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Outras histórias não – ou mal – contadas

Confesso que estou para além de cansado. É tarefa herculana acreditar que políticos, jornalistas, muitos juristas e, inclusive, professores de negócios (evidente que há exceções) estejam todos extremamente comovidos e prontos para encherem a boca, a fim de verbalizarem e enfatizarem que, em se salvando uma única vida, todas as ações estatais autoritárias e paralisantes da economia terão valido a pena.

De forma muito humana e pragmática, acho equivocado e triste esse pensamento dito “humanitário”. Evidente que toda vida humana deve ser radicalmente preservada! No entanto, essa mesma vida é inseparável no tempo, em suas dimensões umbilicais: a saúde, o social e o econômico. Essa é a vida real; com a apreensão presente da escassez de recursos e a premente necessidade de escolhas e de compensações.

A vida é mesmo maior do que a exclusiva preocupação com o coronavírus que, aliás, de enfrentamento científico, tem muito pouco de ciência factual. Definitivamente, não existem estudos conclusivos sobre o “novo” coronavírus e, diga-se o que se disser, a grande maioria das mortes virais tem ocorrido no grupo de risco dos idosos, indivíduos que já apresentavam outras comorbidades. Não se trata de aprazer-se com a “morte dos velhinhos”, longe disso! Na verdade, o pânico exagerado vem fazendo com que os idosos, detentores de outros problemas de saúde, tais como câncer, por exemplo, tenham temor de ir aos hospitais para a realização de quimioterapia. O medo de infecção viral certamente que inibe o devido tratamento de doenças graves como essa, podendo e devendo estar ocasionando óbitos…

O fundamental para mim é que a vida também é constituída de dilemas e de trocas compensatórias e, desse modo, penso que decisões visando ao bem comum e ao todo social deveriam focar naquilo que traz as melhores consequências para o conjunto da sociedade.

Lamentavelmente, a paralisação da economia brasileira – um país de renda-média baixa (!) – por dois meses até o momento custará muito mais vidas do que aquelas pelo próprio Covid-19. Não há a aludida separação entre vidas, saúde e economia. A devastação econômica, considerando-se o fechamento e/ou redução do tamanho das empresas e, especialmente, o abissal desemprego, aliado às mortes por doenças psicológicas e psicossomáticas, tem destino certo: o desastre econômico nacional, com repercussões nocivas de curto, médio e de longo prazos. Penso que não emergiremos de uma vindoura depressão em menos de aproximadamente uma década.

Tenho reiterado, a economia brasileira não aguenta tanto tempo paralisada. De fato, março/20 registrou infeliz recorde na produção industrial: -9,1%; abril será pior! Uma vida eventualmente salva pelo isolamento social drástico (o que ainda não é totalmente comprovado!) terá reverberações ignoradas agora para uma série de vidas humanas futuras!

Infelizmente, por crenças e por questões politicas e interesseiras, governantes teimam em desconhecer tal realidade das trocas compensatórias. Aspirantes a ditadores têm tutelado a liberdade individual, promulgando regras esdrúxulas e desuniformes, sob o pretexto de “salvar vidas”. Grave e temerário! Por que pode haver aglomerações em mercados (ditos “essenciais”) e não em um comércio “adaptado, controlado e higiênico”, em bares e em restaurantes, em que proprietários preocupam-se com suas próprias vidas, e de seus funcionários e de seus clientes?!

A “piada do dia” é a proibição de entrega de comida a partir de restaurantes de shoppings! Cadê a lógica?! Deplorável! Bem, a paralisação é defendida e estimulada arduamente pelo partido da mídia, esse focado exclusivamente na saúde física dos irmãos brasileiros.

Histórias trágicas e emocionantes são poeticamente contadas em tom fúnebre nos telejornais diários, exibindo relatos dramáticos, corpos transportados e covas abertas em função do Covid-19. Sim, é importante informar e alertar correta e eticamente, tanto sobre as mortes, como também sobre o potencial contágio e as formas de evitação da doença. Porém, parece-me também crucial contar “outras histórias”, mostrando o outro lado da moeda…

Histórias essas de homens e de mulheres que, ao longo de gerações, vêm gerando empregos, renda e prosperidade econômica e social, com seu suor e seu trabalho diário para sobreviverem a um ambiente de negócios brasileiro, via de regra, hostil aos empreendedores. Muitas micro, pequenas, médias e até grandes empresas estão quebrando e despedaçando o sonho engrandecedor e visionário de um fundador genuinamente humanitário, gerador de empregos e o sustentáculo de vidas humanas.

Muitas micro e pequenas empresas operam com margens reduzidas, sem qualquer fôlego para suportar uma paralisação dessas proporções. Outras pequenas e médias organizações colaboram em grandes ecossistemas de negócios, e, infelizmente, muitas delas estão desaparecendo do mapa.

Lamentável, mas falta para esses políticos de carreira, e demais legiões de “humanitários” de plantão, o conhecimento do funcionamento real das economias. Essas não são ligadas e desligadas como se acionássemos o interruptor de luz em nossas casas! A economia é um sistema interconectado de cadeias de valor estendidas, ou seja, de cadeias globais de suprimentos.

Não, não serão governantes e prefeitos que irão reconectar tais organizações nos mercados. Serão empreendedores, que, por meio de acordos voluntários ao longo de suas cadeias de suprimentos globalizadas, tentarão fazê-lo. São mesmo os indivíduos livres que estabelecem acordos entre si e que precisam de tempo para que se construam laços sociais de confiança e de comprometimento. Muitos desses acordos estão derretendo agora – e não será o dinheiro estatal (dos contribuintes!) que salvará vidas humanas, empregos, renda, empresas e ecossistemas de negócios!

Pois é, essas histórias é que não são contadas! São omitidas por se tratar de economia, não é mesmo?! Verdadeiras multidões de brasileiros, por nascimento ou por destino, que depositaram seus corações, seu sangue, seu amor, sua compaixão e suas almas em seus negócios, esses sim podem perder suas vidas e a de seus funcionários?!

O isolamento social drástico, “estratégico” para pretensões eleitoreiras e populistas de governadores e prefeitos, abraçado entusiasticamente pela mídia e por apologistas do “100% vidas”, omite imprecisamente o que considero a busca pelo efetivo interesse do bem comum e da legítima preservação de vidas; muitas vidas “econômicas e psicológicas” estão indo para a sepultura, sem a oportunidade e a grandiosidade de terem suas histórias bem contadas e honradas.

Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.