Cristianismo e Liberdade (primeira parte)

Entre os cristãos há muitas teses contraditórias no que tange à política e não nos cabe aqui apontar caminhos definitivos, senão estabelecer alguns pontos do debate público no qual acabamos tomando parte. Já escrevemos alhures acerca da incompatibilidade entre a visão de mundo dita hoje “progressista “e a visão de mundo cristã. Ainda voltaremos a isso, mas trataremos aqui de balizar nossos pontos divergentes em relação a um nicho intelectual que, assim como nós, também se opõe às forças políticas ditas progressistas. Referimo-nos aos tradicionalistas antiliberais que se, por um lado, combatem conosco o autoritarismo, a demagogia e o relaxamento moral da esquerda, por outro lado acusam-nos de compartilhar com essa mesma esquerda um certo DNA revolucionário e utópico, por acreditarmos, de algum modo, no progresso do ser humano. Referem-se eles às “revoluções liberais” criticando nelas não apenas os aspectos de violência e ruptura abrupta que muitos de nós também condenamos, mas lamentando principalmente a insubordinação da coroa temporal em relação à papal. Veem, pois, como maléfica a emancipação dos governos temporais em relação à autoridade espiritual de Roma e com isso rejeitam os aspectos positivos da modernidade, negando que tenha havido naquele período reais conquistas e efetivos progressos.

Com todo respeito a essas pessoas com as quais temos alguns importantes pontos em comum, ponderamos que crer no progresso não é ser revolucionário. Revolucionários querem fazer “progredir” à força e por meio de modificações radicais na estrutura social. Pessoas sensatas compreendem que a sociedade e o ser humano “progridem” ou “evoluem” sim, de modo gradativo e lento. Justamente por sermos livres, falhos e limitados vamos a passo de tartaruga, entre paradas de recrudescimento moral e intelectual, entre desvios do caminho e da verdade, mas vamos. Negar isso nos parece obscurantismo. Está claro que quando criticamos os “progressistas” o fazemos pela compreensão de que se trata aí de uma concepção reducionista e equivocada do ser humano. Um “progresso” que se expressa pela dissolução moral, pela apologia aos vícios, pela possibilidade de se poder decidir utilitariamente, por exemplo, acerca da vida de fetos – que são por um lado chamados de amontoado de células e por outro lado chamados de “autopropriedade” (feministas libertárias) –  isso, dizíamos, não é um progresso real. Constatar isso não significa, porém, que progresso não exista e aqui nos parece que o papel de um conservador não reacionário poderia ser o de lançar luz sobre os verdadeiros valores que precisam ser resgatados e preservados para que haja um progresso real ao invés de simplesmente afirmar apressada e equivocadamente que quem acredita no progresso da natureza humana é revolucionário.

Leia também:  Regulação do Facebook: o mal à espreita

Temos hoje, pois, tanto no oriente quanto no ocidente, narrativas que renegam o progresso. Pensam os islâmicos – estagnados que estão em seu próprio desenvolvimento – que o ocidente se perdeu no pecado e na luxúria. Pensam muitos tradicionalistas ocidentais – obcecados pela Idade Média – que isso foi culpa do secularismo da modernidade. Renegam assim o progresso individual e institucional que se deu por meio da evolução secular das ideias; negam valor à era das luzes, à Renascença, ao Humanismo; negam importância aos desdobramentos de um ideal de humanidade assegurado pelos aspectos legais de nossas instituições porque negam a importância da racionalidade recuperada e reintegrada no caminho secular do progresso e das leis.

Concordamos que há um déficit moral no mundo contemporâneo, mas pensamos também que não adianta tentar restaurar alicerces carcomidos de teses teológicas abstratas a fim de salvaguardar a espiritualidade que se esvai. A espiritualidade, na nossa modesta compreensão, precisaria ser reconquistada gradualmente no âmbito interno de cada um. O indivíduo é incontornável em qualquer progresso social verdadeiro e é por isso que, a despeito de valorizarmos sobremaneira a tradição, não nos dizemos simplesmente tradicionalistas ou conservadores sem acompanharmos tais palavras de certas ressalvas. Se queremos conservar o que é bom, conservaremos também a individualidade e sua integridade. O sujeito como ponto de virada na modernidade não significa necessariamente uma perda ou um distanciamento de Deus – como os tradicionalistas querem fazer crer – mas pode representar uma outra forma de encontra-lo. Os conservadores que pretendem desviar o olhar do sujeito, do eu e daquilo que lhe é cabível em termos de extensão política acabam se encaminhando para teses dogmáticas e sem relevância para a transformação moral do indivíduo; transformação essa que o próprio progresso social real pressupõe.

Leia também:  Abaixo o menosprezo ao 13 de maio: comemoremos sim!

Algo relacionado a esse debate foi publicado recentemente pelo jornalista Lucas Berlanza, no artigo intitulado “Nem comunismo, nem Sharia, nem Estado católico.” Nesse artigo, publicado pelo Instituto Liberal, Lucas trouxe à tona a polêmica em torno da defesa, por parte de alguns grupos tradicionalistas, do reestabelecimento de uma religião oficial do Estado, no caso a religião católica. Essa tentativa de restabelecer princípios de configuração religiosa em uma constituição que já se consolidou como sendo de teor mais liberal e secular é bastante problemática.

Como acreditamos haver de fato uma relação intrínseca entre as conquistas políticas do ocidente e o cristianismo é necessário muita cautela e atenção no trato com tais questões, pois afirmar o caráter saudável do influxo cristão sobre as leis não equivale a presumir que a lei deva se subordinar aos dogmas impostos por uma dada religião A proposta de uma supremacia religiosa oficial na forma de um Estado Católico tem sido apregoada por distintos teólogos e professores adeptos uma distinta filosofia (tomismo), mas tal proposta não nos parece fazer jus ao desenvolvimento das ideias dentro da própria Igreja. O Estado Laico foi gestado e elaborado a partir de matrizes cristãs em um momento em que já não fazia sentido insistir em uma religião oficial; a separação entre Estado e Igreja encontrou seus precursores no próprio pensamento católico, tendo sido um progresso dentro da história do cristianismo e, consequentemente, do ocidente. Poderíamos citar Gulherme de Ockham, filósofo e teólogo que dedicou boa parte do seu exercício intelectual a combater a teocracia papal, poderíamos citar Santo Agostinho com a sua distinção entre Cidade de Deus e Cidade dos homens, poderíamos citar inúmeros outros filósofos e teólogos cujas reflexões apontam justamente para o contrário de uma ordem política concebida em moldes religiosos e dogmáticos. Poderíamos citar muitos e até o próprio São Tomás de Aquino cujo pensamento tem sido injustificadamente instrumentalizado por esses grupos fanáticos e extremistas, pois não é fato que o tomismo possa legitimamente prestar-se a isso. Poderíamos citar muitos, mas citaremos apenas as imortais palavras do próprio Cristo ao afirmar “Meu reino não é desse mundo” ou ainda “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. (continua na segunda parte)

Gostou do texto? Ajude o Instituto Liberal no Patreon!
Leia também:  Por que a esquerda ainda não perdeu