria lugar à dos meios de decisão.

Neste esboço, os fatos da história seriam julgados como conquistas ou perdas para a humanidade, sendo um caso ou outro resultado da capacidade coletiva em tomar decisões onde se poderiam correlacionar as grandes tragédias humanitárias com as quedas da inteligência coletiva, as variações da inteligência coletiva com o grau em que os princípios de Surowiecki são violados ou cumpridos.

Dos princípios que regem a Sabedoria das Multidões, é o segundo que me parece mais mensurável, principalmente quando o identifico com a atuação da mídia corporativa, e daí vem o seguinte raciocínio: se os jornais, as emissoras de TV e de rádio e os grandes grupos de comunicação atuaram como um monopólio de influências, onde todo este conjunto prevaleceu reduziu-se a inteligência coletiva, e na medida em que essa inteligência foi reduzida, o resultado foi prejudicial.

Podemos acompanhar a evolução disso desde o início com a invenção da imprensa no ocidente. A invenção da imprensa facilitou o acesso ao livro e o conhecimento se difundiu com grande rapidez, mas também contribuiu para que os poucos que tinham os recursos pudessem injustamente vencer a hegemonia das ideias e com frequência doutrinas e vieses se anteciparam aos fatos. Isso foi a causa das guerras da Reforma Protestante, as Guerras dos Camponeses, Guerra dos 80 anos, Guerra dos 30 anos [PINKER, Steven. The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined. Nova York: Viking, 2011]… Milton escreveu Paradise Lost para dizer que toda a monarquia é ilegitima e promover a imprensa livre. O que ele promoveu foi a decapitação do Rei e o início de um movimento de jornalistas cujo único efeito na sociedade foi provocar intrigas e duelos mortais. As duas guerras mundiais foram impulsionadas pelos jornais inflamando o nacionalismo, a ideologia Nazista foi toda ela concebida por influência de jornais como o Deutsche Volksblatt [Hitler’s Vienna: A Portrait of the Tyrant as a Young Man de Brigitte Harmann] , o comunismo fez da panfletagem de folhetos impressos o meio para acusar e punir, e assim fez Hitler para erguer seu partido. Nada garantia que para todo folheto impresso haveria outro com dizeres opostos. O jornalismo foi muitas vezes um ato de acusação sem defesa e disso surgiram os vereditos dos parlamentos e dos governos.

Engels escreveu no jornal do Marx, Nova Gazeta Renânia, em 1849 sobre a existência de sociedades primitivas a dois estágios atrás do socialismo, pois sequer chegaram ao capitalismo. Bascos, bretões, escoceses e sérvios seriam lixo racial e precisariam ser exterminados porque ficaria impossível chegar ao nível revolucionário. Na peça de teatro de Karl Kraus Os Últimos Dias da Humanidade, há um retrato da ação jornalística empobrecendo a inteligência coletiva. Foi uma peça que captou a mentalidade dominante na iminência da grande catástrofe.

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O Saturday Review de Londres em 1897 apresentou a seguinte opinião: “Se a Alemanha fosse extinta amanhã, não haveria depois de amanhã um só inglês no mundo que não fosse mais rico do que é hoje. Nações lutaram durante anos por uma cidade ou por um direito de sucessão; e não se deve lutar por um comércio de 250 milhões de [libras] esterlinas?…A Inglaterra despertou afinal para o que é inevitável e constitui ao mesmo tempo a mais grata esperança e prosperidade. Germaniam esse delendam“.

As décadas em que a televisão dominou o imaginário mundial, podem ter consistido na verdadeira era do obscurantismo. Foi a televisão a fonte que impeliu o engajamento dos jovens ao lado mais errado da guerra. Todo estudioso sincero, todo filósofo, sonha com um mundo em que as melhores ideias alcancem os meios decisórios. Mas a televisão não promoveu as melhores ideias. Quantos de vocês souberam da Escola Austríaca pela TV?

Aliás, se as teorias econômicas de Mises são tão boas, porque raramente chegam ao poder e foram tão pouco conhecidas nas universidades? E se o conhecimento disperso na multidão é maior que o de qualquer dirigente, porque as companhias que dominaram os mercados mundiais eram estruturadas por hierarquias tão rígidas e centralizadas como as fábricas da Ford?

Essas questões abrem caminho para as explicações da teoria de Ronald Coase. Ronald Coase foi um socialista inglês que, para justificar o dirigismo de Stalin, concebeu a Teoria da Firma. Coase compreendeu que, ao contrário do que esperava o pensamento liberal, estruturas descentralizadas e mais regidas pelo mercado não estavam se tornando viáveis. O conceito chave para entender o porquê é o custo da transação.

