Dia da Consciência Negra: chega de papéis reducionistas!

Celebramos, no 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra. Fatos memoráveis em uma história humana trágica de escravidão ainda ressoam na mente de todos, num silêncio eloquente da consciência de cada um e no barulho das redes sociais, que atacam o preconceito ainda existente por conta da objetificação do humano, no caso, dos negros. […]

Celebramos, no 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra. Fatos memoráveis em uma história humana trágica de escravidão ainda ressoam na mente de todos, num silêncio eloquente da consciência de cada um e no barulho das
redes sociais, que atacam o preconceito ainda existente por conta da objetificação do humano, no caso, dos negros. Vejo que há ainda um misto de consciência dessa tragédia passada com um certo ressentimento que vitimiza exacerbadamente os negros. Claro que tenho que explicar isso, exatamente porque enfatizo que é a cor da pele do negro que é mais lembrada do que ele mesmo, o ser humano, o outro.

A modernidade e suas sequelas humanas, entre as quais o desejo messiânico do “bem” na justiça social a qualquer custo (mesmo que o preço seja a vida do outro), fizeram surgir um certo apodrecimento dos direitos humanos que se reverte em tirania e prejuízo do próprio humano. Só para ilustrar esse trecho, acabei de assistir a um vídeo de suicídio pela internet. Longe disso ser fake news, acredito piamente na feição mortal desse apodrecimento dos direitos humanos, como se todos tivessem direito a tudo, mesmo à morte a qualquer custo e pouco importando o
quão louco isso possa parecer, o quanto de imoralidade essa subjetividade possa redundar. Infelizmente, essa é a realidade de hoje. Mas, volto ao texto.

Claro que a consciência negra é enfatizada em grande medida pelo despertamento que ela provoca, a noção de que o negro foi diminuído à condição de objeto e não de sujeito de direitos. Mas o negro deve ser erigido à altura de humano, de outro, e não apenas de negro. Quero dizer que o indivíduo deve ser ressaltado por ser humano e não somente por seus atributos físicos. É que o verdadeiro amor é despertado pela consciência da humanidade, não por eventuais direitos que o sujeito possa ter ou querer ter.

O que deve ser enfatizado, então, são necessidades não reducionistas do papel do humano na sociedade. Entre negro e humano, por esse ponto de vista e com esse objetivo, prefiro o segundo.

Nessa espécie de engrenagem do Eu, o outro ou os outros são apenas nossas sombras, sinais saídos de nosso interior (Gustavo Corção). É que o mundo não mais acredita no amor, que é o olhar o humano tal como ele é, sem papéis sociais reducionistas. No futuro, o amor de muitos se esfriará (trecho bíblico).

Indo mais além ainda nesse particular não reducionista que proponho, o humano deve ser lembrado pelo seu semelhante, como um semelhante. O outro faz despertar na consciência humana o ser humano como tal, criatura à imagem e semelhança de Deus. Jesus Cristo deixou isso muito claro, quando em vida cuidou de seus irmãos (nós) e filhos do homem (Deus).

Já que é momento de lembranças, destaco A Descoberta do outro, de Gustavo Corção, pela Vide Editorial, um livro que toca exatamente nesse ponto. Em um trecho ele afirma: “Aparecem pedagogos e sociólogos pedantes para nos propor uma solidariedade de camaradas humanos na base de uma tolerância que respeita tudo no outro, exceto o que ele é. Para evitar os cachações dos muitos corpos atirados no estreito vale de lágrimas, instituem-se regras especiais de bem viver, regulamentos, leis sociais, boas educações, moral, civismo, para que as sombras circulem na caverna escura sem atritos de mais e saibam dizer umas às outras: Com licença, com licença…”.

E por mais incrível que possa parecer, uma personalidade da mídia também deve ser lembrada. A jornalista Glória Maria, utilizou uma frase muito conhecida atribuída a Morgan Freeman e fez questão de ressaltar a sua própria condição de humana:

Pra todos que não concordam com este pensamento do Morgan Freeman: Não concordar é um direito de vocês! Mas pretender que todos pensem igual é no mínimo prepotente! Eu concordo totalmente com ele! Pra começar ele não é brasileiro e não está citando o dia da Consciência Negra. Uma conquista nossa! Está falando de algo muito maior. Humanidade! Eu e ele também nascemos negros e pobres e conquistamos nosso espaço com muita luta é trabalho! Não somos privilegiados. Somos pessoas que nunca aceitaram o lugar reservado pra nós num mundo branco! Algum de vocês conhece a minha história e a dele? Se contentam em tirar conclusões e emitir opiniões equivocadas em redes sociais! Nós estudamos, lutamos, resistimos e combatemos todo tipo de discriminação! O preconceito racial é marca nas nossas vidas! Mas não tenho que mudar minhas ideias por imposição de quem quer que seja! Apagar este post? Nunca! Quem não concorda com ele, ok! Acho triste mas entendam. As cabeças e os sentimentos graças a Deus não são iguais! Como lutar contra a desigualdade se não aceitamos as diferenças? Queridos vivam suas vidas e nos deixe viver a nossa! Temos que tentar sempre encontrar nosso próprio caminho! Sem criticar e condenar o dos outros! Cada um precisa combater o racismo da maneira que achar melhor! Lembrando sempre do direito e da opinião do outro!sou negra e me orgulho. Mas não sigo cartilhas. Minhas dores raciais conheci e combati sozinha! Sem rede social para exibir minhas frustrações! Tenho direito e dever de colocar o que penso num espaço que é meu! Não imponho e não aceito que me digam como devo viver ou pensar!?”

Se Glória Maria é de direita, esquerda, centro, extrema-direita, extrema-esquerda, branca, negra, loira, morena, cafuza, cabocla, descendente de escrava? Isso pouco importa! O que Glória Maria quer dizer é: chega de papéis reducionistas.

De quebra e mesmo sem querer, Glória Maria também nos faz lembrar de Theodore Dalrymple, na sempre lembrada Podres de mimados: as consequências do sentimentalismo tóxico (É Realizações). Dalrymple ensaia sobre o papel maximalista do Estado de bem-estar social enquanto reducionista da condição das pessoas, dos humanos, fazendo-os frutos podres evoluídos de uma anterior situação comestível, nessa contínua marcha para frente progressista e num porvir desconhecido, querido e evoluído (Hegel).

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