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Algumas considerações sobre a guerra na Ucrânia

Tendo passado mais de uma semana do confronto, algumas considerações sobre a guerra.

O grande perdedor até o momento é a economia russa. No filme Eurotrip, há uma cena em que os jovens americanos se perdem no caminho até Berlim e acabam parando em Bratislava com pouco mais de dois dólares no bolso. Na próxima cena, eles aparecem em um hotel 5 estrelas, recebendo um tratamento vip. Se esse filme fosse regravado hoje, essa esquete se passaria em Moscou.

O rublo russo conseguiu a proeza de valer menos que o peso argentino (atualmente está 1 para 1,03). Por que isso ocorre? Entre as sanções econômicas está a retirada do Banco Central Russo do sistema financeiro internacional. Com isso, o BCR praticamente não tem margem para interferir no mercado de câmbio de maneira direta.

Sobra a maneira indireta: aumentando a taxa de juros. A russa anual era de 9%, mas, depois da retirada russa do mercado de capitais, eles tiveram que aumentar para 20%. Porém, não deu muito resultado e o rublo, nesse ritmo, daqui a pouco alcança o peso venezuelano.

As sanções e boicotes parecem não ter fim – são tantos que a Rússia está sofrendo que eu não consigo imaginar como a invasão à Ucrânia, ainda que bem sucedida, pode ser lucrativa. A Apple parou de vender seus telefones e está bloqueando o acesso russo à App Store. Gigantes da navegação e da logística (como a Maersk) não recebem e nem enviam mais seus navios para portos do país. Espaços aéreos estão fechados para aviões russos. Visa e Mastercard excluíram bancos. Até a Fifa retirou a Rússia da Copa do Mundo (nem a Coreia do Norte conseguiu essa façanha). Em outras palavras, o mundo isolou a Rússia de uma forma sem precedentes.

O campo militar não está indo bem. Acredito que todos vocês já viram vídeos de veículos russos abandonados ou capturados pelo inimigo. O motivo é simples: não há combustível. No sul (região da Crimeia), a invasão parou porque as tropas russas simplesmente não têm combustível para prosseguir. Há um comboio enorme seguindo para Kiev, mas estão imóveis a dias. Enquanto isso, os ucranianos se aproveitam da falta de planejamento logístico com seus drones não-tripulados bayraktars (presente da Turquia) que estão destruindo vários blindados. Tais aviões se tornaram tão populares que os ucranianos fizeram uma música em sua homenagem .

Enquanto isso, a moral da tropa russa está baixa. Eles acharam que seriam recebidos com festa – principalmente pelo fato de muitos russos étnicos habitarem a Ucrânia. Ora, não é assim que as coisas funcionam. Eu, por exemplo, sou uma mistura de italiano com português étnico e nem por isso aplaudiria uma invasão desses países ao Brasil. Eu provavelmente os receberia com os NLAW – equipamento antitanque que é um presente dos britânicos. Há inúmeros relatos de deserção, especialmente após o governo da Ucrânia oferecer 5 milhões de rublos para cada russo que entregar as armas.

No campo das relações-públicas, a situação é uma vitória esmagadora da Ucrânia. Até Zelensky conseguiu aproveitar o momento – antes da invasão, sua popularidade estava em 30%, agora passa dos 90%. Liderados pelo comediante, os ucranianos estão resistindo, conquistando a admiração do mundo inteiro e vencendo a guerra. Putin ainda pode conquistar toda a Ucrânia, mas, para vencer a guerra, os russos teriam que controlar o país, e eles só podem fazer isso se o povo ucraniano permitir e, ao que tudo indica, isso não vai acontecer.

Yuval Noah Harari escreveu que as nações são construídas sobre histórias e, a cada dia os ucranianos vão acrescentando mais em seu arsenal. Por gerações, eles contarão do presidente que se recusou a fugir da capital, dizendo aos EUA que precisa de munição, não de carona. Também entrarão nos relatos os soldados da Ilha das Cobras que mandaram um navio de guerra russo ir para aquele lugar, os civis que tentaram parar os tanques russos sentando-se em seu caminho e os ciganos do país que roubaram um tanque de guerra (essa última a mais incrível na minha opinião). Para Harari, este é o material de que as nações são construídas e, no longo prazo, essas histórias contam mais do que tanques. Eu não tenho a menor dúvida que o boicote global foi em grande medida alimentado por essas histórias de bravura.

Finalizo o texto ressaltando que Putin conseguiu a proeza de:

1 – Tirar a Suíça e a Suécia da zona de neutralidade.

2 – Reviver a expansão da OTAN, que estava parada há décadas (a Finlândia é a atual candidata).

3 – Derrubar o rublo para a mínima histórica.

4 – Isolar a Rússia.

5 – Acabar com o mito de grande poder bélico russo.

Como bem definiu Heni Ozi Cukier, “Ele pode ganhar a batalha, mas a guerra está perdida”.

*Artigo publicado originalmente por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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