A fluidez sugerida pelo mercado, com mobilidade de empregos, fornecedores e colaboradores, esbarra no custo de buscar possíveis substitutos que, por ser alto demais, obrigava as firmas a manter a sua estrutura por meio de contratos que visassem a estabilidade. Fornecedores, empregados e parcerias não podiam ser trocados com muita rapidez. A lei de Coase explica porque as empresas como a Ford e Sloan eram regidas por meio de estruturas gigantes em vez de deixar que o mercado, a oferta e a demanda, as ações individuais de cada agente econômico, fizessem a organização espontânea de cada processo.

Em artigo do site Instituto Mises Brasil, Sobre a Impossibilidade do Estado Mínimo, é levantada a questão do porquê de as nações como os EUA e países escandinavos, que se fundaram em minarquias, terminaram numa estrutura inflada de Estados Gigantes. A resposta apresentada pelo artigo é que tal configuração favoreceu tanto a arrecadação que o crescimento do Estado ficou bastante viabilizado. [ROQUE, Leandro Sobre a impossibilidade do estado mínimo – uma abordagem sem juízo de valor disponível em https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=704]

Essa é uma resposta. A outra poderia ser o custo de transação. A lei de Coase pode ter “empurrado” cada decisão do Estado no sentido do crescimento; o custo de transação deve ter, a longo prazo, inviabilizado a vocação para a minarquia e forçado a substituição dos componentes autônomos e descentralizados por uma solução hierarquizada de controle central. A evolução das telecomunicações facilitou o controle à distância. Os governos da antiguidade precisavam enviar emissários em longas viagens a cavalo para manter a burocracia e isso limitou o tamanho dos impérios. Esses fatores se reforçaram até o surgimento da Internet, seguido da web 2.0 e dos smartphones conectados.

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O livro Wikonomics descreve uma revolução industrial em o cenário que Robert Coase considerava impossível de acontecer, foi viabilizado pela redução do custo de informação. Na década de 80, o conceito de terceirização se tornou popular, mas as grandes empresas ainda determinavam como os produtos deveriam ser fabricados e escritórios centrais enviavam pedidos específicos para fábricas terceirizadas. A revolução que aconteceu foi que o projeto mesmo dos produtos, como carros, motocicletas e aviões, passou a ser concebido e projetado ao estilo da Wikipedia, ou estilo da Linux. Esse modo descentralizado e colaborativo chegou à mídia e neste novo ambiente o segundo princípio que rege a “Sabedoria das Multidões” favoreceu a inteligência coletiva.

Esse foi o motivo de tantas previsões ruins sobre o futuro das eleições. A mídia corporativa, os jornais, as emissoras de TV, as revistas quinzenais, perderam o seu papel no monopólio das influências e os especialistas em fazer prognósticos baseavam suas análises no pressuposto de que este regime antigo ainda estava em vigor. Então, pela primeira vez em toda a história do Brasil, a opinião dispersa dos sites de relacionamento conseguiu prevalecer e impor sua natureza democrática.

Não foram poucos aqueles que questionaram se a vitória de Bolsonaro foi uma boa escolha, mas se a inteligência da “Sabedoria das Multidões” supera a do indivíduo mais brilhante, o melhor especialista, faz sentido que essa escolha surpreenda tantas expectativas inteligentes. Num experimento com algoritmos genéticos um programa fez uma escolha de módulos de montar para a melhor candidata a engenhoca ambulante. Os engenheiros reagiram com surpresa diante da proposta do computador até que a puseram para funcionar somente para descobrir que a engenhoca estranhamente concebida com aspecto intrigante de fato conseguia se locomover.

Essa é a nova era. A Internet e os smartphones abriram o caminho para que melhores escolhas chegassem ao processo decisório. A inteligência coletiva subiu e ficou mais difícil de ser enfrentada, seja pelo acaso, seja pelo privilégio, e assim o efeito da abordagem filosófica ficou mais eficaz. Não é coincidência que a ascensão de Bolsonaro se deu no momento em que as ideias de um filósofo e escritor se tornaram mais influentes no pensamento político, alguém que proferiu cursos sobre o poder, a política e o Estado, que escreveu livros sobre Maquiavel, que restaurou a importância de Aristóteles, que previu a chegada do PT ao poder e sua atuação criminosa, que previu e antecipou em 20 anos a crise na Venezuela. Foi a abordagem filosófica que venceu o privilégio da mídia e dos formadores de opinião, foi a inteligência coletiva que venceu o acaso eleitoral.

Tudo isso que escrevi buscou explicar o efeito Coase-Surowiecki no acaso, privilégio e inteligência dos agentes políticos em jogo. Esse efeito está tornando o cenário político impossível de se prever quando se analisam as coisas pressupondo fatores superados. Em resumo: a redução do custo de informação – lei de Coase – permitiu a vitória do conhecimento disperso na rede sobre o monopólio da mídia, que, por ser monopólio, prejudicava a Sabedoria das Multidões – a lei de Surowiecki.

Sobre o autor: Hélio é engenheiro elétrico e livreiro. É um dos fundadores do grupo de estudos e debates COF RIO sobre filosofia, literatura, política e história. Ministra palestras e workshops sobre filosofia e teoria econômica.  

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