Política climática rouba dos pobres suas esperanças

Por Roger Pielke e Daniel Sarewitz* Publicado originalmente no Financial Times Tendo falhado em conter as emissões de carbono nos países ricos ou em rápida industrialização, os legisladores (policy makers) concentraram suas atenções sobre o único alvo restante: países pobres que emitem pouco CO2. A Legislação que visava conter as emissões de carbono nos EUA […]

Por Roger Pielke e Daniel Sarewitz*

Publicado originalmente no Financial Times

Tendo falhado em conter as emissões de carbono nos países ricos ou em rápida industrialização, os legisladores (policy makers) concentraram suas atenções sobre o único alvo restante: países pobres que emitem pouco CO2.

A Legislação que visava conter as emissões de carbono nos EUA foi derrotada no Congresso daquele país em 2009. Mas isso não impediu que a administração Obama limitasse o suporte para projetos de energia que envolvem combustíveis fósseis no exterior, principalmente os financiados pela Private Investment Corporation, uma agência federal que financia o desenvolvimento no exterior. Outras instituições do mundo rico também decidiram limitar o apoio a projetos de energia envolvendo combustível fóssil, entre as quais o Banco Mundial e o Banco Europeu de Investimento.

Tais decisões têm consequências dolorosas. Um relatório recente do Centro Sem Fins Lucrativos para o Desenvolvimento Global estima que US$ 10 bilhões investidos em projetos de energia renovável na África sub-Saariana  poderiam fornecer eletricidade para 30 milhões de pessoas. Entretanto, se o mesmo volume de recursos fosse usado na geração de gás, poderia fornecer energia para cerca de 90 milhões de pessoas – três vezes mais.

Na Nigéria, um programa de desenvolvimento das Nações Unidas está gastando US$ 10 milhões para ajudar a “melhorar a eficiência energética de uma série de equipamentos de uso final em edifícios residenciais e públicos”. Como forma de retirar pessoas da pobreza, isso é no mínimo fantasioso. A Nigéria é o sexto maior produtor de óleo do mundo, além de contar com vastas reservas de gás natural. Apesar disso, nada menos que 80 milhões de habitantes ainda não têm acesso à eletricidade.  Portanto, os nigerianos não precisam simplesmente que seus equipamentos elétricos sejam mais eficientes; Eles precisam do suprimento de energia abundante, especialmente derivada de fontes locais.

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Considere agora o Paquistão, uma nação em rápido desenvolvimento, com 180 milhões de habitantes, onde a escassez de energia conduziria fatalmente à agitação civil, assim como à destruição desenfreada de florestas, principalmente para o consumo de lenha para cozinhar e aquecer. Apesar disso, agências de desenvolvimento ocidental recusaram-se recentemente a financiar um projeto paquistanês visando à utilização de carvão para a produção de gás natural de baixo teor de carbono e geração de eletricidade, por conta de preocupações com as emissões de CO2.

Enquanto isso, a meio mundo de distância, a rica Alemanha planeja construir 10 novas usinas a carvão durante os próximos dois anos. Estes exemplos emergem de uma cultura nefasta, porém predominante nos meios políticos: a suposição amplamente compartilhada de que nações pobres não precisam aspirar ao tipo de consumo de energia visto na América do Norte, na Europa Ocidental e n’outras regiões ricas.

Por exemplo, o plano de ação energética do Banco Mundial para um país pobre como o Chad falha ao não prever que os residentes daquele país eventualmente podem ter aspirações energéticas maiores que, digamos, um décimo do consumo de energia de uma nação de renda média, como a Bulgária.  Se duas lâmpadas, um ventilador e um rádio são o objetivo – medida padrão de “acesso de energia” utilizado pelas Nações Unidas – então um par de painéis solares ou moinhos de vento poderia fazer o trabalho e abastecer uma residência. Mas para que os países pobres tenham alguma chance de prosperidade, eles precisarão de acesso à energia nas mesmas escalas das economias avançadas.

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Os ativistas do clima dizem que os habitantes dos países pobres são especialmente vulneráveis ao futuro das mudanças climáticas. Por que, então, simultaneamente, promovem o imperialismo verde que ajuda a bloquear na pobreza estas mesmas nações?

Se, nas próximas décadas, a África alcançasse o crescimento econômico rápido, do tipo que a  China tem experimentado, isso tiraria centenas de milhões de pessoas da pobreza. Mas como o mundo rico pode atestar, crescimento econômico requer consumo de energia em doses sempre crescentes – e em grande parte fornecida por combustíveis fósseis.  Somente no ano passado, 1,4 bilhão de chineses foram responsáveis pela emissão de mais de 10 bilhões de toneladas de CO2, enquanto 1 bilhão de pessoas, em todo o continente africano, emitiram apenas um décimo disso. A População africana poderá exceder a da China dentro de uma década, chegando ao dobro em meados do século. Portanto, as perspectivas desses bilhões de pessoas dependem, em grande medida, do crescimento da sua produção de energia e consumo.

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Se quisermos reduzir as emissões sem condenar vastas áreas da humanidade à pobreza eterna, teremos de desenvolver tecnologias de energia de baixo custo e baixo teor de carbono que sejam apropriadas tanto aos EUA quanto à Bulgária, Nigéria ou Paquistão. Mas isto implicará sacrifício; exigirá investimentos de recursos significativos ao longo de muitas décadas.

Até que estas tecnologias sejam trazidas à fruição, devemos trabalhar com o que temos. No mundo rico escolhemos crescimento econômico. É cruelmente hipócrita que nós tentemos impedir que os países pobres cresçam também. Se formos realmente forçados a nos adaptar a um planeta com clima menos hospitaleiro, os pobres, no mínimo, devem enfrentar o desafio com as mesmas vantagens de que hoje dispõem os ricos.

(*) Os autores são, respectivamente, catedráticos da Universidade de Colorado e Arizona State University

tradução e adaptação: João Luiz Mauad

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