As trapalhadas de Jair Bolsonaro na articulação política

Independentemente se você é um apoiador ou não de Jair Bolsonaro, deve reconhecer que ele é um fenômeno de popularidade. Praticamente sozinho, de histórico membro do baixo-clero no Congresso, reduzido a mero ‘sindicalista dos militares” no parlamento, conseguiu ascender para outros nichos eleitorais: capitalizou para si o discurso da segurança pública e lidera as pesquisas presidenciais há poucos dias para o início da campanha. Contudo, a última semana foi de dificuldades para o presidenciável, com 2 episódios de rasteiras da RealPolitik em dias consecutivos.

O deputado dizia a todos que gostaria de ter como vice Magno Malta, senador do PR-ES. O “namoro”, como costuma dizer, não se firmou em casamento. A aliança seria fundamental em virtude do tempo de TV e dinheiro que agregaria. Todavia, outros partidos perceberam a ameaça que eleitoralmente isso poderia significar e agiram para neutralizar a coligação. Do outro lado, Waldemar da Costa Neto, presidente da sigla e velha raposa política, conseguiu assim se valorizar para negociar acordos melhores com outros partidos.

Acuado, o staff de Bolsonaro buscou então para ser vice a figura do general da reserva Augusto Heleno. O presidenciável chegou a confirmá-lo como vice de sua chapa ao Planalto, porém, embora fosse de desejo do general, seu partido, o PRP, rejeitou o convite. Em larga medida a decisão foi tomada em virtude da necessidade de o partido superar a cláusula de barreira, pois, caso contrário, deixará de existir ao longo da próxima legislatura. Mesmo liderando, Bolsonaro não conseguiu coligar com um partido que nem sequer possui representantes no parlamento, algo que expõe muito de sua fragilidade na articulação política.

Sem acordos de fora do PSL, o jeito passou a ser mirar para nomes internos, cogitando-se Janaína Paschoal. Ela já foi sondada para disputar diversos cargos nesta eleição, mas ainda titubeia sobre entrar na política partidária, e a definição sobre lançar-se como vice foi adiada. Vários nomes de fora da política, como Luciano Huck, Bernardinho Rezende, Joaquim Barbosa e José Luiz Datena estiveram na mesma situação que ela, mas declinaram.

Com efeito, vale dizer que Jair Bolsonaro continua tendo o mesmo suporte que o trouxe até aqui. O que houve foram movimentos para ir além disso, que mostraram-se infrutíferos.

Conforme pesquisa recente do Ibope, as redes sociais se tornaram o maior canal de influência para o eleitorado decidir em quem votar para a presidência. A despeito disso, ainda não se deve desprezar as outras plataformas – cujo cânone de coligações, tempo de TV e dinheiro sempre garantiram vitórias eleitorais desde a redemocratização.

A falta de dinheiro, exposição na TV e de estrutura partidária podem fragilizar – em alguma medida – a candidatura de Bolsonaro. Não significa que deixará de estar no 2º turno – o mérito do texto não é este. As lições que ficam, a quem teima não entender, é que não existe articulação política unilateral e que ninguém consegue coligar com partidos se projetando sobre eles. Da mesma forma, nenhum Chefe de Estado consegue governar se projetando em cima de Congresso sobretudo em um fragmentado como o nosso.

A irrelevância política histórica de Bolsonaro na Casa Legislativa, onde pouco apresentou emendas a projetos, jamais presidiu comissões e nunca foi escalado como relator de projetos de lei relevantes, tem sua razão de ser: ele nunca soube fazer articulação política – e isso nada tem a ver com honestidade, como alardeiam seus seguidores, mas com incompetência. Vale dizer que em geral isso foi bom, já que pautas corporativistas dos militares acabaram não prosperando. Porém, se isso nunca cobrou seu preço na Câmara dos Deputados, essa inabilidade pode, agora, custar-lhe a eleição.

 

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