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O vírus ideológico e o ceticismo como vacina

Em dicionário comum (não filosófico), ceticismo é sinônimo de descrença, incredulidade, disposição para duvidar de tudo. Sendo assim, o cético seria aquele que, por afetação ou sinceridade, não compartilha crenças geralmente aceitas sobre a religião, sobre a sociedade, sobre a política, etc. Do ponto de vista filosófico, o ceticismo declara que somos incapazes de conhecer e que, podendo os prós e os contras de uma dada questão serem igualmente sustentados, são ambos igualmente insustentáveis, não merecendo a nossa aderência, em consequência do que o cético suspende o juízo, abstendo-se de se pronunciar.

Os céticos não se precipitam como os dogmáticos. Eles são duvidadores, investigadores; não creem nem descreem, não afirmam nem negam, não acreditam nem desacreditam: eles praticam a epoché (suspensão do juízo) para atingir a ataraxia (tranquilidade de alma). Diante da constatação da igualdade de forças entre argumentos contrários, seja no discurso filosófico, seja no discurso do homem comum, o cético exime-se de ter que escolher um dos dois lados como o verdadeiro e, em consequência, ter de assumir apaixonadamente a sua defesa.

Enquanto não for descoberta a vacina contra o coronavírus, queremos, nesse artigo, propor uma dose de ceticismo como remédio necessário para conter o vírus ideológico em tempos de pandemia. Mas um esclarecimento prévio se impõe: ceticismo não é negacionismo. Não há sabedoria filosófica alguma em negar ou minimizar a pandemia. O ceticismo foge das arengas em torno das teorias desencontradas acerca do fenômeno, mas não nega que ele se lhe apresenta. Sendo uma espécie de empirismo ou fenomenismo, o ceticismo se atém ao que aparece, tomando-o por critério de ação, como algo que demanda ao indivíduo uma atitude. Chamemos a pandemia do coronavírus de fenômeno (phainómenon).

A epidemia alastrou-se, sabemos, a partir da província chinesa de Hubei (capital Wuhan), local até então desconhecido da maioria dos ocidentais. Foi a partir das medidas tomadas (ou não tomadas) ali que se desenvolveu o quadro mais traumático possível, culminando na atual pandemia. Uns culpam o governo comunista chinês, outros acusam o capitalismo; uns projetam cenários apocalípticos, outros desconsideram a gravidade do fato; uns corroboram o aparente consenso em torno do isolamento social,  outros denunciam a imposição do isolamento como estratégia autoritária dos governos  e como parte de um projeto totalitário de governança global; uns guardam a quarentena, apesar das dificuldades, outros esbravejam contra ela em meio a facilidades; uns se escondem no discurso bem-intencionado para satisfazerem propensões deletérias, outros têm boas intenções, mas as põem em prática de maneira equivocada.

Não convém negar o fenômeno, que é a pandemia, mas convém ter cautela para não aderirmos cegamente às narrativas em torno dela. Há países na Europa imersos no luto dos enterros coletivos. Lá, tudo o que se podia negar foi negado, tudo o que se podia afirmar foi afirmado – e o vírus fez o seu número de vítimas, indiferente às desencontradas interpretações acerca dele. No Brasil, estamos em estado de catatonia, oscilando entre o negacionismo desvairado e o pânico generalizado. Pelo que sei, somos o único país a protestar exigindo uma normalidade impossível.

O problema da histeria que se expressa naqueles que chamam de histéricos os prudentes é a disseminação do vírus ideológico, junto ao coronavírus. Hoje enfrentamos ambos. Há o risco do colapso do sistema de saúde e há o risco do colapso da saúde mental de um povo ensandecido que optou por defender determinados políticos como quem defende a salvação da própria alma, pondo partido em fórmulas químicas e ideologias em medidas de prevenção.

Uma boa dose de ceticismo, no momento, é o remédio possível. Remédio difícil de engolir em tempos de redes sociais, onde todos se acham na obrigação de opinar sobre tudo. O cético, já o dissemos, não postula dogmaticamente uma posição definitiva. Ele não toma partido. Aprendamos – pelo menos um pouco – com Pirro de Élis (360-270 a.C.) que uma coisa não é mais isto que aquilo e que a indiferença  (adiaforia) é a última palavra à qual devem tender todos os nossos esforços. Não ter opinião é o meio de evitar todas as causas de inquietude; mas poucos hoje, em meio à complexidade do quadro da pandemia, têm a humildade de um Sócrates ou de um Pirro para admitir: “Não sei nada”. Antes creem saber tudo – e esse suposto saber absoluto do qual se acham imbuídos é a receita certa para o caos.

O caos social não será gerado apenas pelo colapso da economia ou do sistema de saúde, mas também pelo desperdício de energia com as contendas inúteis. O caos é gerado quando se trocam iniciativas de solidariedade por mútuas acusações, políticas públicas cooperativas por interesses eleitorais, união familiar e fraterna por arengas em torno da pauta política do dia. O caos social é o som de panelaço misturado a sirenes de ambulâncias, buzinas de carros que protestam em carreatas contra o isolamento, misturando-se com o som das britadeiras usadas para erguer um hospital de campanha. O caos já é a miséria moral dos que superfaturam obras em meio à calamidade pública convivendo com a miséria real de um povo sem saneamento básico e sem trabalho.

Em meio a tudo isso, a luta do cético é um tanto inglória. Talvez ele não duvide de que há um povo sufocado pela má-fé, pela falta de compaixão e de dignidade de quem o governa. Isso faz parte do que se apresenta, do que salta aos olhos e não pode ser negado; assim como não se pode negar a ocorrência da pandemia. Mas a aderência ao sofrimento como fenômeno, como um pathos com o qual precisaríamos lidar, é dificultada pela interferência das narrativas que nos distanciam do outro, do semelhante, do próximo do qual poderíamos nos apiedar e a quem deveríamos ajudar, ligando-nos a políticos que desconhecem a nossa existência, mas que – algo difícil para um cético entender – são adorados ou odiados e, nessa adoração ou nesse ódio, tecem o destino de uma coletividade cega.

Catarina Rochamonte

Catarina Rochamonte

Catarina Rochamonte é Doutora em Filosofia, vice-presidente do Instituto Liberal do Nordeste e autora do livro "Um olhar liberal conservador sobre os dias atuais".