Brasil: o cemitério de boas ideias

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Estava rolando o Instagram quando me deparei com um perfil dedicado a mostrar, na prática, a tentativa de empreender no Brasil.

O perfil YuriClean é de um jovem do estado do Rio de Janeiro. Ele trabalhava numa empresa de higienização, foi demitido e decidiu que não queria mais ser CLT. Em vez de procurar outro emprego, resolveu competir com a antiga empresa.

Essa é a beleza de uma sociedade livre. Alguém com vontade, disposição e uma boa ideia deveria conseguir colocar um projeto em pé e enxergar uma chance de agregar valor à sociedade prestando um serviço pelo qual as pessoas queiram pagar.

Yuri fez tudo certo no que dependia dele. Comprou os equipamentos pela internet, mandou fazer uniforme e providenciou cartão de visitas. Mas o jovem sonhador se esqueceu de um detalhe: combinar com o Estado brasileiro.

Na primeira interação com as instituições, Yuri descobriu que nem tudo são flores. Ao ir ao órgão responsável pela abertura do MEI (Microempreendedor Individual), ouviu que o sistema não estava funcionando. Pode parecer um detalhe pequeno, mas é exatamente assim que a realidade empurra gente produtiva para o “jeitinho”.

Em certo momento do vídeo, o jovem de Volta Redonda conta que, para financiar o projeto, precisou entrar em contato com um agiota para conseguir continuar o sonho. No vídeo, ele disse que o empréstimo foi de R$ 5.000. Curioso, e sabendo como é a questão do crédito no Brasil, eu me perguntei quanto ele vai precisar pagar por ter tomado emprestado esse valor.

Entrei em contato com o Yuri. A resposta me chocou e provavelmente vai chocar vocês.

Nota: Yuri me autorizou a expor a conversa privada

No total, para começar seu sonho, o rapaz vai ter que desembolsar pouco mais de R$ 10 mil.

O caso do Yuri não é o ponto do texto. Não estou aqui para julgar o indivíduo nem para transformar uma história em estatística. O que importa é que ele representa milhares, talvez milhões de inventores, empreendedores ou pessoas com uma boa ideia que poderiam adicionar algo à sociedade brasileira, mas acabam morrendo antes mesmo de nascer.

No Brasil, ter uma boa ideia raramente é suficiente. Não basta batalhar e correr atrás. Muitas vezes, o que decide quem prospera é o acesso ao poder político. Em termos simples, o Estado brasileiro beneficia os amigos do rei.

Yuri, assim como a maioria dos micro e médios empreendedores, não tem acesso ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), não tem acesso a lobbying em Brasília e não tem “contato especial”.

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Isso significa que, ao contrário dos amigos do rei, essas pessoas não têm acesso a crédito subsidiado, isenção fiscal ou outros privilégios que o Estado oferece a empresários da Zona Franca de Manaus, do setor automobilístico ou do agronegócio. Por não terem acesso a esses privilégios, pessoas com boas ideias acabam tendo mais dificuldade de tirá-las do papel e concretizá-las. Isso significa menos inovações e, com menos inovações, crescimento menor.

A explicação mais confortável é colocar a culpa na “ganância” dos bancos ou numa “elite malvada”. Mas essa resposta ignora o principal. Juros são um preço, e preço é resultado de incentivos e instituições. Quando as regras do jogo aumentam risco e custos e quando reduzem concorrência, o preço do dinheiro sobe.

No Brasil, 40,9% do crédito é subsidiado por meio de bancos públicos ou programas que tentam desenvolver setores específicos da economia. O problema é que isso não cria crédito, apenas redistribui.

Quem tem acesso a essas linhas de crédito paga menos. Quem não tem fica com o crédito que sobra. Como o arranjo institucional cria escassez, o preço do dinheiro aumenta.

Outro motivo é a dívida pública elevada. Com essa dívida, o Estado vira um grande tomador de empréstimos e compete pela poupança disponível. Quando a demanda por dinheiro aumenta, o preço também aumenta.

Vale salientar que não é só o tamanho da dívida que importa, mas a sua trajetória. O ponto é a capacidade que o Estado terá de pagar a dívida conforme ela aumenta.

Para economistas:

Se a dívida cresce mais rápido do que a capacidade do Estado de pagar, a percepção de risco aumenta. Quando essa percepção aumenta, o preço para emprestar dinheiro sobe.

O setor bancário é altamente regulado. Essa regulação, feita pelo governo, funciona como barreira à entrada de novos competidores e também como proteção para os grandes bancos já estabelecidos.

Quando entrar no mercado exige custos fixos altos, como compliance, exigências, autorizações e capital regulatório, e quando o ambiente favorece poucos grandes players, o resultado tende a ser menos competição por clientes. Com menos competição, os spreads tendem a ser maiores.

Fintechs ajudam, mas não eliminam o problema estrutural quando as regras continuam favorecendo o modelo tradicional e penalizando uma concorrência mais plena.

O caso do Yuri é triste, mas não é exceção. É regra. É sintoma, não causa.

Em um país com essas instituições, o empreendedor comum acaba empurrado para a informalidade e, às vezes, para a agiotagem. Quando boas ideias morrem antes de nascer, o resultado é menos inovação, menos produtividade e menos crescimento.

O Brasil não precisa de mais discursos sobre “empreendedorismo”. Precisa de regras que não transformem o empreendedor em inimigo e em que os vencedores sejam escolhidos pela sociedade, não pela conexão política.

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Adriano Dorta

Adriano Dorta

É estudante de economia, com foco de pesquisa em escolha pública e economia política.

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