O politicamente correto e os liberais

Para iniciar o ano havia cogitado escrever um artigo fazendo um balanço do primeiro ano do mandato de Bolsonaro, mas como há já muito material do gênero produzido e como não pensei que pudesse acrescentar algo realmente diferente nesse aspecto, decidi aproveitar para abordar outro tema que está constantemente presente nas discussões políticas contemporâneas: politicamente correto.

Minha primeira impressão sobre aquilo que se chama de politicamente correto é que ele possui duas facetas perversas. A primeira, e mais evidente, é a tentativa de censura cultural. Munidos de um argumento vitimista, os advogados do politicamente correto não querem outra coisa senão calar os divergentes, sempre argumentando que a divergência representa uma ofensa e que não deve ser, portanto, tolerada. Os exemplos se acumulam: peças de teatro, filmes, músicas, propagandas e muito mais já foram alvo dos justiceiros sociais do politicamente correto. Claro que a censura cultural não é o fim e sim o meio que escolhem para atingir seu desiderato de fato, que é a censura estatal. Entre estes há os que não fazem o mínimo esforço para esconder seus anseios autoritários, apoiando e defendendo até mesmo a condenação e prisão de humoristas ou qualquer um que se entenda ser “ofensivo”. Notem que, embora o politicamente correto seja, com razão, comumente associado com a esquerda, não se limita a ela, e também há o que costumo chamar de politicamente correto de direita, que opera basicamente da mesma forma apenas mudando os alvos e as queixas. Prova disso é o questionamento apregoado já há alguns anos pelos progressistas sobre qual seria o limite do humor sendo feito também por quem diz rechaçar o vitimismo e a censura com base na ofensa.

Independentemente de serem de esquerda ou direita, as tentativas de calar e clamar pela censura estatal e prisão dos “agentes da ofensa” compartilham o mesmo modus operandi. Faz todo sentido, portanto, que os liberais, para quem a liberdade de expressão é tão cara, se oponham com veemência à faceta autoritária do politicamente correto. Não é preciso concordar com o “agente da ofensa” para defender seu direito de expressar suas opiniões, por mais controversas que possam ser, exceção obviamente feita para quem abertamente convoca em apologia o cometimento de crimes.

A segunda faceta, menos aparente que a primeira, é que o politicamente correto deu para aqueles que de fato destilam preconceito um escudo contra as críticas. Como já disse, a reação ao politicamente correto é natural e correta. Ocorre que pessoas que em outros tempos não tinham coragem de expressar seu ódio por certas minorias, e aqui podemos incluir pessoas que são de fato racistas, homofóbicas, machistas, xenófobas e por aí vai, agora o fazem mascarando isso como uma “reação” ao politicamente correto. Ironicamente o politicamente correto, com todas as suas neuras e exageros, deu para os reacionários a confiança para saírem do armário.

 Por ser menos aparente, essa segunda faceta pode ser ainda mais perversa que a primeira pelas consequências que traz. Uma dessas consequências é que essas pessoas, que certamente são a exceção entre os sensatos que rechaçam o politicamente correto, acabam servindo como instrumento de ataque pelos justiceiros sociais, que vão sempre tentar pintar os divergentes como partidários do mesmo preconceito. Essa tática, com frequência transmutada no conceito tosco e antidemocrático de “lugar de fala”, é muito usada quando se discutem certas políticas públicas. Peguemos as cotas raciais como exemplo. Apesar de serem custeadas com dinheiro público, isto é, pelo dinheiro dos contribuintes, muitos destes deveriam, seguindo a lógica deles, se abster do debate por este não ser seu “lugar de falar”, afinal não são negros. Claro que essa tática só logra êxito quando as pessoas compram o vitimismo e escolhem se calar, o que torna a reação a estes censores culturais, legítima e necessária.

Outra consequência é que essa faceta tende a afastar qualquer manifestação de simpatia com qualquer minoria, provocando, até mesmo em muitos liberais, o temor de receberem o rótulo de progressistas. Quem cai nessa acaba favorecendo a tentativa das esquerdas de capitanearem e serem donas das minorias e o estereótipo da direita como intolerante. Não se trata de defender a censura cultural, coisa distante do liberalismo, mas de se solidarizar com aquelas queixas e demandas que são legítimas, reconhecer as formas de preconceito que ainda persistem. O remédio oferecido pelos progressistas do politicamente correto é péssimo e até mesmo agrava o quadro, mas isso não significa que as enfermidades sejam todas forjadas no exagero. 

É nesse ponto que atuam aqueles que encaram a liberdade de expressão como uma virtude circunstancial, confundindo a crítica com a censura. Isso ocorre muito quando os liberais criticam alguma fala infeliz – não faltam exemplos – do presidente ou de algum membro do governo. No mesmo momento aparece alguém do séquito apontando o que entendem ser uma contradição dos liberais em defender a liberdade de expressão e criticar a opinião de alguém que se expressa livremente. Com o devido respeito, é preciso comer capim para dizer isso. Há uma diferença brutal entre defender a censura e a punição de alguém por causa de uma opinião e se limitar a criticar essa opinião ou a pessoa que a emitiu. Peguemos como exemplo o pessoal da intervenção militar, que volta e meia aparecia para emporcalhar com seus cartazes as manifestações pelo impeachment da Dilma. Há quem defenda que sua defesa da ditadura deveria incorrer em crime e que deveriam ser presos por isso. Rechaço tal tese e não acho que devessem sofrer qualquer punição, o que não significa que devem estar imunes às críticas, afinal criticar não arranca pedaço de ninguém. Outro argumento do gênero é que o incômodo com tais falas infelizes proveria de uma “sensibilidade” exacerbada. Nesse ponto não posso deixar de concordar com alguns progressistas ao ter minhas suspeitas em relação a “virilidade” que esse pessoal tanto apregoa nas redes.

Liberdade de expressão é para dizer o que se pensa sim, mas é para ser livremente criticado pelo que expressou também. Não há censura nisso. Aliás, sugerir que membros de um governo, qualquer que seja, deveriam passar incólumes diante de besteiras manifestadas em palavras ou ações é de um servilismo que passa longe de qualquer corrente liberal.

O mesmo vale para discursos que são “de fato” preconceituosos, e não abstrações exageradas de coisas do cotidiano. Ainda que não se trate de uma discussão política, em termos de defesa de políticas públicas específicas como remédio, é do próprio caráter dos liberais, defensores  dos indivíduos de maneira impessoal, rechaçar qualquer tipo de discurso que vise a desprezar os membros de uma sociedade com base em critérios de cor, sexo, opção sexual e por aí vai. Acredito que os liberais devem manter a reação aos autoritários do politicamente correto, mas também devem buscar reconhecer aqueles que se aproveitam dessa reação para destilar ódio e preconceito, bem como não devem aceitar o pretenso monopólio das esquerdas sobre as minorias, que podem sim encontrar alento no individualismo liberal.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.