A tecnologia da inocência
Há duas maneiras de atravessar um escândalo. A primeira é provar que não fez. A segunda, muito mais prática, é não saber de nada. Lula, a alma mais pura deste planeta, especializou-se na segunda.
Depois de mais de dezessete anos de governos petistas, a ignorância deixou de ser deficiência e tornou-se salvo-conduto. Lula sabe distribuir ministérios, escolher aliados, identificar inimigos, negociar cargos, aumentar impostos e explicar ao mundo aquilo que o mundo não lhe perguntou. Seu conhecimento é vasto. Termina exatamente na porta da responsabilidade.
A ética começa onde a desculpa termina. O petismo realizou a proeza inversa, transformando a desculpa num sistema de poder. A psicologia moral empresta dois nomes ao milagre. Max Bazerman e Ann Tenbrunsel chamam de cegueira motivada a tendência de não perceber uma conduta imprópria quando reconhecê-la ameaça nossos interesses. Ann Tenbrunsel e David Messick descrevem o apagamento ético, processo pelo qual o conteúdo moral desaparece e o problema reaparece fantasiado de questão política, administrativa ou eleitoral.
A cegueira motivada seleciona o que não deve ser visto. O apagamento ético esteriliza aquilo que já apareceu. Uma fecha os olhos, o outro lava o fato. Juntos, formam uma tecnologia de inocência.
Quando o mensalão terminou com figuras centrais do PT condenadas pelo Supremo, Lula declarou sentir-se traído por práticas das quais jamais tivera conhecimento. Era capaz de interpretar a alma do povo brasileiro, a fome dos pobres, a perversidade dos ricos e os destinos da humanidade. Só não sabia o que faziam os homens sentados ao seu lado.
Há uma geografia muito curiosa nessa ignorância. Os fatos acontecem sempre perto o suficiente para beneficiar o governo e longe o bastante para não alcançar o governante. No sítio de Atibaia, Lula conhecia o caminho, frequentava a propriedade com a família e havia pedalinhos com os nomes dos netos. Não sabia quem fizera as reformas, quanto custaram nem por que empreiteiras decidiram melhorar a cozinha alheia. A intimidade pertencia à família. As despesas eram metafísicas.
Diante das apurações envolvendo a lobista Roberta Luchsinger, afirmou nunca tê-la visto. Existem ao menos doze fotografias dos dois juntos, publicadas entre 2018 e 2023. Uma fotografia pode ser cortesia. Doze exigem fé e uma opinião bastante modesta sobre a inteligência dos brasileiros. As redes sociais mentem diariamente. O arquivo digital, porém, possui um defeito desagradável. Ele se lembra.
Na mesma sabatina, Lula foi questionado sobre a dívida pública federal, que já encosta em R$ 8 trilhões, enquanto a dívida bruta ultrapassa 80% do PIB. A resposta veio com a serenidade de quem comenta a temperatura da água: “A mim, não preocupa a dívida pública”. A evolução do método é admirável. Diante da corrupção, Lula não sabe. Diante da dívida, sabe e diz que não se preocupa.
A cegueira motivada protege do passado. O apagamento ético permite hipotecar o futuro. O endividamento deixa de significar juros, impostos, crédito caro e menos dinheiro para investir. Transforma-se numa porcentagem do PIB, dessas que cabem confortavelmente num gráfico e não perturbam o sono de ninguém no Palácio.
Dívida pública é imposto que ainda não disse seu nome. O governo gasta no presente, os juros fazem hora extra e a conta chega quando o autor da despesa já está escrevendo suas memórias.
É fácil conservar a serenidade diante de uma fatura que será, evidentemente, entregue aos outros.
O problema de Lula não é a falta de diploma universitário. Ausência de formação acadêmica não é pecado moral, assim como diploma nunca foi certificado de caráter. Algumas universidades demonstram isso com admirável regularidade. A Presidência não exige tese, exige responsabilidade. Nenhum governante sabe tudo. Governar consiste em saber aquilo que não se tem o direito de ignorar. Se Lula não sabia, fracassou. Se sabia, mentiu. Se preferiu não saber, transformou a ignorância em proteção moral. Em nenhuma das hipóteses aparece um estadista. Apenas a pretensão abissal de sê-lo.
A grande inovação do petismo não foi a corrupção, que desembarcou no Brasil muito antes dele. Foi sua arquitetura moral. O poder sobe e se concentra. A culpa desce e se dissolve. No topo, permanece o líder, eternamente surpreendido com o próprio governo e serenamente despreocupado com a conta que deixa. Não saber o absolve do passado. Não se preocupar o dispensa do futuro. O presente, naturalmente, fica reservado ao poder.
A tecnologia funciona. Lula fica com a inocência. O Brasil, em especial os mais pobres, com a fatura.



