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O que explica a recuperação do rublo russo em relação ao dólar?

Após uma queda surpreendente em março, a primeira semana de abril mostrou uma incrível recuperação do rublo russo em relação ao dólar e ao euro, praticamente zerando as perdas. Como isso foi possível?

Em primeiro lugar, temos que levar em consideração alguns fatos. Controles maciços de capital foram implementados na Rússia após as pesadas sanções do Ocidente, e nenhum cidadão ou empresa russa pode vender rublos para comprar moeda estrangeira. É impossível saber o que teria acontecido com a moeda russa se os controles de capital não tivessem sido implementados. Em outras palavras, o preço “de mercado” do rublo russo não reflete uma mudança abrupta na oferta e demanda, mas sim os efeitos dos controles de capital.

É impossível saber com exatidão qual é o preço que está sendo praticado na informalidade, mas há informações de que, no “submundo”, o rublo está bem mais desvalorizado do que no mercado controlado. De acordo com o Business Insider, existem grupos clandestinos usando o Telegram e outros chats de mídia social onde os russos podem comprar ou vender moeda estrangeira. Nele, os rublos tendem a ficar entre 30% e 50% mais “pobre” que no câmbio oficial.

Além do estrito controle de capitais, existem outros dois motivos pelos quais o Banco Central russo está evitando o colapso: a China e as exportações de energia para a Europa. A Rússia continua a exportar gás natural para a Europa, o que significa que centenas de milhões de euros estão entrando em suas reservas internacionais. O Banco Central russo está realizando leilões diários com exportadores de energia para canalizar liquidez e evitar inadimplência.

A Rússia recentemente ameaçou cortar o fornecimento de gás para a Europa se os clientes da área do euro não comprassem seu gás em rublos. Isso forçaria os europeus a venderem euros e comprar rublos à taxa oficial — cujo preço oficial é irreal, conforme expliquei acima. Claro que não passou de bravata, haja vista que contratos não podem ser reescritos pela vontade de uma das partes. Forçar os clientes importadores a comprar a moeda local é muito mais difícil do que se imagina. Se fosse assim tão fácil, países como Venezuela, Irã e Argentina não teriam uma demanda global tão baixa por suas moedas domésticas. Apesar de a Rússia ter uma economia mais forte que tais nações, ela não é forte o suficiente para aplicar tal medida com sucesso.

A China tem sido um canal pelo qual o Banco Central Russo tem conseguido atuar para manter o fluxo financeiro que tem ajudado a evitar um colapso total do sistema russo. Além disso, a Índia está aproveitando descontos de 20% oferecidos pelo petróleo russo dos Urais para comprar mais barato. Isso mostra que, na prática, não há como isolar financeiramente uma nação por completo — especialmente uma vendedora de petróleo. Porém, isso não significa que as sanções não prejudicam o sistema financeiro russo ou sua economia real. Prejudicam e muito. A indústria russa de transformação, por exemplo, está ruindo; mas isso não acontecerá do dia para a noite.

Por outro lado, as moedas digitais têm sido um alívio modesto para os cidadãos russos preservarem o poder de compra — o Bitcoin subiu de 38 mil dólares para 46 mil desde que a guerra começou. É interessante observar que Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, disse que as criptomoedas são usadas por oligarcas russos para evitar as consequências das sanções. Na verdade, o que tem aliviado – ainda que pouco – as sanções é o apoio do sistema financeiro chinês e a compra de gás por parte da Europa — merecendo destaque a Alemanha, que tem a incrível capacidade de estar do lado errado em toda guerra.

Aliás, mesmo com o conflito, os alemães continuam com os mesmo planos de fechar suas usinas nucleares. Sim, a Alemanha vai parar de comprar gás russo, mas só em 2024. Até lá, eles seguirão dando dinheiro para a Rússia aterrorizar a Ucrânia. Olaf Scholz se comporta como um Michael Corleone com o seu colega Zelensky: “It’s not personal, its just business”.

*Artigo publicado originalmente por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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