Ciro Gomes: falso patriota, verdadeiro vendido

Aquilo que Gustavo Corção chamava de “patriotismo” (e Roberto Campos de “nacionalismo de fins”) não pode ser confundido com o que o próprio Corção chamava de “nacionalismo” (e Campos alcunhava “nacionalismo de meios”). Esta é, no entanto, uma confusão recorrente no Brasil, desde Getúlio Vargas. Associando a experiência de pertencimento e apreço pela pátria a […]

Aquilo que Gustavo Corção chamava de “patriotismo” (e Roberto Campos de “nacionalismo de fins”) não pode ser confundido com o que o próprio Corção chamava de “nacionalismo” (e Campos alcunhava “nacionalismo de meios”). Esta é, no entanto, uma confusão recorrente no Brasil, desde Getúlio Vargas. Associando a experiência de pertencimento e apreço pela pátria a uma devoção irracional pelos “minerais” e pela sua exploração mediante a burocracia estatal, muitos de nossa gente se tornam presas fáceis de demagogos que se dizem os legítimos defensores das potencialidades da nação contra os traidores “entreguistas”, vendidos ao “imperialismo americano”, dispostos a retirar de “nosso controle” todos os nossos bens.

Tais demagogos, não raramente, são, eles próprios, não apenas os maiores falsos patriotas, como também os verdadeiros vendidos. Foi o que demonstrou, se alguém ainda precisava de mais alguma evidência, o pedetista Ciro Gomes, aventado como possível esperança das esquerdas na disputa eleitoral de 2018, em discurso que fez em evento tão emblemático quanto repulsivo: a inauguração do Memorial Luiz Carlos Prestes, em Porto Alegre, que fizemos questão de denunciar em artigo anterior. Em uma tentativa de recapturar a atenção do grosso do povo e não enfatizar tanto as pautas mais próprias à esquerda “pós-moderna desconstrucionista lacradora”, preferindo regressar um tanto ao “Petróleo é nosso”, ao perceber que o outro discurso sofre uma reação no Brasil e no mundo, Ciro Gomes quer agora posar de grande brasileiro, apaixonado por seu país.

O que Ciro Gomes não entende é que o verdadeiro patriotismo não está em querer preservar, nas mãos da máquina estatal e das castas políticas, o controle de empreendimentos vultosos, cujos prejuízos são repartidos com a população. A aposta no mercado e na iniciativa privada não equivale e nunca equivaleu ao desprezo pela nacionalidade, na medida em que justamente conduz a nacionalidade, através de sua constituição fundamental – os indivíduos que a compõem, por óbvio – a mais riqueza e mais prosperidade. Só neomercantilistas paralisados no passado pensariam o contrário. Uma nação não se resume ao seu Estado; é muito mais que isso. É a esfera cultural, simbólica, civilizacional, de valores da sua sociedade. É tudo o que o comunismo, esse sim, não respeita. Que dizer do senhor Ciro Gomes, prestando homenagens a um comunista assassino?

Diz ele em seu discurso: “A sociedade gaúcha se afirma para a admiração de quem ama o Brasil e conhece a sua história. O que fazem as sociedades sadias civicamente? Elas homenageiam os seus do passado. Elas homenageiam seus ancestrais. Elas consolidam ícones, memórias, para guardar a lembrança, imortalizar o exemplo dos seus maiores. E é o que estamos fazendo hoje, em tempos tão trágicos como os que estamos vivendo. (…) O que vocês estão fazendo é imortalizar a memória de um brasileiro absolutamente extraordinário. (…)”. Enaltece a coragem de Prestes ao se lançar pelo país, arriscando a carreira de tenente, saindo do comodismo, para batalhar no Tenentismo por uma alternativa, ainda sem ser comunista. Segundo Gomes, ele foi “aprendendo a ser” comunista “vendo inclusive que nas áreas mais miseráveis, a que ele mais devotadamente dedicava seu entusiasmo, o risco da sua vida, foi onde encontrou a mais encarniçada resistência reacionária, manipulada pelo terror, pela mistificação, pela propaganda. Olha como muda pouco o Brasil”, ressaltou. “Estamos reunidos aqui, enquanto a maioria simplesmente se aquieta em casa assistindo ao vilipêndio e à venda pura e simples do futuro da pátria brasileira”. Saudou então a petista Maria do Rosário, orgulhou-se de caminhar ao lado de pessoas como Lula (sim, exatamente!) e frisou que, apesar das diferenças (até parece!), eles estarão sempre juntos no “debate fraterno” para que “eles” (os inimigos, a direita, o PMDB, o Donald Trump, o Satanás, seja lá o que for, qualquer um que ache que a Petrobras deveria ser privatizada) não triunfem. Luiz Carlos Prestes, para ele, faz falta, pelo seu exemplo de “patriotismo”, de “inquietude”, de inconformidade com as “mazelas e desigualdades”. Termina, é claro, se referindo a Temer, sem usar seu nome, como o “vagabundo golpista” que roubou o Brasil e perguntando ao jovem brasileiro o que fará para ser amanhã “lembrado como Prestes”.

