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O presidente está demonstrando o quão “liberal” realmente é

Pergunte para qualquer liberal que mantenha, ainda hoje, um apoio frenético e incondicional ao governo Bolsonaro a raiz de seu apoio e, de dez em cada dez casos, receberás como resposta que se trata de um endosso às pautas econômicas liberais, em especial às privatizações. Se na réplica você apontar para o número de estatais já privatizadas nestes dois anos de governo que se completam – zero -, certamente terás como resposta que o problema é o Congresso, o qual estaria atravancando as privatizações, a despeito do “espírito privatista” do governo. Bom, tivemos uma amostra do quão genuíno é esse espírito com o discurso do presidente Bolsonaro na Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) nesta terça (15). Transcrevo a fala do presidente na ocasião: “Para quem fala em privatização, enquanto eu for o presidente da República, essa é a casa de vocês. Nenhum rato vai querer privatizar isso aqui para beneficiar seus amigos”.

Tenho certeza de que os habituados a “passar pano”, já tendo passado para coisas muito piores, encontrarão a desculpa perfeita, talvez até alegando, quem sabe, que o vídeo em que Bolsonaro fala claramente o transcrito acima foi editado. É aí que se vê o quanto o apoio dessa turma se dá com base em pautas econômicas e o quanto se dá por pura paixão cega a um personagem político que sequer se esforça para ocultar as suas contradições. Que Bolsonaro não é, nem nunca foi um liberal, já escrevi diversas vezes, mas aqui há uma diferença entre os que aceitam isso, mas veem como positivo o fato de ele ter nomeado Guedes, e os que, a despeito da biografia altamente estatista do outrora deputado, juram de pés juntos que ele é mais liberal do que o próprio Adam Smith. O primeiro grupo só pode ser coerente se de fato cobrar aquilo por que anseia – e se for realista ao reconhecer que o que se entregou até agora é pífio e aquém do que o prometido, a despeito do otimismo delirante de Guedes. Já o segundo grupo vai assistir ao presidente esbravejando contra uma pretensa privatização da Ceagesp e fingir que nada aconteceu.

Já é bastante ruim que uma parcela significativa dos liberais brasileiros seja tomada por um economicismo exacerbado que os guia em tudo – eis um dos males que precisamos superar -, mas é pior ainda que apoiem incondicionalmente um governo, guiados por este mesmo economicismo, para depois descobrirem que até isso era ficção. Claro, não quero com isso dizer que privatizações não possam ocorrer nos próximos dois anos, mas se meu pessimismo lhes soa como “torcer contra”, é porque os fatos estão aí. Só não os vê quem não quer.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.