A chapa Bolsonaro-Mourão: como pegar o touro à unha

“É por isso que estudamos tanto no Exército”. (General Hamilton Mourão)

Quem teve, como eu, a alegria de ler a monumental obra de Érico Veríssimo, O Tempo e o Vento – sete volumes somando mais de duas mil páginas que nos deixam, ao final, uma vontade de quero mais -, certamente se impressionou com um dos debates durante a saga da família Cambará. Aquele que falava de um romancista que dá voltas e voltas e jamais escreve o seu romance. Eis um dos enfoques:

— Presta bem atenção. Suponhamos que a vida seja um touro que todos temos de enfrentar. Como procederia, por exemplo, o teu avô Licurgo Cambará, homem prático e despido de fantasia? Montaria a cavalo e, com auxílio de um peão, simplesmente trataria de laçar o animal. Agora, qual é a atitude de seu neto Floriano Cambará? Tu saltas para a frente do touro com uma capa vermelha e começas a provocá-lo. De vez em quando fincas no lombo do bicho umas farpas coloridas… Mas quando o touro investe, tu te atemorizas, foges, trepas na cerca e de lá continuas a manejar a capa, para dar aos outros e a ti mesmo a impressão de ainda estar na luta… É uma atitude um tanto esquizofrênica, com grande conteúdo de fantasia. Certo? Bom. Toma agora o teu tio Toríbio… Qual seria a atitude dele?

— Pegaria o touro à unha.

Sempre que me lembro dessa passagem me vem à mente a comparação do Floriano Cambará com os liberais. Por nossas próprias características filosóficas e políticas, ficamos sempre rodeando o touro – aqui, nesta alegoria, o poder. De vez em quando fincamos no lombo do touro umas farpas coloridas… provocamos, avançamos e recuamos. E ficamos ao largo  agitando a capa na ilusão de que estamos na arena lutando. Será que chegou o momento de pegar o touro à unha… e não percebemos?

Seriam os liberais capazes de se aliar aos conservadores para, estrategicamente, chegar ao poder de forma consistente e orgânica? Seriam os liberais capazes de absorver a sabedoria preventiva dos conservadores? Poderiam estes ter abandonado de vez seus pendores pelo estatismo e protecionismo? Acrescento ao rol de indagações uma última: haveria hoje tanta diferença ainda entre liberais e conservadores? Se até Roger Scruton vê em Hayek um conservador, não podemos enxergar num militar um verdadeiro liberal?

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Entrevista histórica

A presença do general Hamilton Mourão, vice na chapa de Jair Bolsonaro, em sabatina no jornal da manhã da Jovem Pan, neste mês de setembro, respondeu um pouco às minhas questões. Segundo o militar, “Bolsonaro acredita que o melhor para o Brasil seja a democracia liberal. Não é mais estatizante. Já mudou essa maneira de pensar, tanto que se o Paulo Guedes tiver de sair um dia, será chamado outro economista que pense igual a ele.  Bolsonaro raciocina como eu, que sou extremamente liberal nessa questão econômica. Não concordo com a intervenção do Estado na economia da forma como vinha sendo feito. Bolsonaro também já está entendendo dessa forma, sabendo que se o Estado começa a intervir na economia e a gerir empresas, acaba por desorganizar tudo. A situação como a que estamos vivendo hoje”.

Por sua vez, o socialdemocrata Marco Antônio Villa, ferrenho defensor do intervencionismo estatal no mercado (que ele confessa desconhecer completamente por “se tratar de uma mera abstração”), quis saber se o general estava, dessa forma, negando a política estatizante do regime militar que “fez a economia crescer de forma nunca vista antes”. Mourão, então, lembrou que dois liberais  atuaram no início do regime – Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões -, mas que depois ele descambou para as estatizações. “Mais tarde veio a desorganização e o país até hoje não se recuperou dos sucessivos intervencionismos”.

O general deu uma aula, mostrando aos perguntadores que não se poderia comparar – como fizeram – um Brasil de características de sociedade de massas e de dimensões continentais com países como, por exemplo, a Holanda. E explicou algo que chega perto da evolução espontânea propugnada por Hayek: disse que, na questão dos costumes, “a sociedade vai aos poucos resolver o que deseja. Não cabe aos governantes ficarem impondo ou propondo mudanças na tradição e na moral”. Show!!