Comecemos pelo final dessa brilhante peça de venenosa oratória. Nada faremos, Ciro Gomes. Não queremos ser lembrados no futuro como Luiz Carlos Prestes. Não queremos ser lembrados como o Cavaleiro da (Des)Esperança que, no limiar dos dramas do século XX, ficaria ao lado do Komintern e da União Soviética, traindo a sua pátria, em nome de uma ideologia fanática e sangrenta que despreza as sensibilidades e as bases mais primordiais da nossa civilização. Não queremos ser lembrados como o assassino da jovem Elza Fernandes. Fosse quem fosse e como fosse esta jovem senhorita sobre quem pouco sabemos e que, aos dezesseis anos, foi executada em nome da maravilhosa “Revolução” de Prestes, ela certamente faz mais falta que ele próprio. Como fazem mais falta ao mundo os milhões de mortos pelo comunismo que as dezenas de ditadores e lunáticos que perpetraram a nefasta trama vermelha sobre a face planetária.

Decerto que concordamos em que uma sociedade civilizada homenageia seus heróis e ícones, cultiva os valores dos exemplos. E nós os temos. Temos a sábia antevisão de um Bonifácio, a bravura de um Pedro I e uma Maria Quitéria, a generosidade e sensibilidade ímpares de um Nabuco, o ardor pelo saber de um Pedro II, a eloquência de um Rui Barbosa, a solidariedade de uma Isabel, a lucidez de um Roberto Campos, o vigor combativo de um Lacerda, o espírito realizador de um Mauá, o pioneirismo de um Donald Stewart Jr. Não precisamos das armas de Prestes, a desfraldar a bandeira da tirania.

Fala Ciro Gomes que Prestes foi desafiado por uma encarniçada “resistência reacionária” no seio dos miseráveis, manipulados pelo “terrorismo” e pela “propaganda”. Admitindo a expressão “reacionária” no pior dos sentidos, constatamos o quanto isso é ainda possível no Brasil diante do terrorismo perpetrado pelos governos petistas, dos quais Ciro não se envergonha, pretendendo ganhar o Planalto em 2014 à base da ameaça de que a vitória adversária seria o fim imediato do Bolsa Família.

Disposição e inquietude poderiam ser virtudes até em nazistas, pouco ou nada dizendo sobre o resultado das pregações de quem as experimentasse. De fato, Lula já expressou, em certa oportunidade, admiração pela disposição de Adolf Hitler em “ir lá e fazer o em que acreditava”. “Patriotismo”, esse não dá as caras, nem em Luiz Carlos Prestes, nem em Lula e Maria do Rosário. Que patriotismo é esse que submete o país ao projeto soviético, que suplanta as aspirações nacionais em prol das tramoias sub-reptícias do comando central stalinista, ou que, modernamente, constrange a dignidade diplomática nacional aos ditames da “Pátria Grande”, do delírio bolivariano, do Foro de São Paulo? Que patriotismo é o do próprio PDT de Ciro Gomes, flagrado recentemente em conversas estranhas com o Partido Comunista chinês, aquele mesmo que parece muito interessado em difundir pelo mundo as maravilhas do seu modelo autoritário e socialista?

Ciro Gomes nada sabe sobre o significado de patriotismo. O defensor da privatização não é o verdadeiro “entreguista”. O verdadeiro “entreguista” e “vendido” é aquele que comercializa a sua honra, a sua verdade, a sensibilidade geral de seu país, a projetos ideológicos estranhos à sua gente e às aspirações de seus fundadores. O Brasil de Prestes seria um “puxadinho” da União Soviética. Seu exemplo tem de ser lembrado, sim, apenas, e realmente apenas, para jamais ser repetido.

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