O pior e o melhor dessas eleições

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Pior do que o uso despudorado da máquina estatal em benefício dos candidatos do governo foi a consolidação de duas novas lideranças socialistas. O futuro de nossas preocupações está garantido.

Da mesma forma que quando, numa favela, um traficante morto pela polícia logo é substituído por outro, o desgaste do Partido dos Trabalhadores está abrindo espaço (mercado) para o Partido Socialismo e Liberdade. Por baixo do discreto percentual de 1,5% dos votos, Luciana Genro conseguiu arrebanhar mais de 1,6 milhão de eleitores em todo o Brasil. Quem são eles? A grande maioria é formada pela juventude “cool” de classe média que, na farra ideológica do dia-a-dia, enxergaram na gaúcha o mesmo discurso revolucionário que eles próprios ruminam diariamente, entre um baseado e outro. As imbecilidades dela coincidem com as imbecilidades deles. É de se preocupar porque esse pequeno rebanho tem grande potencial de inserção social por conta de seus representantes culturais que, obviamente, logo estarão militando em coro pelo PSOL. Todos os que votaram em Luciana Genro fizeram também campanha, ostentaram “avatars” em seus perfis do Facebook e muitas vezes empenharam defesas apaixonadas das propostas da candidata, assumindo desde já a função de militantes. Em pleno século XXI, acreditam que a solução para o país é a estatização do sistema financeiro, a reestatização de empresas, o calote da dívida pública e a reforma política e agrária desenhada pelos “movimentos sociais” liderados pelos partidos de esquerda. Para eles, a história política e econômica da humanidade não serve para nada!

É bom termos sempre viva a lembrança de que Lula começou sua carreira fazendo exatamente o mesmo discurso que Luciana Genro faz hoje, como uma sutil diferença: Lula evocava a guerra, Luciana evoca o amor e a bondade – quem conhece um pouquinho de história sabe o que líderes socialistas com discursos semelhantes foram capazes de fazer.

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Aos que acham esta preocupação exagerada, aponto para o Rio de Janeiro, onde Marcelo freixo não apenas foi reeleito, como puxou para dentro da Assembleia mais 4 companheiros devido ao grande número de votos que recebeu, mais de 300 mil. Marcelo Freixo é o queridinho da burguesia socialista carioca. Anotem: Tanto ele quanto Luciana Genro construirão seus nomes diminuindo o radicalismo nos discursos e evitando cargos no executivo; limitando as críticas de seus adversários, concorrerão a presidência quantas vezes forem necessárias até ocorrer o que ocorreu com Lula, quando a sociedade apenas disse: “Ok, vamos dar uma chance para ele”. Lula nunca tinha sido prefeito ou governador.

Parte de um futuro sombrio talvez esteja começando a ser desenhando no Maranhão, que deu um passo para o lado ao interromper a dinastia Sarney elegendo para o governo estadual um candidato do PCdoB. Um amigo meu foi preciso no sarcasmo: “O Maranhão se tornou a Rússia brasileira ao trocar uma monarquia pelo comunismo”. Flávio Dino surpreendeu a todos ao dizer que fará um “choque capitalista”, tentando nos fazer crer que incentivará a iniciativa privada. Quem acredita?

Devemos computar também as manifestações homofóbicas de Levy Fidelis e os votos que Eduardo Jorge conquistou apenas por sua simpatia, por ele usar bicicleta e defender o uso da maconha, ou seja: ainda há tanto um público que aceita a homofobia quanto um público que acredita que basta ter a estampa de “tio doidão” para estar qualificado a ser Presidente da República. Para piorar o quadro, os liberais não conseguiram emplacar nenhum deputado.

Precisaremos de tanta sorte quanto os maranhenses.

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A espetacular ascensão de Aécio Neves nos dias que antecederam a votação, saindo de 20% para os 35% no resultado final do 1° turno é uma esperança de que ele, pelo menos, tire o PT do poder. A que ponto chegamos: recorrer a um estatista para interromper um processo de consolidação de um bloco socialista na América do Sul viabilizado com dinheiro público brasileiro! É verdade que hoje, agora, não vivemos nenhuma desgraça política e econômica, mas os números, gráficos e os movimentos do atual governo e o exemplo da Venezuela e da Argentina desenham um horizonte caótico e de total dependência estatal. Porém, não tenhamos ilusões: Caso eleito, Aécio não privatizará nada, não cortará o “bolsa empresário” do BNDES e o PSDB apenas substituirá o PT nos escândalos de corrupção. Continuamos no Brasil. Devemos esperar dele apenas o desaparelhamento ideológico do Estado, o enxugamento da máquina estatal e uma reforma fiscal e burocrática que facilite a vida dos micros, pequenos e médios empresários, para que ocorra uma distribuição de renda honesta, entre aqueles que trabalham. A eleição de Aécio seria a substituição de um projeto ideológico por projeto administrativo.

Indico que o melhor desse processo eleitoral foi o papel do Facebook. Além da zoeira com a imagem, com as palavras e com as ideias de cada candidato, especialmente durante e logo após cada debate na televisão, vimos também o poder de milhões de indivíduos dispersos em todos os lugares tecendo e manifestando suas opiniões sobre todos os temas abordados. Nunca antes a sociedade discutiu tanta política. Sem pedir licença, o Facebook não apenas integrou todas as pessoas em sua gigantesca teia, mas também diminuiu drasticamente o poder de manipulação da grande mídia e dos partidos políticos. Hoje, reportagens e panfletagens não apenas ganham repercussão instantânea, mas também são submetidas a análise mais aprofundada de todos aqueles que queiram extrair a verdade. Fontes de informações são checadas em poucos segundos. Todas as contradições dos candidatos são levadas ao público em minutos por meio do resgate de vídeos, imagens ou reportagens anteriores. Hoje, podemos cruzar nossas opiniões com as de outras milhões de pessoas e também ler, em tempo real, a opinião de colunistas de blogs e jornais. Nunca antes na história o indivíduo comum teve tantas condições de moldar suas opiniões sobre tudo a sua volta. O resultado disso é que os políticos começam, de fato, a considerar a opinião pública porque sabem que cada palavra, que cada promessa, que cada gesto está sendo eternizado numa nuvem de dados disponível para consulta de qualquer pessoa.

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A lição que devemos tirar disso é sobre o poder social e político de cada indivíduo agindo espontaneamente: letras em caixa-alta substituindo punhos erguidos e publicações, likes, comentários e compartilhamentos substituindo manifestações nas ruas. O Facebook nos prova que cabe ao indivíduo ter o discernimento sobre a veracidade dos fatos e sobre qualidade de produtos e pessoas, não ao Estado por meio de regulações.

A atenção que devemos ter é com a preservação dessa liberdade e dessa ferramenta que, certamente, deve estar incomodando muito os piores quadros da política brasileira.

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Comentários

  1. BRILHANTE no ÚRTIMU!!!

    Devo dizer que há anos não via um artigo tão briolhantemente escrito. Tocando em pontos absolutamente necessários e pouco refletidos.
    Enfim, um dos melhores artigos que já tive a oportunidade de ler.