Cristianismo e Liberdade (segunda parte)

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Guardado esse sentido da questão e guardadas sobretudo essas palavras do Cristo, seria até possível afirmar que entre um Estado laico baseado em princípios cristãos e um Estado autoproclamado cristão não haveria nenhuma diferença efetiva já que a laicização do Estado foi inerente ao desenvolvimento social consubstanciado a partir da doutrina cristã, que defende uma história paradigmática que em nada tangencia a história secular no sentido de que sabe ser impossível a salvação a partir da pura imanência e, por isso mesmo, impossível a efetuação no mundo de uma sociedade absolutamente justa, uma vez que a justiça só se realiza através da transcendência que invade a imanência no coração do homem, como já o provou Sócrates a partir de sua condenação pelo Estado e como já testemunhou Jesus com a sua crucificação.

A relação que tentamos expressar com o título desse artigo ao juntarmos as palavras “cristianismo” e “liberdade” deve-se ao fato de que a proposta política que atualmente nos parece mais compatível e condigna a quem se diz cristão é a proposta que possibilita a construção social a partir da construção de si, ou seja, aquela que visa a aprimorar os sistemas políticos de modo a que juridicamente os sujeitos estejam cada vez mais livres naquilo que lhes compete enquanto indivíduos e enquanto cidadãos. Tais indivíduos poderiam, por exemplo, promover projetos de assistência mútua a partir de suas próprias propensões – se propensões para isso houver.

O progresso, da forma como está sendo imposto hoje pelas pautas da esquerda, acaba traduzindo-se no seu inverso. Colher, por exemplo, direitos para as minorias sem atinar para a relevância jurídica do indivíduo ou favorecer políticas que visem a grupos específicos e não a uma especificação maior de uma lei que proteja o indivíduo, isso não é progredir, é assumir a prática socialista por delegação de favores e cotas. A democracia, tal como a entendemos é limitação de poder e não delegação de favores infinitos do Estado a grupos que se digladiam com o restante da sociedade. Ou se compreende a democracia por seu viés liberal e não populista ou nos encaminharemos para o globalismo homogeneizante contra o qual algumas vozes já têm se erguido. E a democracia, sob esse viés liberal, é para nós inegociável. Não a negociamos com os socialistas, mas também não a negociamos com conservadores reacionários que almejam subordinar a legislação e a ordem social aos dogmas da Igreja.

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Decerto que a  política de uma era deve refletir a trajetória moral do povo que a constitui e se ela assim o fizer efetivamente ao invés de se perder em desvarios teóricos fora do eixo norteador central que nos mantém em equilíbrio, ela se pautará pela institucionalização de regras e leis justas e pautará o bem comum segundo normas já bastante conhecidas –  embora distorcidas – o que significa dizer que se houver uma política eficaz que tenha sido estabelecida como o resultado natural da real trajetória existencial de um povo, essa política jamais se pautará por princípios alheios àquilo que o cristianismo já propôs.

Se aceitarmos a imanência humana como definitiva, a perspectiva política tenderá para o lado da destruição e da dissolução porque refletirá a  própria desorganização moral do coração humano e se aceitarmos a transcendência como algo que nos norteia trataremos a imanência como um seu reflexo e, sendo assim, não haverá como possibilitar ao político uma ingerência maior sobre o indivíduo do que aquela que abre a ele a possibilidade de pôr-se a si mesmo na abertura plena da moral já efetuada pelo cristianismo, dando àqueles que pretendam continuar no recrudescimento a chance de dele sair pelo desenvolvimento de sua consciência, respeitando a sua experiência, desde que essa não seja incompatível com a  ideia de possibilitar aos outros a busca de seu próprio florescimento moral. Assim, entre os que aceitamos o Cristo e que albergamos esperanças de um bom ordenamento político parece não haver espaço para os que pretendem impor regras arbitrárias de conduta e bons costumes, pois tais regras, em sendo impostas, ferem aquilo que todo cristão sabe ser inerente ao próprio valor de sua moralidade, a liberdade.

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É fato que o secularismo jamais responderá por uma redenção completa e por uma justiça consumada e, por isso mesmo, há uma óbvia impossibilidade de reunir teórica e praticamente uma doutrina de índole materialista como o marxismo com a visão de mundo cristã, muito embora isso passe por possível entre aqueles que desconhecem ou desprezam a história real da humanidade em sua relação efetiva com a transcendência, mas  é por isso também que a própria condenação do secularismo não se sustenta como fundamento da crítica que os tradicionalistas fazem aos liberais, pois liberal algum busca na autossuficiência do Estado o preenchimento para a lacuna moral deixada pela diminuição do poder da Igreja. Aquilo para o que se voltam é para si mesmo, para sua própria razão e busca de felicidade. Que se admita que essa felicidade não será jamais alcançada sem Deus, ainda assim isso nada tem a ver com política e política alguma poderá induzir ao florescimento espiritual do indivíduo

Se é verdade que o secularismo conquistado pelas revoluções ditas liberais trouxe consigo a exortação bélica dos revolucionários, ele trouxe também consigo a dignificação humana pelo esforço de iluminar as questões de ordem temporal pelo olhar reflexivo e não pelos dogmas. O dogmatismo em nenhum momento fomentou ou favoreceu o progresso. O espiritual sim. Mas o espiritual é algo muito maior do que aquilo que cabe no credo da Igreja Católica Apostólica Romana (à qual todos devemos muito respeito). Questionamos, pois, a tese mais difundida entre os tradicionalistas de que o secularismo lançou o homem às trevas morais. Não é verdade. Ainda que as trevas morais venham da distância entre o homem e o criador, o secularismo nada tem a ver com isso. Tratar questões temporais com ordens papais ou tratar dilemas éticos com dogmas e superstições não contribui em nada para o alavancamento moral da humanidade.

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O secularismo, ou o Estado laico representa um momento incontornável da história do próprio ocidente. Se hoje nos distanciamos de regimes teocráticos em cujo seio vigoram as maiores barbaridades de que temos notícia é porque nosso estamento secular assim o permitiu.  A partir do momento em que o Estado passa a ocupar-se de leis e não de moralidade humana, o indivíduo moralmente comprometido precisa valer-se de Deus intimamente e resolver-se com a lei externamente. O intermediário entre a consciência pecadora e Deus é ela mesma e não um padre ao qual se deva dar explicações ou fazer confissões. A intervenção papal nos assuntos hodiernos da justiça tornaria improvável o progresso das leis, pois estas se constituem com a experiência, com as tentativas e erros humanos a propósito de seus caminhos. Não adianta, pois, um Estado teocrático dizendo o que é moral se o indivíduo por si mesmo não alcançar esse patamar espiritual. Toda autoridade que vise impor à força o desenvolvimento moral do homem estará fadada ao fracasso, portanto, há que se lutar sim para que as leis façam jus aos desígnios eternos do criador e ao ideal máximo de justiça, mas há que se compreender também que o mistério dos seus desígnios quis que a humanidade tateasse lentamente esses caminhos sem que a mão Dele pesasse sobre os homens na forma de um império teocrático santo e sublime.

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Catarina Rochamonte

Catarina Rochamonte

Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE (Universidade Estadual do Ceará), mestre em Filosofia pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), doutoranda em Filosofia pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos); é escritora e jornalista independente.