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A praça e a torre ― como o STF deverá reeleger Bolsonaro

O STF deu mais um passo conciso rumo à tirania. Por ordem de Alexandre de Moraes, o Twitter bloqueou 17 contas de apoiadores de Bolsonaro. Entre eles encontram-se a ativista ex-feminista Sara Winter, o ex-deputado federal Roberto Jefferson, o jornalista Allan dos Santos e o youtuber Bernardo Küster.

Já abordei várias vezes, aqui mesmo no Instituto Liberal, o quanto esse processo é um absurdo moral, jurídico e social. O maior ataque à liberdade de expressão após a famigerada “redemocratização”. O processo das “Fake News” não tem nenhum par na realidade litúrgica da casa, nenhum respeito à constituição do país e demais regimentos jurídicos da nação. É, per se, um tribunal de exceção ― digo isso sem utilizar nenhum artificio retórico.

Na mesmíssima semana em que Toffoli proibiu a Polícia Federal de investigar e apreender documentos no gabinete de José Serra ― acusado de caixa 2 ― no Senado Federal, Alexandre de Moraes acaba tendo a sua decisão de censura acatada pelo Twitter. Essa composição de ministros do STF vai ser lembrada na história do país como aquela que voltou às práticas de censura no pós-Ditadura. 

Parece que a intenção é enfraquecer o Presidente da República e tentar instalar na psiquê comum dos indivíduos a estória de uma conspiração de tuiteiros querendo explodir o STF; no entanto, o STF vai acabar reelegendo Bolsonaro.

Estes juízes pensam ser os suprassumos da inteligência, acham que a população depende de suas diretrizes jurídicas, políticas e morais para interpretarem a realidade dos fatos. A eleição de Bolsonaro foi o recado dos brasileiros ao establishment: não aceitamos mais as suas pautas, e nem suas governanças, não confiamos em vocês.

Por trás de toda a patetice de Bolsonaro, está um outdoor gigantesco cravado pela população que diz: “Não confiamos no sistema! Bolsonaro se elegeu somente por um motivo: ele vendeu bem a ideia de ser antissistema e contrário à hegemonia politicamente correta que massifica os discursos, oprime os valores comuns dos indivíduos e engessa os debates em moldes progressistas pré-estabelecidos. Os brasileiros comuns ― aqueles que não têm tempo para gourmetizar suas ideias na Folha de São Paulo, nem referenciar seus valores em um doutorado na USP ―não confiam nesse sistema centralizado de normas morais pensadas por homens e mulheres que se arvoram a constituintes da verdade.

Para tristeza geral dos donos do poder, boa parte dos brasileiros encontraram em Bolsonaro ― um “deputadozinho do baixo clero” ― a britadeira política necessária para romper essa pedra tumular chamada estrutura de poder”, “sistema”, “establishment”, etc.

Bolsonaro mostra uma caixa de cloroquina a uma ema em forma de gozação, anda de moto em pleno isolamento social, vai domingo à padaria comer coxinha, oferece café ao Conselheiro Americano de Segurança em uma caneca de desenho animado de sua filha, fala palavrão e odeia a Globo. Bolsonaro age como “dá na cabeça” e por isso se aproxima cada vez mais do “populacho”. Poderia continuar dando exemplos do modo pitoresco que o presidente deliberadamente adota, no entanto agora com uma linguagem mais filosófica o que estou afirmando é que o presidente Jair Bolsonaro, para o bem ou para o mal, encarna o ethos do homem comum brasileiro.

Não é à toa que aparece como favorito para ganhar a próxima corrida presidencial em todos os cenários pesquisados pelo Instituto Paraná Pesquisas, e isso não é nada absurdo ou inimaginável, não é um efeito artificial criado por empresários que pagam robôs para tuitarem, ou por causa dos links de blogs religiosos mandados por tias de 70 anos naqueles grupos de família que ninguém olha.

O cidadão médio tende a abraçar a agenda política de Bolsonaro porque o presidente parece agir como o próprio referido cidadão age, defende as ideias que ele mesmo naturalmente defende. Podemos chamar isso de populismo, articular estudos sociológicos referenciadíssimos ligando as atitudes de Bolsonaro às atitudes dos fascistas italianos, aos nazismos imaginários de sabe-se lá de onde; mas o fato que poucos parecem querer assumir nos círculos analíticos é que a “chucrice” de Bolsonaro é o combustível de sua aceitação popular – e pior, parece natural mesmo. Essa é a chave para entender a distância moral entre togas, vinhos e lagostas de um milhão, e a coxinha, pastel de feira e café no copo americano.

