O que importa no governo Bolsonaro?

Ao assistir aos discursos de posse do novo presidente, Jair Bolsonaro, identifiquei basicamente todas as bandeiras que sempre defendi e com que sempre me identifiquei: a ênfase na tradição ocidental, no anticomunismo, no patriotismo, na descentralização, no respeito às liberdades individuais e religiosas, na divisão de poderes e na liberdade de mercado. À revelia das limitações dele e de sua base de apoio, bem como do caminho desafiador que terá pela frente, é forçoso reconhecer isso.

No entanto, de imediato surgiram críticos cujos comentários vale a pena examinar. Muitos consideram que Bolsonaro deveria ter se atido a uma explanação técnica em seu primeiro contato com o povo como mandatário da República – um contato, diga-se, de caráter cívico e festivo, que é a cerimônia de posse. Alguns dizem que a importância dada, nos discursos do dia primeiro de janeiro e nas entrevistas e posicionamentos que já vinham sendo externados, à política externa, à parceria com Israel ou à mudança da embaixada brasileira naquele país para Jerusalém, por exemplo, seriam “distrações”, questões supérfluas, na medida em que, no governo Bolsonaro, apenas a segurança e a economia de fato importam.

O jornalista Geraldo Samor fez questão de enfatizar que a ruptura econômica liberal representada por Paulo Guedes é o que realmente tem valor e Bolsonaro deve se concentrar nela e abdicar de algumas outras questões que vinha defendendo – identificadas vagamente como “pautas de costumes”. Ele citou ainda o estimado economista Gustavo Franco, para quem Bolsonaro não deve se meter a ser um “Trump fora de contexto” e temas relativos às relações com Jerusalém seriam meras “distrações” a serem esquecidas.

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Os críticos são essenciais. É importante haver militantes e formadores de opinião mais animados, pessoas que manifestem mais precauções e ceticismos e até mesmo que haja oposição, a fim de que se estimule um trabalho mais completo (embora a oposição ser o PT e o PSOL seja uma desgraça). Não existe unanimidade e a unanimidade não rima bem com a democracia. Sendo assim, julgo bem-vindo e relevante que esse tipo de pressão seja realizada e, evidentemente, a pauta de segurança pública e a pauta de economia são – eu diria que nessa ordem – as prioridades absolutas para o Brasil real, o Brasil profundo, que precisa pagar as contas e não sabe se chega vivo em casa.

Dito isso, no entanto, não concordo com a abordagem dos críticos mencionados acima e explico o porquê. Não considero, em princípio, que dignificar a política externa, dar nome aos bois e evocar a sensibilidade patriótica sejam “distrações”. Além do fato óbvio de que as parcerias certas trarão benefícios concretos, símbolos e códigos são e sempre foram importantes para envolver os setores da sociedade em torno de um propósito, e esse talvez seja um dos grandes papeis de um líder político.

Teria Ronald Reagan equacionado os problemas legados pela gestão de Jimmy Carter falando apenas em reformas econômicas e não apelando aos “valores fundantes americanos”, seu espírito de liberdade e liderança e sua representatividade no mundo? Teria Churchill inspirado os britânicos ao sacrifício extremo na conflagração mundial sem apelar à luta pelo “modo de vida” da “civilização cristã livre” e do “grande império britânico”? Teria Margaret Thatcher levado adiante sua cartilha hayekiana sem entusiasmar seus adeptos com sua constante evocação patriótica (aliás, aprove-se ou não o método, ela renovou esse entusiasmo ao vencer a Guerra das Malvinas, em contexto que para ela estava politicamente delicado)?

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Por que exigir de Bolsonaro que abdique de seu entusiasmo por colocar o Brasil em uma posição de dignidade entre as nações do mundo e, em vez disso, simplesmente profira colóquios sobre a Reforma da Previdência seria necessário para implementá-la? Não seria antes o oposto? A História parece demonstrar que sim. O líder político oferecer aulas de SELIC e Curva de Laffer aos seus eleitores nunca foi o caminho mais efetivo para realizar reformas liberais. É preciso construir sinergia.

Evidentemente, o governo tem a obrigação de apresentar um quadro preciso das reformas econômicas e deverá ser cobrado pela sua qualidade, dimensão e eficiência; mas tudo fica mais fácil, até mesmo os sacrifícios necessários, se tivermos orgulho ou entusiasmo com nosso país, sua representatividade internacional e suas escolhas. Não é preciso descartar setores para valorizar outros; antes uma e outra coisa podem colaborar mutuamente.

Não é preciso deixar de pressionar a ditadura de Maduro para favorecer a economia e a segurança internas; ademais, não será de nosso interesse conter a miséria que grassa ao nosso lado e limitar o fluxo desenfreado de refugiados para o norte de nosso território? Não é preciso, nem parece lícito, deixar de respeitar a decisão soberana do estado de Israel quanto à sua capital para atingir os mesmos fins. É claro que teremos contradições com todos os países e não temos que ser meros capachos de ninguém. Porém, parece evidente que nos interessa a proximidade com as democracias ocidentais e o fortalecimento delas com nossas posições e votações nos fóruns internacionais, por uma questão de identidade natural de disposições e porque valorizá-las tende a ser mais próspero e digno para a convivência de todos.

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O incômodo que essas posições estão provocando, especialmente entre certos setores da imprensa cujo viés estamos fartos de conhecer, já indica que elas aumentam nossa importância. Como pode não ser do interesse do Brasil e dos brasileiros que o país aumente seu peso e sua importância? Não se trata de distrações. Podem ser até recursos úteis para alcançar os resultados necessários e urgentes nas outras esferas.

Se, naturalmente, forem bem aproveitados. Eis o que veremos a seguir.

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