O “pistolão” ainda funciona no Brasil?

No verão de 1967, num dia de sol, minha mãe e eu saímos de casa. Morávamos no Promenade, na avenida José Bonifácio, e atravessamos o Parque da Redenção em direção ao Colégio de Aplicação, uma das duas escolas que eu havia feito exame de admissão para o ginásio. Sim, naquela época se fazia exame para […]

No verão de 1967, num dia de sol, minha mãe e eu saímos de casa. Morávamos no Promenade, na avenida José Bonifácio, e atravessamos o Parque da Redenção em direção ao Colégio de Aplicação, uma das duas escolas que eu havia feito exame de admissão para o ginásio. Sim, naquela época se fazia exame para sermos admitidos nas escolas que desejávamos estudar. Depois de ter me formado no Grupo Escolar Roque Callage com excelentes notas, minha mãe me levou para tentar o ingresso em duas das melhores escolas de Porto Alegre, o Colégio de Aplicação, que era vinculado à UFRGS e pertencia ao governo federal, e o Colégio Israelita, escola privada, mantida pela comunidade judaica da cidade. Eu já sabia que no Israelita eu havia passado em terceiro lugar, mas eu queria mesmo era estudar no Aplicação porque um dos meus melhores amigos do Roque Callage, o Júnior, ia estudar lá. Por incrível que pareça, no Israelita eu não conhecia ninguém. Depois de cruzar o Parque da Redenção, eu e minha mãe chegamos àquele prédio moderno do Colégio de Aplicação. Ele ficava no campus central da universidade. Dali, a gente via, do outro lado da rua, o prédio majestoso da Reitoria. Eu imaginava que estando ali, eu aprenderia mais. Lembro que fomos atendidos no corredor por uma professora muito simpática que disse que eu havia ido muito bem na prova, mas como as vagas eram limitadas, eles davam preferência para os filhos de professores da UFRGS ou aqueles que haviam sido encaminhados com um pistolão. Eu não sabia o que era pistolão, mas a reação da minha mãe esboçando algo entre a tristeza e a raiva, me fez pensar que aquilo não era algo bom. Se fosse, percebi que nós não tínhamos aquela coisa. A professora passou a mão na minha cabeça e disse que ficaria feliz se eu fosse seu aluno, porque ela viu que eu era estudioso e comportado. Minha mãe agradeceu meio contrariada, me pegou pelo braço e fomos embora. Não sei o que eu perdi por não ter estudado ali, mas sei o que ganhei por não ter sido aceito. Ter estudado no Colégio Israelita foi uma experiência incrível.

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Quando voltávamos para casa, a minha mãe me explicou o que era ter um pistolão. Ela dizia: é quando se tem alguém influente para abrir portas que normalmente se fecham para quem não tem um.

Hoje, olhando para trás, vejo que na realidade sempre existiu sistema de cotas na escola pública. Naquela época, os critérios de admissão tinham outra subjetividade, eles privilegiavam quem fosse indicado por professores ou burocratas ligados ao MEC, à UFRGS ou ao próprio Colégio de Aplicação, em detrimento daqueles que deveriam entrar por mérito.

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Talvez eu esteja sendo auto-condescendente. Talvez eu realmente não tenha ido bem na prova e essa ideia de que, no Brasil pistolão funciona, é coisa da cabeça de um liberal como eu.

É, eu devo estar errado, no Brasil, pistolão é coisa do imaginário liberal. Tudo que envolve o governo é para o bem e o interesse comum. Se eu quisesse entrar numa escola destinada à elite, eu deveria ter estudado mais para aquelas provas, esse negócio de pistolão é bobagem.

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