Os indivíduos se cansaram das poses de estadista que escondem uma postura larápia; da linguagem cuidadosa daqueles que são politicamente corretos na Câmara, porém vadios em seus gabinetes; que falam latim na corte, e depois roubam como marginais as liberdades de crítica de terceiros. Bolsonaro é chucro sim, e verdadeiramente soa inapto para o costumeiro rito presidencial; no entanto, no Brasil recente, todos aqueles que rezavam a cerimônia estatal tal como estava no missal da tradição apostólica do establishment, cedo ou tarde se mostraram deliberadamente cegos à corrupção que desmanchava a alma da democracia brasileira. Tudo isso é ― ou foi ― assim independentemente da minha ou sua apreciação.

O STF tenta a todo custo deslegitimar o sucesso popular do presidente por medo de perder sua grande parcela no controle estatal. Os brasileiros comuns, desde as manifestações do “Fora, Dilma”, parecem querer tomar de fato as rédeas do trotar da nação; o homem comum, ecoando suas vontades através dos salões do poder, não é justamente isso que denominamos de democracia?

Muitas vezes, as maiores mudanças na história são os feitos de grupos de pessoas organizados de maneira informal e com pouca documentação” (FERGUSON, 2018, p. 12).

Ora, vamos lá: tentar imputar a popularidade de Bolsonaro aos tuites retóricos de robôs pagos por empresários malvadões... por favor, vocês estão se escutando? Vamos trazer o debate para a realidade. Tem gente que acredita que Bolsonaro está criando misteriosamente, em algum calabouço de Brasília, uma rede de neonazistas que irá ― em um amanhã eterno começar uma limpeza social de negros, gays e mulheres para! Disso para acreditar em terra plana ou que os “illuminatis” jantam fetos antes de dormir, não há nenhuma diferença substancial no grau de tolice. O homem comum não é burro e nem mesquinho, ele dispensa as papinhas intelectuais dos inteligentinhos.

Dizia Naill Ferguson:

O segredo do sucesso totalitário é, em outras palavras, deslegitimar, paralisar ou matar de uma vez quase todas as redes sociais fora das hierarquias institucionais do partido e do Estado, especialmente redes que aspiravam à ação política independente. (FERGUSON, 2018, p. 261)

A Naill Ferguson, se dissesse isso aqui no Brasil, provavelmente já teriam lhe encaixado na trupe dos bolsominions, diriam que você estaria a “passar pano” para o governo.

Ah, sim, mas antes que eu me esqueça, expliquemos como nasce um bolsominion.

Na cabeça do seu Sebastião (ou simplesmente “Tião” para os íntimos), o STF é o sistema que quer afogar os seus valores e costumes, o lugar onde os poderosos brincam de teorizar como os homens comuns devem viver, sem saber, no entanto, como é ser um homem comum. A eterna luta entre a praça e a torre. Hoje, quando o STF atua, o homem comum cospe no chão com desprezo. Isso deveria ensinar alguma coisa ao juízes da corte, mas eles preferem debater com o Felipe Neto e não com a realidade

O Tião lê nos jornais, quase toda semana, que o Gilmar Mendes soltou mais alguns bandidos, que Dias Toffoli encobriu com suas asas supremas mais alguns possíveis corruptos investigados ― inclusive Flávio Bolsonaro ―, que Barroso quer difundir as baboseiras de gênero, normalizar o crime do aborto, tudo isso enquanto apoia a censura do careca. Tião vê tudo isso, ao mesmo tempo em que percebe que Bolsonaro defende aqueles valores e ideias que ele mesmo defende nas conversas da fila do caixa no Pão de Açúcar; Bolsonaro fala de certos princípios civilizacionais, numa reunião ministerial, tal como o Tião fala, só que no boteco do seu Zé. Pronto, os valores do Tião e do presidente deram match; Tião agora apoiará politicamente este governo e, por isso, para a galera inteligentinha, ele se tornou mais um bolsominion que quer queimar gays, espancar mulheres e matar negros.

Este vem sendo o tom desde quando Bolsonaro ia ao Superpop ou era tratado como “meme” no Facebook. Isso está acontecendo agora, mas os sociólogos estão preocupados em alimentar as teorias do ascendente nazismo imaginário do bolsonarismo, ao invés de ler a realidade tal como ela é. Não estou dizendo que tudo isso seja bom ou ruim, estou apenas dizendo que é assim que está acontecendo. Cada vez que se comprova a crescente popularidade de Bolsonaro, a notícia vem acompanhada de uma tremenda cara de bunda dos espantados agentes do establishment.

Por fim, a torre insiste em se afastar da praça. Quanto mais se aprofundarem a atitude de censura e as injustas críticas contra os apoiadores de Bolsonaro, mais o presidente se fortalecerá, pois a sua narrativa antissistema será materializada na realidade e seus apoiadores terão provas daquilo que os jornais insistem em chamar de “conspiração”. O STF está reelegendo Bolsonaro a cada dia.

Referência:

FERGUSON, Naill. A praça e a torre: redes hierárquicas e a luta pelo poder global. Planeta: São Paulo, 2018.

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, ensaísta do Jornal Gazeta do Povo e editor na LVM Editora.