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A opção de Tarso Genro

tarso charlie

“Ser ou não ser Charlie é questão de opção”, disse Tarso Genro em seu twitter. A fala, mais do que uma opinião, é sintoma de um método. Poucas pessoas tem a capacidade de Tarso de condensar a patifaria intelectual de modo tão articulado quanto ele. O que na boca de um Vicentinho seria visto como ópera-búfa, na dele ganha contornos de tese acadêmica.

Derrotado na sua tentativa de reeleição, o agora ex-governador do RS anunciou sua aposentadoria das disputas eleitorais, trocando pleitos pela militância interna no PT. Se a administração pública fica aliviada, o mundo das ideias treme de pavor.

Uma das teses defendidas por Tarso é a da malfadada “regulação da mídia”. A fixação obsessiva pelo tema fez com que se tornasse até ação de governo. Durante seu mandato, torraram 400 mil reais do erário para contratar uma pesquisa que avaliava se o jornal Zero Hora era isento. Não sei a que conclusão chegou a pesquisa, só sei que eu cheguei a conclusão de que Tarso Genro quer colocar os irmãos Kouachi para definir a pauta dos jornais.

Os petistas não querem democratizar a mídia. Quisessem, dariam cabo do instrumento que verdadeiramente impede que haja mais informação livre no país: o monopólio estatal da concessão de sinal de rádio e televisão. É o governo, não os grandes veículos, que impede que mais jornais e mais emissoras, dentro das regras de mercado, ofereçam ao público a diversidade necessária. Não há democratização possível quando a transmissão de um sinal de TV depende da autorização de um departamento governamental subalterno aos interesses políticos.

A proposta defendida pelo partido da Presidente da República, entretanto, passa longe dessas questões, aprofundando o atual problema com uma ofensa aos mais basilares direitos de propriedade. Ela pretende obrigar que redes desfaçam-se de seus diversos canais, impedindo-as de manter, concomitantemente, por exemplo, TV, Rádio e Jornal. Seria o esfacelamento da Rede Globo, do Grupo RBS, entre outros. Some isso as cada vez mais restritas e reguladas propagandas privadas em contraposição a abundância de anúncios do próprio governo, estão dadas as condições para que a chamada “democratização” não passe de uma expressão charmosa para o mais descarado enfraquecimento do jornalismo.

Concordo com o ex-governador quando ele assevera que “ser ou não ser Charlie é questão de opção”. Ser ou não ser Charlie é optar entre o império da lei e a barbárie. É optar pela liberdade de expressão ou pela expressão do autoritarismo. É optar pelos fundamentos que consagraram nossas liberdades ou pelo fundamentalismo que as quer aniquiladas. O sonho de Tarso, e de outros que pensam como ele, é que cada Charlie Hebdo vire um Granma de turbante, e que a mídia nacional se dobre ante o califado da companheirada.

 

Guilherme Macalossi

Guilherme Macalossi

Bacharel em Direito pela UCS e estudante de jornalismo na UNISINOS. É apresentador do programa Confronto, na Rádio Sonora FM

3 comentários em “A opção de Tarso Genro

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    14/01/2015 em 3:04 pm
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    É o governo, não os grandes veículos, que impede que mais jornais e mais emissoras, dentro das regras de mercado, ofereçam ao público a diversidade necessária. Não há democratização possível quando a transmissão de um sinal de TV depende da autorização de um departamento governamental subalterno aos interesses políticos.

    Simplesmente perfeito.

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    13/01/2015 em 11:00 am
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    Preclaro articulista,
    Suas ponderações estão perfeitamente articuladas e fundamentadas. Parabéns. Pena que essa sua qualidade judiciosa não resida entre os “usos e costumes” da nossa alienada sociedade brasileira. Indivíduos como Tarso Genro e todo o seu compadrio partidário, do topo à base, nunca poderiam ocupar cargos em qualquer governo, salvo naqueles que, como o atual, primam pela incompetência, pela hipocrisia, pelo descaso com a coisa pública, pela alienação ideológica.
    Em qualquer outro país minimamente democrático e cônscio dos seus deveres e direitos, esse indivíduo seria execrado publicamente, bem como assim também todo o seu partido e sanguessugas aliados.
    Regredimos, nestes últimos doze anos, a uma obscura (tenebrosa) posição no ranking internacional. Estamos situados hoje, no nebuloso e nefasto universo do capitalismo suicida disfarçado de comunismo raivoso. Um verdadeiro e desconfortável paradoxo, para uma nação como a nossa, cuja posição (por merecimento) deveria ser junto às grandes potências mundiais.
    Parabéns por seu perfeito arrazoado!

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    13/01/2015 em 9:29 am
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    A verdadeira democratização da mídia ocorreu com o advento da internet. Através dela, até mesmo uma completa nulidade como Tarso Genro (bem como sua prole), tem oportunidade de vociferar suas bizarrices, mesmo que de cunho nazista, como a regulação da mídia.

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