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Por fim, Villa indagou se as declarações do general estavam rompendo uma tradição histórica do pensamento nos meios militares, de um positivismo que induziria a uma modernização capitaneada pelo Estado. Resposta de Hamilton Mourão: “Sim, completamente. Não podemos nos esquecer de que o regime militar iniciado em 1964 foi conduzido pelos tenentes de 1922. O que houve foi um processo. As novas gerações já foram formadas com uma nova maneira de pensar. É por isso que a gente estuda tanto no Exército”, concluiu.

Que mudança! Se você compara com o que é detalhado, por exemplo, na tese A Ideologia e a Ética no Exército Brasileiro, do coronel Fernando Velôzo Gomes Pedrosa, publicada em novembro de 2012, segundo a qual o anticomunismo era a predominância no pensamento militar, percebe a evolução que houve. É uma transformação histórica. O liberalismo se juntou ao conservadorismo na ideologia militar. O general Mourão fez questão de ressaltar que ele e Bolsonaro abraçaram solidamente a democracia liberal, mas foi mais longe. Disse que prevalece essa filosofia política nos meios militares de hoje.

A voz dos militares na maior democracia liberal do planeta

“Considerando a histórica influência dos militares americanos sobre os governos civis, no que concerne à guerra e à paz, torna-se crucial conhecer o perfil político e psicológico desses generais, para quem quer desenhar um cenário mais ou menos preciso do que vem pela frente”. Essa é uma das deduções a que chegou matéria publicada pela revista Exame em fevereiro deste ano. Analisando o livro The Pentagon’s Wars: The Military’s Undeclared War Against America’s Presidents, de Mark Perry (ainda sem tradução no Brasil), a revista ressalta as evidências que garantem: nas últimas três décadas, foi significativa e decisiva a influência do Pentágono nas decisões dos governos civis americanos.

No governo Trump, a geração de riquezas não se detém. E os militares ocupam várias das principais posições estratégicas, dentro e fora do setor de Defesa. Quer vaticinar sobre o futuro do país? Pesquise sobre as tendências psicológicas, políticas e filosóficas dos generais.

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Mas essa constatação é ainda mais gritante quando nos lembramos de que a maioria dos presidentes daquela nação seguiu carreira militar. General George Washington, general Eisenhower, brigadeiro-general Andrew Johnson, coronel Thomas Jefferson, coronel James Madison (o chamado pai da constituição americana), capitão de fragata Richard Nixon… e por aí em diante. Ora, desde que os Whigs atravessaram o oceano para fundar uma nação, sua Constituição e sociedade com o caldo cultural profundamente liberal construíram o mais empreendedor e próspero país de todos os tempos. Fácil entender porque atraiu para si também os invejosos e inimigos sempre ameaçadores. Para se defender, se conformou num Estado guerreiro. As armas são amigas e, os militares, heróis.

Bem diferente do que ocorre no Brasil, para deleite dos socialistas e do crime organizado. Aqui, uma aberração política como Ciro Gomes propugna, ao contrário, o amordaçamento e a segregação dos militares. Perpetuar um preconceito que a esquerda soube, com maestria, disseminar ao longo das últimas três décadas.

Neste novo cenário, entretanto, todos podem contribuir. Sejam civis ou militares, os liberais podem ajudar os conservadores a aceitarem a evolução espontânea da sociedade (jamais um “progressismo” imposto). Os conservadores podem auxiliar os liberais diante das tentações das novidades não espontâneas.  Aliás, nada poderia agradar mais aos socialdemocratas e aos socialistas do que a desunião entre liberais e conservadores. As diferenças entre nós têm de ser bem menores que a vontade de reconstruir o Brasil.

É hora de montar no cavalo, ajeitar o laço e pegar esse touro. Ou melhor, dentro das regras democráticas e do Estado de Direito, vamos pegá-lo, desta vez, nem que seja à unha!

Sobre o autor: Claudir Franciatto é jornalista e escritor.

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